Mostrar mensagens com a etiqueta Barack Obama. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Barack Obama. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 21 de março de 2016

EUA e Cuba normalizam relações?

Que não restem dúvidas quanto à essência do poder político cubano: trata-se de uma ditadura pura que só abraçou o comunismo e a URSS porque os EUA não lhe deram a mão - por questões de conveniência e clientelismo, importa sublinhar.

Falar em direitos fundamentais ou direitos humanos pode revelar-se um verdadeiro teste à criatividade do adepto mais fervoroso do poder cubano.

E falar em Fidel Castro é falar num mercenário pragmático que se colou à ideologia de um patrocinador que o via como arma de arremesso e instrumento de pressão contra o concorrente norte-americano.

No entanto, nada disto apaga as sucessivas sanções promovidas pelos EUA contra o país e que não só deram mais força ao poder castrista, que se agarrou com unhas e dentes ao mito promovido pelo inimigo - todos os ditadores e governantes frágeis precisam de um inimigo para ganharem força junto do povo -, como contribuiu para o agravamento das condições de vida da população que povoa este autêntico tubo de ensaio comunista.

O que não deixa de me surpreender é a forma como os EUA ainda conseguem sair por cima no fim disto tudo depois de terem promovido golpes de Estado, homicídio do Chefe do Estado cubano e imposto medidas que só condicionaram a população cubana.

E como é possível que Barack Obama, que acaba por reconhecer a derrota do seu país, surja como herói? Podemos esquecer que Guantánamo continua a ser ocupada pelos EUA e os fins que lhe têm sido destinados? Podemos esquecer que, apesar das tréguas, os EUA não aprenderam nada e já introduzem no seu discurso oficial palavras que permitem antever ingerência nos assuntos internos de Cuba e já estão a preparar acções para mudar politicamente o país? Não aprenderam ainda que a verdadeira revolução tem de vir de dentro para fora e não de fora para dentro?

Obama tem sorte - mas soube criá-la: as pessoas derretem-se com qualquer coisa que faça. Mesmo quando assume que perdeu e insiste em políticas que violam a Carta da ONU (violação da soberania de Cuba) e os direitos humanos (como esquecer que Obama tem fomentado a política de execuções selectivas e ter sido o PR norte-americano que mais investiu na indústria de defesa?), Obama consegue enternecer um mundo ocidental mais disponível para simpatizar com (quase tudo) o que vem dos EUA do que propriamente para perceber a realidade por trás do glamour de uma das mais eficientes máquinas de propaganda do planeta!


A aparente normalização das relações com Cuba saúda-se, em abstracto, mas deve merecer a nossa desconfiança.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Primárias presidenciais dos EUA: Hillary Clinton continua a perder terreno

Há exactamente um ano atrás, no Nevada, Hillary Clinton tinha uma vantagem de 54% sobre Bernie Sanders. No finalde Dezembro, a vantagem era de 23%. Hoje, estamos perante um empate técnico - uma sondagem dá 45% vs 45% e outra dá Clinton em vantagem (48% vs 47%).

Fonte: Associated Press

A "revolução Sanders" continua a conquistar adeptos e as suas movimentações recentes dão esperança. Uma sondagem divulgada hoje e realizada pela Quinnipiac - uma das que têm sido mais precisas nos resultados - confirma esta tendência e dá conta de outro empate técnico a nível nacional, embora ainda com ligeira vantagem para Clinton (44% vs 42%).

Em três meses, Sanders recuperou de uma desvantagem de 30% e, tal como disse no artigo da semana passada, ameaça passar para a frente caso consiga um bom resultado no Nevada (onde passou de claro derrotado a provável vencedor) e na Carolina do Sul (onde também já passou, em poucas semanas, de uma desvantagem superior a 30% para menos de 20%).

Segundo sondagens publicadas hoje pela Quinnipiac, Hillary Clinton já só conseguiria vencer Donald Trump por 1% (ou seja, empate técnico), e perderia com os restantes quatro principais candidatos republicanos (com derrotas com alguma margem para Marco Rubio e John Kasich). Este cenário contrasta com a posição de Bernie Sanders, que continuaria a venceria todos os candidatos republicanos, todos com uma margem cada vez mais sólida, incluindo Ted Cruz e Jeb Bush com uma diferença de dois dígitos.

Acredito piamente que, se conseguir ganhar a nomeação democrata - e sublinho a diferença que os superdelegados podem fazer nestas contas - Sanders vai ser um candidato fortíssimo e derrota qualquer republicano. Os motivos da desconfiança do eleitorado democrata nele são dados por uma excelente sondagem no Nevadarealizada e divulgada hoje pela CNN - em Portugal devia aprender-se a fazer sondagens assim - e que ilustra o panorama nacional:
1- Sanders oferece confiança e honestidade (bate Clinton com diferenças significativas), mas não tem experiência governativa ou política de peso, ao contrário da adversária, desconfiança que não deixa de ser curiosa, já que Barack Obama padecia do mesmo defeito em 2008 (era, como Sanders, Senador).
2- Na prestação de cuidados de saúde, considera-se que Sanders evidencia fragilidade, o que é igualmente curioso, já que o candidato propõe direitos que, para nós, europeus, são direitos básicos mas que nos EUA são privilégios - sublinhe-se que Clinton também soube tirar partido do Obamacare, que tem defendido com unhas e dentes, para manter os eleitorados afroamericano e hispânico.
3- Nas questões raciais e migratórias, também Sanders fica aquém de Clinton, mas tem trabalhado muito (e bem) neste aspecto com encontros que podem ser decisivos e com acções de campanha (como o vídeo de campanha para o Nevada) a tentar corrigir a diferença para Clinton.
4- Política externa, onde a experiência de Clinton tem prevalecido.

No final, Sanders supera Clinton quanto a quem entendem os entrevistados que mais fará pela classe média, e disparou nas preferências dos que acham que tem a melhor hipótese de vencer as eleições de Novembro, enquanto Clinton continua a perder gás e, em desespero, já recorre a ataques directos ao adversário.


Cada vez mais interessantes estas primárias/caucus democratas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

As lágrimas de Barack Obama

Os EUA tiveram um Presidente que foi actor antes de enveredar pela política e, mais tarde, chegar à Casa Branca: Ronald Reagan (1981-1989).

Actualmente, têm um Presidente que desenvolveu a arte da representação já na Casa Branca e tem um futuro auspicioso no cinema: Barack Obama.

As suas lágrimas "para espectador ver" revelam uma emoção em torno dos massacres sucessivos nos EUA com recurso a armas que contrasta com a frieza com que não apenas consente como autoriza e justifica a condução de execuções selectivas (targeted killings) através de aeronaves não tripuladas (drones) contra civis - não apenas, mas sobretudo, no Médio Oriente.

Não deixa de surpreender que nem uma lágrima tenha sido vertida por qualquer uma das cerca de 7.200 vítimas destes ataques - a esmagadora maioria deles apenas "suspeitos" e uma parte significativa de civis e crianças.

E também não surpreende que apenas tenha endereçado um gelado pedido de desculpas às vítimas dos ataques quando em Maio de 2015 atingiu dois alvos civis... pelo facto de um ser cidadão norte-americano e o outro italiano.

Fonte: Sputnik

E não surpreende pelo facto de os EUA serem um país de contrastes e fortemente dominado pela segregação racial e social baseada na cidadania de origem ou no simples tom de pele.

De outra forma, como se explica que o ataque de dois muçulmanos em São Bernardino, em Dezembro passado, seja qualificado como "acto de terrorismo", mas a mesma qualificação já não mereça a recente ocupação de um edifício na reserva federal, no Oregon, por fazendeiros armados que ameaçam recorrer à força se as suas reivindicações não forem cumpridas?

Se os fazendeiros tiverem um tom de pele mais próximo dos oriundos do Médio Oriente ou frequentarem uma mesquita já passam a ser terroristas?

Em segundo lugar, porque motivo só encontro estas notícias nos órgãos de comunicação social estrangeiros e em língua portuguesa apenas nos média brasileiros?

Barack Obama é um Presidente sui generis: só tem visibilidade e é reconhecido por cantar, contar piadas que só fazem rir um público fácil que faz questão de ser visto a rir das piadas do sr. Presidente, por chorar a ver (e ouvir) Aretha Franklin, jogar basquetebol com amigos ou terceiros, dançar com a mulher, passear um cão de raça portuguesa ou quando a mulher decide lançar um álbum de hip-hop.

Obama é um animador - ou entertainer como se diz em português corrente -, um ilusionista que enganou toda a gente e venceu o Nobel da Paz apenas por respirar.

Nero toca a lira enquanto Roma arde. E os tolos aplaudem e gozam o pagode porque é muito giro o mundo do espectáculo e Hollywood está sempre na moda.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A lista da Forbes dos mais poderosos do Mundo 2015


Estas listas e listinhas têm muito que se lhes diga e são compostas, na maior parte das vezes, em função da visão egocêntrica e do posicionamento estratégico de cada país.

Isso é notório neste ranking: pôr Netanyahu em 21.º lugar, atrás de François Hollande, achar sequer que Ban Ki-Moon tem poder e posicionar o Papa Francisco em 4.º ou Bill Gates em 6.º é tapar a realidade ou ignorá-la e fazer-se questão de promover uma realidade puramente virtual.

Eu ordenaria o ranking da seguinte maneira:
1- Vladimir Putin
2- Benjamin Netanyahu
3- Xi Jinping
4- Barack Obama
5- Khalifa bin Zayed Al-Nahyan 
6- Recep Erdogan
7- Angela Merkel

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Rússia, EUA e França: a diferença entre acto de agressão e intervenção militar por convite


Completamente diferente é a aprovação, há instantes, pelo Senado russo, do destacamento das Forças Armadas (em particular a Força Aérea) para combater na Síria. Houve um convite formulado pelo legítimo poder político em exercício com o objectivo de combater uma ameaça à segurança interna que não passa por um actor abstracto ou por agentes de oposição política, pelo que esta intervenção é completamente lícita.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Porque quis Obama celebrar o acordo com o Irão?

O Prémio Nobel da Paz de 2009 tem investido em tudo, menos em paz. Ainda assim, prevalece o pragmatismo, mesmo que isso cause algum desconforto em velhos aliados como a Arábia Saudita e Israel.
Barack Obama apostou e muito na celebração do acordo que permita levantar as sanções contra o Irão por dois motivos:

1- Deixar obra feita no último ano de mandato para abrir caminho à eleição de um candidato democrata - servindo também de contributo para favorecer a eleição de Hillary Clinton como resultado do acordo com ela celebrado e que ditou a sua colaboração no primeiro mandato.
2- A (por enquanto) guerra fria com a Rússia tem sido muito exigente para os EUA e o braço-de-ferro em torno de dossiês como a Síria ou a Ucrânia está para durar. Se continuar a apostar no Médio Oriente e no combate ao terrorismo como têm feito, os EUA dificilmente terão capacidade para aguentar uma frente de combate com a Rússia e, eventualmente, com a China. Os EUA olham para o Irão como sendo um potencial actor com importância vital para combater o Estado Islâmico na região e manter o eixo xiita contido no que respeita à ameaça aos interesses israelitas (os sunitas é conversa).
3- O Irão pode também ser usado como alternativa à Rússia para efeitos de dependência energética na Europa. Estamos a falar do segundo maior produtor de petróleo do mundo e das segundas maiores reservas de gás natural depois da Rússia. Um acordo que permita ao Irão fornecer energia para a Europa vai deixar a Rússia em maus lençóis e reduzir a dependência energética de Moscovo, isto, claro, se não houver participação e sinergias entre actores russos e iranianos do sector energético.



Mohammad Javad Zarif, Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano

Com isto tudo, a Rússia também poderá, no futuro, olhar para este acordo com reservas. Não por causa da ameaça chamada EUA, mas porque os iranianos são pragmáticos e se lhes forem dadas oportunidades para crescerem economicamente e expandirem a sua influência na região, eles vão fazê-lo como qualquer outro país na mesma situação faria. A aproximação ao Ocidente é desejada em todos os sectores políticos e da sociedade civil do Irão, apesar da retórica contra os EUA, país ao qual uma aproximação definitiva provavelmente só aconteceria se os EUA despissem as camisolas de Arábia Saudita e Israel - o que não significa necessariamente abandonar estes países. Tal cenário é, como se sabe, pouco provável de acontecer, quer com um Presidente da ala republicana quer com um democrata (Hillary Clinton é a prova disso mesmo).

Acontece que os russos sabem que o Irão está agora aberto a cooperação e investimento e a visita de Laurent Fabius ao Irão, na próxima semana, não é inocente - quer injectar o Irão com cooperação e investimentos franceses em todos os sectores estratégicos possíveis (da energia às telecomunicações, passando pela indústria). Ainda que a posição da Rússia na defesa dos interesses do Irão seja sobejamente conhecida, os dois países não eram aliados no verdadeiro sentido da palava, estando a aliança dependente das circunstâncias - veja-se, por exemplo, o afastamento dos russos relativamente ao Iémen. No entanto, o objectivo de Moscovo passa por estreitar as ligações com Teerão, mesmo ao nível energético, onde o Irão é concorrente e cuja variação de preços com o regresso iraniano aos mercados pode afectar negativamente a economia russa.

Por enquanto, a Rússia é vista como parceiro privilegiado. Amanhã, logo se vê. E dúvidas subsistem sobre se o futuro posicionamento do Irão face a Rússia, EUA e Europa também não condicionará a vigência do acordo: não seria a primeira vez que os EUA decidem ver provas irrefutáveis de armas nucleares, de destruição em massa, incumprimento de acordos e violações hediondas de direitos humanos para justificarem uma qualquer intervenção ou, neste caso, o regresso das sanções.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Ingerência de Obama no Equador por via do novo imposto sucessório?

O Presidente do Equador, Rafael Correa, enviou para a Assembleia Nacional, no dia 5 de Junho, um Projecto de Lei Orgânica para a Redistribuição de Riqueza (Proyecto de Ley Orgánica para la Redistribución de la Riqueza), que se traduz na criação de um imposto sucessório para heranças superiores a 100 salários mínimos (35.400 dólares) variável entre os 2,5% e os 47,5% para os herdeiros legitimários e 2,5% e 77,5% nos restantes casos. Alguns herdeiros só são abrangidos pela nova lei no caso de heranças cujo valor seja superior a 200 salários mínimos (70.800 dólares).

Esta medida tem como motivação a «acumulação desmedida da capital» verificada «ao longo da História da Humanidade» e o facto de «as grandes fortunas herdadas» fomentarem «a concentração dos meios de produção nas mãos de poucas famílias abastadas, as quais, em vez de procurarem o seu êxito pessoal, esperam a repartição da massa hereditária para perpetrar o seu poder económico». Conclui-se que «o rendimento médio das maiores fortunas é maior que o crescimento médio das receitas».

Neste quadro, o destino do imposto sucessório que a Assembleia Nacional equatoriana se preparava para discutir e aprovar tinha como base a colocação dos valores ao serviço da população, estimando-se que a medida em causa abranja apenas 2% da população. Quer isto dizer que 98% dos equatorianos não transmitem nem têm património no valor de 70.800 dólares.

Ainda assim, os 2% passíveis de serem afectados pela medida organizaram manifestações no Equador com o objectivo de provocar a queda do Presidente Rafael Correa. Embora não tenha desistido da iniciativa legislativa, o Chefe de Estado suspendeu-a e vai avançar com um debate popular ao nível nacional para perceber a sensibilidade da população para com o novo imposto.

Todavia, a pressão para fazer cair Rafael Correa não será inocente e poderá não resultar da mera iniciativa popular, antes tratando-se de mais uma ingerência de Washington nos assuntos internos de um Estado sul-americano. Com efeito, o PR equatoriano já denunciou uma tentativa de golpe de Estado em curso - a população receia que tal possa mesmo vir a acontecer - e vão-se sucedendo as peças nos média e noutros sites (por exemplo aqui, aqui e aqui) com o objectivo de fragilizar Correa.

Rafael Correa, como é de conhecimento geral, é o que se pode chamar de desalinhado por assumir uma postura de confronto directo com as administrações dos EUA (ainda que não seja comparável ao clã Castro ou à Venezuela de Hugo Chávez e Nicolas Maduro), posicionar-se ao lado de outros Estados sul-americanos em defesa da soberania e ainda ter dado guarida a Julian Assange na Embaixada do Equador em Londres.

Importa aqui perceber que Rafael Correa não é mais um tolinho (como muitos dizem) contra o sistema capitalista ocidental. A título de curiosidade, estamos a falar de alguém que se doutorou em Economia pela Universidade do Illinois em 2001 e que não despreza totalmente o neoliberalismo, procurando aproveitar as virtudes que pode dele retirar. Aliás, várias fontes dão conta da forma como Correa tem garantido a redução das desigualdades, o combate à pobreza, um crescimento económico sustentado (de 5,2%, 4,6% e 3,8% nos últimos três anos) e uma inflação invejável mesmo para alguns padrões ocidentais (2,7% em 2013 e 3,6% em 2014). No entanto, como é natural, junta-se a estas características a forma fervorosa como vive a política à boa maneira da América Latina (o que muitos chamam de populismo)

O resultado de tudo isto é o resultado de uma recente sondagem que dá conta de mais de 60% dos equatorianos votarem em favor da continuidade de Correa e tratar-se de um dos líderes mais populares da América latina.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Obama e o combate ao Estado Islâmico: quanto tempo é "duradouro"?

Parece que o Prémio Nobel da Paz de 2009 pediu autorização ao Congresso para travar mais uma guerra (agora contra o Estado Islâmico).

Desta vez, o pedido ao Congresso prevê:
- A condução da guerra contra um actor que não é um Estado, nem um grupo armado a actuar nos EUA (as duas hipóteses que as Convenções de Haia e de Genebra admitem para que uma guerra seja legítima e lícita - o nome Estado Islâmico é muito conveniente, mas é só um nome, não um Estado internacionalmente reconhecido como tal);
- A condução de ataques em qualquer país além do Iraque e da Síria - mesmo não havendo autorização desses Estados ou convite a intervenção (o que constitui um acto de agressão à luz da Carta das Nações Unidas);
- Os militares passam a poder conduzir acções no terreno para libertarem reféns sem autorização dos Estados onde as acções de resgate tenham lugar - onde fica o princípio da igualdade entre as soberanias?;
- As execuções selectivas (targeted killings) são o meio de ataque por excelência - mesmo que ataque meros suspeitos (seja lá isso o que for) e civis inocentes;
- A proibição de condução de "operações ofensivas de combate no terreno de forma duradoura" - resta saber quanto dura uma operação duradoura, afinal?

E, pronto, está encontrada a fórmula para que os EUA tenham jurisdição em todo o Planeta sem necessitarem de autorização do Conselho de Segurança.

Temos países e Seres Humanos de primeira e países e Seres Humanos de segunda, tudo a bem da luta contra o terrorismo e da paz no Mundo, claro.

Em Portugal, isto parece bem a muita gente porque comprou-se a ideia que é para acabar com gente má. Se fosse em Portugal que andassem a abater civis e inocentes queria ver qual seria o sentimento.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Tsipras, Putin e Obama

Leio com estupefacção as notícias que dizem que a bolsa grega subiu perto de 5% graças às palavras de Obama contra a austeridade.

Caros especuladores, Obama só se pôs do lado da Grécia porque pela primeira vez, em décadas, o novo PM grego recebeu, em primeiro lugar, os parabéns (pela vitória nas eleições) do embaixador russo e não do norte-americano.

E como o Rússia manifestou, entretanto, disponibilidade para resgatar a Grécia e Tsipras opôs-se a sanções contra Moscovo, é melhor que Obama mude o seu discurso se não quiser o veto grego em futuras sanções da UE à Rússia.

Entretanto, Alexis Tsipras foi convidado por Vladimir Putin para se deslocar à Rússia, o que acontecerá a 9 de Maio - dia significativo, não apenas para a Rússia (Dia da Vitória que consumou a derrota nazi em solo russo), mas também para a Europa (Dia da Europa). O encontro promete - e alguns ministros gregos irão entretanto a Moscovo - diz-se que o MNE grego, Nikos Kotzias, já tem experiência nisto.

Obama tem 3 meses para pôr os seus discursos anti-austeridade em prática.



quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Finalmente, a intervenção militar de Barack Obama na Síria

Eu gostava de poder dizer que o caminho é o anunciado ontem por Barack Obama, mas não acho que seja.

O objectivo de Barack Obama parece ser claro: aproveitar-se da campanha contra o ISIS (grupo ao qual já foi apreendido armamento norte-americano) para justificar a prestação de apoio técnico-militar à oposição a Bashar al-Assad e, no futuro, intensificar esse apoio até á queda final do PR sírio. Para este fim, será fundamental a presença de militares norte-americanos no terreno.

Há 1 ano, Obama não conseguiu a intervenção directa que tanto pretendia e perdeu os motivos para atacar a Síria. Agora encontrou-os. E mais uma prova de que o combate ao ISIS serve de desculpa para Obama, finalmente (e infelizmente), intervir na Síria reside no facto de os EUA estarem ao lado da mesma Arábia Saudita que financia e apoia o ISIS e patrocinam a causa de Riad de fazer cair o poder xiita sírio.

Para os EUA, isto é um pouco como ir à 7/11 de esquina ou à Macy's: compre 1 (guerra contra o ISIS), leve 2 (guerra contra o ISIS e contra Assad).

segunda-feira, 17 de março de 2014

A Crimeia e o princípio da autodeterminação

Após ouvir Barack Obama e John Kerry sobre o referendo na Crimeia, fico satisfeito por saber que o apoio prestado a grupos rebeldes para deporem o poder político democraticamente eleito na Síria e na Ucrânia não viola as respectivas Constituições nem o Direito Internacional.

Mas o que eu gostava mesmo era que tanto o Presidente Obama como o Secretário de Estado John Kerry me dissessem 1 único artigo de um qualquer Tratado ou da Carta da ONU ou 1 única fonte de Direito Internacional que sustente a posição de que o referendo na Crimeia viola o Direito Internacional.

Só peço 1 (um), mas já sei que é pedir demais!

Gleb Borisovich Starushenko recordava que a doutrina soviética defendia o princípio da autodeterminação enquanto «consequência necessaria do Marxismo-Leninismo, que está nas bases das políticas interna e externa da União Soviética». O princípio da autodeterminação era «fundamento das relações internacionais».

Do outro lado da barricada estava a doutrina Ocidental, com autores como Alfred Cobban, que apelava à necessidade de limitar a autodeterminação a «certas circunstâncias» ao mesmo tempo que alegava que «o povo passou ele próprio a ser a autoridade suprema», ou Gerald Fitzmaurice, que defendia que «juridicamente, a noção de um "direito" jurídico de autodeterminação é um contrasenso - pois pode uma ex hypothesi, uma entidade juridicamente ainda não existente, ser a detentora de um direito jurídico?».

O grande problema deste choque político-ideológico chama-se Kosovo e quando o «Ocidente» e a «corrente soviética» invertem posições, está lançada a confusão... ou então faz-se luz.

P.S.: Para muito breve, está prometido um artigo meu sobre a aplicação do princípio da autodeterminação à Crimeia e o recente resultado do referendum em favor da anexação à Rússia.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Barack Obama e o Irão

Palavras fortes de Barack Obama, durante o Estado da União, relativamente às negociações com o Irão, que reflectem a arrogância e o egocentrismo com que os EUA abordam o Mundo:

«If John F. Kennedy and Ronald Reagan could negotiate with the Soviet Union, then surely a strong and confident America can negotiate with less powerful adversaries today.»

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A descredibilização do Prémio Nobel da Paz: a OPAQ?!

Foi anunciada a atribuição do Prémio Nobel da Paz 2013 para a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ), da qual já aqui falámos muito recentemente. Mas porquê? É fácil de perceber à primeira vista, mas difícil de entender após alguma reflexão.

A atribuição do Prémio Nobel da Paz é um pouco semelhante à Bola de Ouro da FIFA ao melhor jogador do Mundo. Que critérios estão subjacentes à eleição? Será o jogador que mais golos marcou num ano? Será o jogador que conquistou os troféus mais importantes nesse ano? Ou será o jogador que alguns interesses e egos deslumbrados pretendem ver reconhecido independentemente do mérito?

Com o Nobel da Paz, o processo é exactamente igual. O que releva? Será uma ponderação global, em espécie de avaliação continua, com base nos feitos de uma entidade ao longo de um período de tempo? Será um acto ou uma actuação isolada de uma entidade no presente? Ou será alguém que alguns interesses e egos deslumbrados pretendem ver reconhecido independentemente do mérito?

No caso da OPAQ parece ser a última opção. Afinal, é certo que actualmente está em curso um processo de desarmamento de arsenal químico na Síria. É certo que se pretende dar uma mensagem ao Mundo sobre a importância da questão das armas químicas. E esta parece ser a escolha politicamente correcta para agraciar uma entidade relacionada com o conflito na Síria - aliás, a escolha parece óbvia e, se se considerar o critério da actualidade, só poderia ter como base algo relacionado com a situação na Síria.

O problema é que o painel que decide a atribuição do Prémio tem interesses que são claramente perceptíveis. As escolhas de Barack Obama, em 2009, e da União Europeia, em 2012, foram tão forçadas que claramente demonstram que o referido painel é, de facto, composto por um conjunto de interesses e egos deslumbrados que têm uma agenda própria e aproveitam a (ainda?) relativa imagem do Prémio Nobel da Paz para promoverem esses mesmos interesses. Como tal, esta gente estava mortinha por atribuir o Prémio novamente a Barack Obama ou a um qualquer rebelde sírio mais moderado. Infelizmente, aconteceram alguns imprevistos e acabaram por ter apenas duas alternativas: Vladimir Putin e Sergei Lavrov.

Uma vez que este Painel «isento» jamais os teria no sítio para atribuir o Nobel da Paz a qualquer um destes dois russos - e diz a imparcialidade do Painel que só podem ser agraciados russos dissidentes - , por não se quererem envolver em polémicas, sobrou a politicamente correcta e insossa OPAQ, que nada fez para promover o processo de desarmamento além de cumprir ordens e de estar em actividade há pouco mais do que um par de semanas. Não teve qualquer atitude política, militar ou diplomática. Tem andado silenciosa e nem sequer se esforça por promover o desarmamento químico de Israel ou do Egipto. Mas recebe um Prémio destes quase sem saber ler nem escrever.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A beligerância de Mitt Romney: consequências dentro e para além da ala republicana


Se as eleições fossem realizadas hoje, Mitt Romney perderia para Barack Obama. Quer se queira, quer não, Obama ainda dispõe de uma imagem globalmente positiva junto do eleitorado, a mensagem de Romney ainda não conseguiu passar, a pouca que passa está, não raras vezes, envolta em polémica (p.e.: caso do aborto) e, como se não bastasse, alguns nomes republicanos insistem em repelir eleitores dos mais variados quadrantes. Romney é, actualmente, o preferido num maior número de estados, mas Obama congrega maior número de congressistas.

Perante tal quadro, importa adaptar a estratégia para tentar inverter uma tendência que lhe é desfavorável. Neste sentido, o Prémio Nobel da Paz de 2009 é acusado de ser o Presidente norte-americano mais «pró-guerra» da História, ao financiar acções militares no Afeganistão, no Iraque, na Somália, no Iémen, na Região dos Grandes Lagos, no Paquistão e na Líbia - isto se excluirmos o apoio técnico-militar concedido aos rebeldes sírios e a possibilidade de perpetrar ofensivas contra Síria e Irão. Nos últimos 4 anos, o recurso a veículos aéreos não tripulados (drones) aumentou (de 52 para 340 até Janeiro de 2012), bem como o número de mortes de civis provocadas por estes instrumentos (perto dos 1.000). Esta forte aposta de Obama na via militar teve influência na dívida norte-americana disparou de tal forma que em 3 anos e 3 meses de mandato já era superior a 8 anos de governação de George W. Bush. Com efeito, uma dívida que se situava nos USD $10,626 biliões, em Novembro de 2008, poderá atingir os USD $20 biliões, em 2016.

Num país onde o actual Presidente foi eleito sobretudo pela cor de pele e onde os índices de popularidade variam em função das vezes em que aparece vestido com um ar cool, a jogar basquetebol ou a cantar em festas privadas e cujo heroísmo depende do número de alegados terroristas executados sumariamente - com direito a transmissão em directo -, não restaria outra hipótese senão Mitt Romney demonstrar que os republicanos mantêm a veia beligerante bastante activa ao admitir o envio de tropas para a Síria e a impedir as intenções nucleares do Irão caso seja eleito. Preocupante, no meio disto tudo, é a opinião de Luís Queiró, Presidente da Mesa do Congresso do CDS-PP, que defende a abordagem belicista enquanto forma de resolução dos problemas no Médio Oriente ao dizer «o que se vive actualmente na Síria, e provavelmente amanhã no Irão, é de tal maneira problemático para a região e para o mundo, que achamos que os Estados Unidos da América não se podem alhear». Resumindo: no entendimento de Queiró, Barack Obama tem demonstrado passividade.

Há quem julgue que o mundo é uma espécie de jogo de computador em que se conquista o mundo com base num joystick e onde as vidas e os recursos são infinitos e no fim ganha o mais forte. Esta não é, de todo, a minha opinião. Como disse de início, defendo que o melhor candidato para os interesses dos EUA, de Portugal e, eventualmente, do Mundo no seu todo, será Ron Paul. Porquê? Vejamos algumas ideias defendidas por Ron Paul no campo militar: (i) «evitar guerras onerosas e prolongadas que levem o país à falência por via do recurso a meios constitucionais para capturar e assassinar líderes terroristas que ajudaram a atacar os EUA e continuam a orquestrar futuros ataques»; (ii) «garantir que os Serviços de Informações dirijam os seus esforços contra ameaças legítimas e não à vigilância de cidadãos norte-americanos inocentes através da criação de poderes inconstitucionais como o Patriot Act»; (iii) «fazer cumprir a Constituição pedindo ao Congresso que declare guerra antes de se iniciar uma»; (iv) «apenas destacar os militares norte-americanos para um conflito com uma missão claramente definida e com todos os recursos que necessitam para completar a missão - e fazê-los regressar»; (v) «revitalizar as Forças Armadas para o século XXI, eliminando o desperdício num orçamento de biliões de dólares»; (vi) «parar de tirar dinheiro às classes média e baixa e canalizar tais verbas para alimentar ditadores milionários através da ajuda externa». Ou seja, hard power só quando estritamente necessário, soft power sempre que possível e smart power com moderação.

Mais, constatemos que Ron Paul não é só palavras. Também defende as suas ideias no Congresso  (cfr. p.e. a sua posição anti-guerra ao Irão). Finalmente, confira-se o plano de Ron Paul para «restaurar a América» através de um ambicioso, bem preparado e rigoroso plano de austeridade para reduzir os custos do Estado e equilibrar o orçamento. Um dos pilares desse plano passa, sem dúvida, pelos cortes nas Forças Armadas. Por aqui passa grande parte do desequilíbrio orçamental. Se mantivermos a tendência actual, as contas públicas norte-americanas não vão resistir, será necessário um maior sacrifício dos contribuintes para financiar os desvaneios militares de Barack Obama em nome da «segurança mundial». A questão passa por saber até onde aguentará a economia dos EUA para continuar a alimentar uma presença tão intensa com vista ao apagamento dos fogos existentes e até de imaginários.

Ou muito me engano ou é uma questão de tempo até que os EUA sejam forçados a reduzir significativamente a sua presença militar no exterior e a ajuda externa a países em vias de desenvolvimento. A obrigação de equilibrar as contas públicas deverá ser severa e obrigará Washington a ter de sacrificar as Forças Armadas se não quiser colapsar a economia. Em 2016, ou a dívida está realmente controlada ou o sucessor de Obama (ou Romney) terá a difícil tarefa de levar aos Estados Unidos um cenário impensável actualmente mas que é a realidade na Europa: austeridade ao nível público e também para os contribuintes, período durante o qual a governação tenderá a ser extremamente complexa, dada a grandeza da economia norte-americana, e, eventualmente, transitória, com o único objectivo de «arrumar a casa». Neste quadro, quem vier em 2020 virá com a mesma e com uma outra missão: não só «arrumar a casa» de vez como voltar a projectar os Estados Unidos, desta vez com uma ideologia tendencialmente diferente daquela que tem caracterizado os sucessivos Executivos que se conhecem nos últimos 30 anos. Um pouco por todo o lado, já há quem sonhe que 2020 culminará com a primeira eleição de uma mulher para Presidente dos EUA. Será?