Chegados ao final do ano, importa fazer um balanço geral sobre os acontecimentos com mais impacto a nível mundial. A pergunta que se segue acaba por ser: quem teve um papel determinante sobre os eventos mais importantes do ano?
Para mim, em 2014, a Personalidade do Ano foi Vladimir Putin. Em 2013, a Personalidade do Ano também foi Vladimir Putin.
Para a TIME, a Personalidade do Ano de 2015 é Angela Merkel. A AFP também escolheu a Chanceler alemã e o mesmo diga-se do Financial Times. Os três são unânimes quando alegam a intervenção de Merkel na Zona Euro e a forma como liderou a questão dos refugiados.
Se os motivos são realmente estes, a escolha parece-me forçada e até desenquadrada da realidade. Em primeiro lugar, porque nada de relevante aconteceu na Zona Euro além da desvalorização da moeda face ao dólar e face à libra esterlina. Se a questão da Zona Euro justifica o título, então mais facilmente a Personalidade do Ano de 2015 seriam Alexis Tsipras ou Yanis Varoufakis. A menos que consideremos um êxito a acção de Angela Merkel que faz com que cada vez mais países pensem em abandonar a Zona Euro - parabéns, Chanceler!
Em segundo lugar, a história dos refugiados está mal contada e muito romantizada - talvez com o objectivo de levar Merkel ao Prémio Nobel em 2016 ou 2017? Vejamos porquê:
- Desde logo, porque continua sem separar refugiados de migrantes económicos e, a bem do impacto junto do público, têm sido todos misturados como fazendo parte do mesmo problema para dar a ideia de que os Estados estão a ser solidários e a acolher pessoas que, de facto, preenchem os requisitos para serem considerados refugiados;
- Simultaneamente, também parece querer negligenciar a separação entre refugiados, migrantes económicos e potenciais agentes terroristas;
- Em terceiro lugar, a clara esquizofrenia que Merkel evidencia quando defende publicamente uma política de abertura de portas a todos, na qual "não há limites numéricos", bem como que "a Europa não pode tornar-se uma fortaleza"... ao mesmo tempo que encerra e controla as fronteiras e viola os Acordos de Schengen;
- Como pode Merkel elogiar a globalização e criticar o multiculturalismo?
- Merkel alega defender os refugiados mas destaca as Forças Armadas para a Síria para fazerem ninguém sabe exactamente o quê;
- E o que dizer de promover a entrega de 3 mil milhões de euros à Turquia para controlar o fluxo de refugiados que a própria Turquia facilitou - já agora, o que têm a ver com refugiados a aceleração das negociações para a adesão da Turquia à União Europeia e a flexibilização da circulação de cidadãos turcos no Espaço Schengen?
- Segundo consta, a União Europeia tem em curso planos para expulsar centenas de milhares de requerentes de asilo - onde está Nossa Senhora Merkelina de Berlim?;
- Não podemos esquecer que os requerentes de asilo estão a ser "depositados" em ginásios alemães;
- Finalmente, não deixa de ser curioso o facto de empresas de segurança privada estarem a lucrar com a presente crise dos refugiados.
São mais que muitas as tentativas de beatificação de uma falsa samaritana
Face ao exposto, deve Merkel ser considerada Personalidade do Ano de 2015? Insisto: porquê?! Afinal, talvez seja por mais um exemplo de esquizofrenia: por um lado, defende uma aproximação à Rússia; por outro lado, promove e aprova sanções contra Moscovo.
Na minha opinião, Angela Merkel não foi verdadeiramente influente e, mais importante, não foi global. A sua jurisdição continua a resumir-se ao espaço europeu.
Por todos estes motivos, a Personalidade do Ano de 2015 é, sem sombra de dúvidas, Vladimir Putin. Novamente e com cada vez menos surpresa.
Por todos estes motivos, a Personalidade do Ano de 2015 é, sem sombra de dúvidas, Vladimir Putin. Novamente e com cada vez menos surpresa.
O próprio nome Vladimir já diz tudo: significa Dono (Vlad) do Mundo (mir). Mas "mir" também significa Paz e foi esse o maior contributo de Putin, em 2015. O crédito não reside unicamente no Presidente russo, sendo impossível ignorar o papel determinante do seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, para a expansão da influência da Rússia a nível mundial.
Vejamos a cronologia de acontecimentos com intervenção de Vladimir Putin no presente ano:
Vejamos a cronologia de acontecimentos com intervenção de Vladimir Putin no presente ano:
- O Presidente russo começa o ano com um nobre reconhecimento de Mikhail Gorbachev, de que, se não fosse Putin, a Rússia ameaçava desintegrar-se;
- Aquele que é acusado de ser ditador e de impôr a censura lidou muito bem com as críticas da "Igreja da Cientologia", quando esta seita viu ser-lhe vedado o estatuto de entidade religiosa e atirou-se às instituições do país, acusando mesmo a "justiça de estar doente";
- O desespero para o atingir é tanto, que até são "descobertos" e divulgados documentos classificados do Pentágono que alegam que Putin sofre de síndrome de Asperger. Os supostos documentos não foram desclassificados, pelo que não podiam ser tornados públicos, mas não veio daí grande escândalo já que referem-se ao PR russo;
- Ao contrário do que outros países fariam caso um seu país aliado fosse alvo de um golpe de Estado, a Rússia reconhece Petro Poroshenko como Chefe de Estado da Ucrânia e acordou um cessar-fogo com o seu homólogo ucraniano;
- Boris Nemtsov não era líder da oposição - na Rússia a oposição é liderada pelos comunistas - e nem sequer uma ameaça política à liderança de Vladimir Putin, mas, ainda assim, muitos não hesitaram em promover teorias da conspiração de que o Presidente russo e o seu aparelho são responsáveis pela morte do primeiro, em Fevereiro. Putin não só não tinha qualquer interesse nisso (até porque nada ganhava) como ordenou a abertura de um inquérito que continua em curso para julgar e condenar os autores do homicídio e que já identificou os suspeitos. Como seria de prever, nada é suficiente para o mundo ocidental e sucedem-se as ressalvas de que estão a ser julgados inocentes para encobrir os crimes de agentes oficiais;
- Quantos Chefes de Estado são recebidos como Vladimir Putin foi recebido no Egipto, em Fevereiro?
- Vladimir Putin continuou a expandir a sua influência na União Europeia, vejam-se os casos da Hungria e da Grécia;
- Ao longo de 2015, o maior centro de todo o tipo de especulação foi Vladimir Putin, chegando até a questionar-se a sua ausência e se estaria doente, prestes a morrer ou prestes a abandonar o poder;
- Não nos podemos esquecer que, no final de Março, Putin voltou a trazer a questão da Palestina para a ordem do dia assumindo que a Rússia defenderá a independência deste Estado árabe;
- Em Abril, foi eleito Pessoa Mais Influente pelos internautas;
- Sucederam-se as provas de que Putin é uma das raras personalidades que resiste à pressão israelita;
- Continua a dar um dos maiores exemplos de aproximação à população ao receber e responder a perguntas e pedidos dos russos e envergonha as conferências de imprensa ocidentais com a sua sessão anual, em directo, com cerca de 1.400 jornalistas russos e estrangeiros onde as questões e intervenções são seleccionadas de forma aleatória, arriscando-se a ouvir declarações, no mínimo, incómodas;
- Foi peremptório quanto às intenções de não intervir militarmente nos Estados do Báltico;
- No centenário do extermínio dos arménios às mãos do Império Otomano, Vladimir Putin foi dos poucos Chefes de Estado que, ao contrário de outros, corajosamente ousou qualificar o sucedido como "genocídio" e participar nas cerimónias em Erevan;
- Até o futebol se tornou uma arma de arremesso contra a Rússia e contra a credibilidade de Putin: a atribuição do Mundial de 2022 ao Qatar sempre foi o maior caso de corrupção, mas, com a queda de Sepp Blatter, o mau de perder dos EUA e de outros países europeus fez com que investissem contra o Mundial de 2018 na Rússia como forma de atingir Putin. Se o combate à corrupção no futebol é assim tão importante para os EUA, porque motivo se mantiveram em silêncio relativamente aos governos francês e sul-africano nos mundiais de 1998 e 2010? E o que dizer da Alemanha e do Mundial de 2006? Ou da vergonha do Mundial de 2002? Querem ver que agora a Rússia é que é o antro de corrupção?!;
- O mundo ouviu atentamente o seu discurso na parada do Dia da Vitória;
- Manteve a aposta nos BRICS;
- Enquanto Obama desenvolvia teorias recreacionistas da União Soviética, Putin encontrava-se com o Papa, que, reconhecendo a sua capacidade de influenciar a realidade internacional, lhe pede que intervenha em favor da paz na Ucrânia;
- Voltou a deixar a NATO em sentido perante a ameaça que se aproxima perigosamente das fronteiras russas e reforçou a sua capacidade militar;
- O mundo parou quando Putin deu uma entrevista a um órgão de comunicação social norte-americano ou discursou na Assembleia-Geral das Nações Unidas;
- Apesar das provocações de Barack Obama, Putin mantém a classe;
- As contra-sanções aplicadas pela Rússia à União Europeia têm custos inestimáveis;
- Visita a Crimeia e automaticamente provoca reacções de irritação;
- Num país onde a Igreja Ortodoxa é extremamente influente e se trata da segunda instituição não política com maior taxa de aprovação no país (depois das Forças Armadas), a Rússia inaugurou a maior mesquita da Europa, em Setembro e dá provas de inclusão num momento em que a Europa revela reacções ambíguas com a chegada de requerentes de asilo e migrantes económicos;
- Depois de o Governo ter ordenado uma investigação, em Fevereiro de 2014, sobre os efeitos dos organismos geneticamente modificados (OGM), a Rússia proibiu, em Setembro de 2015, a produção de bens alimentares com OGM;
- Putin manteve relações próximas com Índia, Brasil e China e encontros com inúmeros outros países;
- A Rússia assumiu um papel fulcral nas negociações P5+1 com o Irão sobre o dossiê nuclear, o que foi até reconhecido pelos EUA, sendo já visível a importância do papel russo;
- Contra as expectativas da Turquia, Vladimir Putin assume o apoio a Bashar al-Assad;
- Depois de fazer xeque a Obama e dar lições de liderança e política mundial, Vladimir Putin dá o golpe final na estratégia passiva norte-americana, que só auxilia a acção do Estado Islâmico (Da'esh) e que constitui um acto de agressão por carecer de autorização do poder político sírio, ao ver ser aprovada a intervenção militar da Rússia na Síria;
- As presenças e acções (?) militares de EUA, França, Alemanha e de países árabes estiveram sempre longe de produzir o mesmo mediatismo e furor que causou a da Rússia - talvez, também, por ser a única legal e lícita;
- Nenhuma acção militar trouxe tantos e tão bons resultados na crise da Síria como a intervenção da Rússia;
- Vladimir Putin tornou-se uma personalidade admirada pelos sírios;
- A primeira vez que Bashar al-Assad sai da Síria desde 2011 acontece em Outubro de 2015 com a visita a Moscovo;
- Tornou-se num dos poucos líderes mundiais que realmente pretende combater o terrorismo;
- Foi Putin quem teve coragem para denunciar a forma como os EUA apoiam o terrorismo, fez o mesmo relativamente à Turquia e acusa ainda os países do G20;
- Enquanto EUA e UE se vergam, Putin tem sido dos poucos com coragem para enfrentar a Turquia, agravando o seu discurso contra Erdogan e aprovando sanções contra os turcos que podem provocar danos incalculáveis na economia turca;
- Putin termina o ano com a popularidade em máximos históricos, perto dos 90%.
Desafio qualquer pessoa a indicar-me outra personalidade que teve o mesmo protagonismo e a mesma influência no quadro político interno e mundial como Putin teve em 2015. Na minha opinião, não restam dúvidas sobre quem é a Personalidade do Ano.







