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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O banho de realidade do Pessoas-Animais-Natureza (PAN)

Uma vez mais volto a escrever sobre o PAN e uma vez mais volto a fazer uma declaração de interesses: nas eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015, decidi colocar para trás divergências e outras quezílias pessoais entre algumas pessoas da actual liderança do PAN e outras que me eram próximas e votei no Partido por entender que se trata da melhor alternativa para defender um conjunto de ideais nos quais acredito que são melhores para o país e para o mundo no seu todo - embora haja um conjunto de propostas nas quais não me revejo.

Até agora, não me arrependi de ter votado PAN e, a manter-se a prestação de André Silva como tem sido até ao momento, ponderarei manter o meu voto no Partido. O único ponto negativo que assinalo é o voto contra o Programa do Governo de PSD/CDS: se o motivo invocado por André Silva para votar contra foi o facto de o XX Governo Constitucional não ter respondido às suas (pertinentes e necessárias) questões, tal também não significa que se promove uma política contrária à defendida pelo PAN, pelo que a abstenção teria sido o voto mais lógico. No mais, estou manifestamente agradado com a intervenção do PAN no Parlamento.

Toda esta ressalva para demonstrar que não só não tenho nenhuma animosidade ou mágoa com o PAN como me revejo em boa parte do que está agora a ser feito pelo Partido. Ainda assim, há um longo caminho a percorrer, muito difícil de seguir, mas que importa que todos tenham noção e mantenham os pés bem assentes na Terra.

Tal como alguns partidos, o PAN pretendia lançar a sua candidata presidencial, que é uma das madrinhas da actual liderança do Partido: Manuela Gonzaga, uma senhora de quem nunca ninguém tinha ouvido falar mas que tem (ou conseguiu ter) acesso a alguns contactos na comunicação social que foram os suficientes para lhe dar alguma visibilidade favorável - mais do que outros candidatos com assinaturas entregues no Tribunal Constitucional - e tentarem promover uma imagem de candidata das bases da sociedade.

Eu não pretendia votar nesta candidatura, por não conhecer o suficiente dela e por me aperceber nas peças da imprensa que se limitava a debitar chavões - e a fotografar-se com os seus animais de companhia com o claro objectivo de querer mostrar que é defensora dos animais (como se quem não os tem ou não se deixa fotografar com eles não defenda a mesma causa). Posso estar enganado, porque, como referi, não conheço a senhora e não posso fazer juízos de valor de quem não conheço, mas a sua candidatura não me pareceu genuína.

Ainda assim, para um partido que conseguiu recolher 43.000 assinaturas para uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos com vista ao fim dos canis de abate e que logrou obter 75.140 votos há pouco mais de 2 meses, esperava-se, em teoria, que não tivesse dificuldades em obter 7.500 assinaturas, cerca de 10% do número de votos alcançados. Até o número de votantes no PAN no distrito de Setúbal (8.167 votos) era suficiente para garantir que Manuela Gonzaga aparecesse nos boletins de voto como candidata presidencial.

No entanto, esse objectivo não foi conseguido. Tendo o PAN crescido em todo o país, não faz sentido este fracasso. Ou, se calhar, até faz. Como eu já tive oportunidade de referir, neste momento, o PAN só tem o impacto que tem por causa da expressão "animais" na sua nomenclatura. E cada iniciativa que defender em seu favor vai granjear apoio popular, como disso é prova a ILC sobre os canis de abate. Mas esse sucesso, repito, deve-se ao facto de "existir um partido político que se propõe a defender os direitos dos animais - sendo cada vez mais as pessoas em favor da defesa dos animais e da adopção de comportamentos vegetarianos ou veganos - acaba por ser o Santo Graal que o PAN consegue ter e que nenhum dos restantes 22 partidos políticos conseguiu encontrar: uma característica que os distinga dos demais".

Quando aparece uma "Manuela Gonzaga", o apoio no partido esfria, com toda a naturalidade: torna-se uma campanha em nome pessoal que, por mais que diga que defende os animais, já não dinamiza nem motiva a maior parte das pessoas, excepto os militantes mais devotos, que não são mais do que uma centena de pessoas. Apesar de se poder alegar o argumento da burocracia relacionada com a emissão de certidões para uma candidatura presidencial, coloquem uma ILC relacionada com animais a correr em simultâneo com o apoio à candidatura de Manuela Gonzaga e vão ver que a ILC obtém apoios com muito mais facilidade do que a segunda.

Dou este exemplo como um banho de realidade do PAN porque o partido tem o sucesso que tem, insisto, pela inclusão da expressão "animais" na nomenclatura, o que lhe permite assumir-se como partido dos votos de protesto que simpatizam com o bem-estar animal. Muito poucos votam no PAN por acreditarem genuinamente nos mesmos ideais, em geral. E este é o grande desafio do actual PAN: manter os pés na terra, reconhecer as suas limitações e trabalhar de forma coerente e consciente para poder catapultar-se para o nível seguinte: assumir-se como verdadeira alternativa e não como partido dos votos de protesto que, sem fazer por isso, capitaliza a designação "Animais".

Ou isso, ou não tardará a que algum partido oportunista consiga apropriar-se da bandeira dos animais e apresentar um conjunto de medidas mais generalistas que saiba difundir mais eficientemente graças ao seu próprio aparelho. O PS e o BE estão à espreita.

P.S.: Já vi que alguns estão a apelar ao apoio do PAN em Paulo Morais. Pergunto: porquê? Como é que acham que um Presidente da República consegue combater a corrupção (bandeira do candidato)? E de que forma Paulo Morais tem afinidade com as causas animalista e ambiental?

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Cartazes das Legislativas: Pessoas-Animais-Natureza



Começo por fazer uma declaração de interesses: participei activamente numa candidatura à Presidência do Pessoas-Animais-Natureza (PAN) por acreditar no mérito da candidata e da equipa que com ela trabalhava, bem como no programa que se tinha em causa para ser implementado no partido. As divergências ideológicas ou organizacionais (dado que perfilho a filosofia base que está na origem da criação do PAN) não se podem confundir com as pessoais, sobretudo por, da minha parte, não conhecer nem alguma vez me ter relacionado pessoalmente com elementos da candidatura adversária. Da minha parte, não tenho qualquer responsabilidade nem ligação às decisões tomadas pela antiga candidata à Presidência do PAN relativamente à sua vida política - apesar de alguns militantes do PAN agirem como se eu tivesse seguido incondicionalmente no mesmo sentido. Posto isto, as avaliações que fizer de qualquer matéria relacionada com o PAN terá sempre como base a imparcialidade e não qualquer afinidade (ou ausência dela).

O PAN, como se sabe, é um partido recente que já assistiu a duas transformações em pouco mais de 4 anos: começou como Partido Pelos Animais (PPA), passou para Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) e agora é Pessoas-Animais-Natureza (PAN). Conseguiu manter a sigla, o que, a meu ver, é positivo para o Partido, uma vez que pode evitar a dispersão para outras forças políticas de alguns eleitores distanciados da política que se habituaram a ouvir falar no PAN e sabem em quem querem votar.

O símbolo (tal como os estatutos) também sofreu alterações. Este corte é negativo por vários motivos. O primeiro deles porque a memória visual de quem se habituou a ver o logótipo do PAN vai ter de se adaptar à nova realidade e o símbolo mudou significativamente. O segundo, porque o logótipo do PAN é uma imitação grosseira de entidades estrangeiras e instituições ligadas à fundação Aga Khan. A imitação em detrimento da inovação não gera frutos… mas para que seja prejudicial é necessário que quem vote tenha conhecimento da imitação, o que não sucede.

No entanto, o mais decisivo provavelmente será o facto de o PAN saber o tremendo impacto que a palavra "Animais" na sua designação tem na angariação de votos. Funcionou muito bem em 2011, num partido acabado de ser oficializado e que esteve a muito pouco de eleger 1 deputado por Lisboa, e provavelmente funcionará bem em 2015. Muitas pessoas estão cansadas ou de votar nos partidos do costume ou do que consideram a falta de alternativas para votar (que mais não é do que o facto de não conseguirem identificar nada que distinga os partidos desconhecidos dos partidos mais tradicionais). O facto de existir um partido político que se propõe a defender os direitos dos animais - sendo cada vez mais as pessoas em favor da defesa dos animais e da adopção de comportamentos vegetarianos ou veganos - acaba por ser o Santo Graal que o PAN consegue ter e que nenhum dos restantes 22 partidos políticos conseguiu encontrar: uma característica que os distinga dos demais.

No fundo, tudo se resume a uma palavra (animais) e que circula de tal maneira que quem representa o PAN nem precisa de muito: a mensagem passa e quando a defesa dos animais estiver verdadeiramente na moda, o PAN vai afirmar-se no panorama político interno (e externo). E não compreendo o estigma do PAN em espremer o elemento que o distingue dos demais hipotecando a sua independência em coligações com o PS e com outros partidos, como, aliás, fez nas recentes eleições para a Assembleia Legislativa da Madeira e já havia tentado fazer nas Autárquicas para o Porto. O resultado das primeiras foi o que se conhece: o PAN perdeu expressão porque passou a ser um entre tantos outros. 

Em 2011, não foi o fabuloso programa eleitoral do PAN que quase valeu uma eleição. Em 2013, nas Autárquicas, o PAN conseguiu eleger vários representantes locais. Acredito que, em 2014, nas eleições europeias, o facto de Portugal ter poucos mandatos disponíveis para o Parlamento Europeu (21) aliado ao impacto que Marinho e Pinto e o Partido da Terra tiveram condicionou fortemente outro resultado. Em abono da verdade, o mesmo número de votos das Europeias numas Legislativas já dava para eleger um deputado por Lisboa.

Acredito que é uma questão de tempo até que o PAN eleja alguém para um mandato na Assembleia da República ou no Parlamento Europeu. Em 2015, resta saber como será, mas cada vez mais acredito que o PAN vai eleger 1 deputado em Lisboa. Questiono a eleição de 1 deputado no Porto dado que o número de mandatos disponíveis neste círculo eleitoral é menor face à capital. Ainda assim, não me canso de ouvir pessoas que dizem frases como "vou votar nos animais" ou "vou votar no partido dos animais", apontando como motivações a saturação da política ou então a necessidade de proteger os mais desprotegidos, os animais. Nenhuma das pessoas que me diz isto sabe o nome de um dirigente ou candidato do PAN, nem sabem sequer uma medida que o PAN proponha para o país. Sabem apenas que é o "partido dos animais" e eu acredito que isso vai ser suficiente para eleger André Silva para a Assembleia da República. Repito: não são as medidas, as pessoas ou os cartazes que vão dar votos ao PAN, mas, sim, apenas a inclusão de "Animais" no acrónimo do Partido.

Prova de tudo isto que digo é um dos MUPI do Pessoas-Animais-Natureza (PAN) que publiquei em cima e que se podem ver em várias partes de algumas cidades portuguesas (esta imagem foi captada em Lisboa, junto à Av. Fontes Pereira de Melo). Sei que o PAN tem cartazes 8x3 com a mesma mensagem e outras semelhantes. O cartaz em apreço é uma mão-cheia de nada e serve apenas para consumo interno junto de militantes e activistas sem ligação ao partido mas associados à causa animalista. O impacto da mensagem junto do eleitorado é quase nulo. Na verdade, a generalidade dos portugueses quer proteger os animais mas não quer saber se estes devem ser vistos como pessoas ou não. Vou mais longe: o conceito de "animais" inclui, na esmagadora maioria dos casos, apenas cães e gatos e não os animais de companhia no seu todo ou os animais em geral. De vez em quando também inclui um leão ou uma girafa, em função do eco que notícias de assassinatos a animais têm nos média e nas redes sociais.

Não obstante, podem ser feitos elogios aos cartazes em apreço: a mensagem é simples e facilmente compreendida por todos. A forma como está escrita deixa-a na memória do destinatário. As cores são, a meu ver, bem escolhidas, ainda que a escolha do verde e do azul seja questionável e perceptível - apesar de não se misturarem as duas cores como já fez, por exemplo, a CDU e o PS fez com o vermelho e o verde. A indicação do contacto também é positiva e está colocada de forma simples. O logótipo com a designação do Partido não deixam margem para dúvidas e identificam bem a entidade. Todavia, seria importante questionar o tom do azul e do verde nas letras, talvez demasiado claros para um fundo branco, e também as dimensões e o formato do tipo de letra utilizado para a mensagem, justificando-se, a meu ver, outros que destaquem o conteúdo que se pretende promover e não o equiparem a outros elementos secundários, apesar de importantes.

No mais, apenas a expectativa para saber se o PAN vai substituir ideais pelas medidas que propõe para o País.