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terça-feira, 21 de julho de 2015

Porque quis Obama celebrar o acordo com o Irão?

O Prémio Nobel da Paz de 2009 tem investido em tudo, menos em paz. Ainda assim, prevalece o pragmatismo, mesmo que isso cause algum desconforto em velhos aliados como a Arábia Saudita e Israel.
Barack Obama apostou e muito na celebração do acordo que permita levantar as sanções contra o Irão por dois motivos:

1- Deixar obra feita no último ano de mandato para abrir caminho à eleição de um candidato democrata - servindo também de contributo para favorecer a eleição de Hillary Clinton como resultado do acordo com ela celebrado e que ditou a sua colaboração no primeiro mandato.
2- A (por enquanto) guerra fria com a Rússia tem sido muito exigente para os EUA e o braço-de-ferro em torno de dossiês como a Síria ou a Ucrânia está para durar. Se continuar a apostar no Médio Oriente e no combate ao terrorismo como têm feito, os EUA dificilmente terão capacidade para aguentar uma frente de combate com a Rússia e, eventualmente, com a China. Os EUA olham para o Irão como sendo um potencial actor com importância vital para combater o Estado Islâmico na região e manter o eixo xiita contido no que respeita à ameaça aos interesses israelitas (os sunitas é conversa).
3- O Irão pode também ser usado como alternativa à Rússia para efeitos de dependência energética na Europa. Estamos a falar do segundo maior produtor de petróleo do mundo e das segundas maiores reservas de gás natural depois da Rússia. Um acordo que permita ao Irão fornecer energia para a Europa vai deixar a Rússia em maus lençóis e reduzir a dependência energética de Moscovo, isto, claro, se não houver participação e sinergias entre actores russos e iranianos do sector energético.



Mohammad Javad Zarif, Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano

Com isto tudo, a Rússia também poderá, no futuro, olhar para este acordo com reservas. Não por causa da ameaça chamada EUA, mas porque os iranianos são pragmáticos e se lhes forem dadas oportunidades para crescerem economicamente e expandirem a sua influência na região, eles vão fazê-lo como qualquer outro país na mesma situação faria. A aproximação ao Ocidente é desejada em todos os sectores políticos e da sociedade civil do Irão, apesar da retórica contra os EUA, país ao qual uma aproximação definitiva provavelmente só aconteceria se os EUA despissem as camisolas de Arábia Saudita e Israel - o que não significa necessariamente abandonar estes países. Tal cenário é, como se sabe, pouco provável de acontecer, quer com um Presidente da ala republicana quer com um democrata (Hillary Clinton é a prova disso mesmo).

Acontece que os russos sabem que o Irão está agora aberto a cooperação e investimento e a visita de Laurent Fabius ao Irão, na próxima semana, não é inocente - quer injectar o Irão com cooperação e investimentos franceses em todos os sectores estratégicos possíveis (da energia às telecomunicações, passando pela indústria). Ainda que a posição da Rússia na defesa dos interesses do Irão seja sobejamente conhecida, os dois países não eram aliados no verdadeiro sentido da palava, estando a aliança dependente das circunstâncias - veja-se, por exemplo, o afastamento dos russos relativamente ao Iémen. No entanto, o objectivo de Moscovo passa por estreitar as ligações com Teerão, mesmo ao nível energético, onde o Irão é concorrente e cuja variação de preços com o regresso iraniano aos mercados pode afectar negativamente a economia russa.

Por enquanto, a Rússia é vista como parceiro privilegiado. Amanhã, logo se vê. E dúvidas subsistem sobre se o futuro posicionamento do Irão face a Rússia, EUA e Europa também não condicionará a vigência do acordo: não seria a primeira vez que os EUA decidem ver provas irrefutáveis de armas nucleares, de destruição em massa, incumprimento de acordos e violações hediondas de direitos humanos para justificarem uma qualquer intervenção ou, neste caso, o regresso das sanções.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

John Kerry para Prémio Nobel da Paz?


A indicação de John Kerry e o desafio para que fosse nomeada uma personalidade russa ou iraniana presentes nas negociações era um cenário que já havia sido avançado aqui no início de Abril.

A ideia parece-me óbvia e sai reforçada com a resolução do conflito com Cuba: os EUA encerram (vamos lá ver se será mesmo assim) dois dos mais antigos e penosos conflitos da história contemporânea a menos de 1 ano das eleições Presidenciais que podem garantir a continuação (que, a verificar-se, será histórica) dos democratas no comando do país depois de 2 mandatos seguidos.

Para este efeito, o Prémio Nobel da Paz ao democrata John Kerry dará um impulso significativo para a eleição do candidato democrata, para o qual tudo aponta, neste momento, que seja Hillary Clinton. E Barack Obama tem uma promessa feita a Clinton pela lealdade que lhe demonstrou, fazendo de tudo para abrir caminho à eleição democrata.

No entanto, mantenho o desafio: será que apenas Kerry será eleito ou existirá coragem para dar o Prémio Nobel da Paz a um iraniano? E a eleição de Kerry será individual ou partilhada com um terceiro?

E, só para que ninguém se esqueça, ‪#‎PorAcasoFoiIdeiaMinha‬.

sábado, 16 de maio de 2015

O Irão patrocina o terrorismo?

Sei que já venho com dias de atraso, mas não quero perder a oportunidade. Os EUA ainda há semanas negociaram os termos gerais de um «acordo histórico com o Irão» e agora acusam Teerão de patrocinar o terrorismo? No mínimo, ambíguo, a menos que, afinal, os EUA negoceiem com terroristas.

O que se passa aqui é muito simples:
1) Por um lado, o prazo para a celebração de um acordo definitivo termina no final de Junho, e Obama quer pressionar o Irão a aceitar condições que não serão propriamente aquelas que está disposto a aceitar. Para este efeito, acusa o Irão de patrocinar o terrorismo para forçar o país a 'demonstrar' a sua boa vontade em favor da paz mundial;
2) Por outro lado, as relações com Israel não são exactamente as melhores desde há algum tempo (Netanyahu afastou-se de Obama e aproximou-se dos republicanos para intensificar a ameaça contra o Irão). Países sunitas (como a Arábia Saudita) também têm manifestado desagrado com a forma como Washington tem demonstrado relativa tolerância com o Irão.
3) Obama sabe que Israel, Arábia Saudita e os restantes países da região são aliados importantes para os EUA e não quer comprometer as relações que tem a uma não-amizade-e-apenas-cordialidade-mínima com o Irão (sendo o universo xiita, ainda por cima, uma minoria). Daí que Washington tenha todo o interesse em recuperar as velhas alianças, voltando à retórica enfabulada do costume: «o Irão patrocina o terrorismo», procurando isolar Teerão no plano internacional, com tudo o que isso acarreta (o rebanho da União Europeia a seguir o seu pastor, entre tantos outros).

Perante tudo isto, eu pergunto: o que é o terrorismo? Não existe resposta a esta pergunta.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

7 observações sobre o acordo entre o P5+1 e o Irão

1) A lenga-lenga de que o Irão pretende desenvolver armamento nuclear tem como base mentiras e propaganda israelita e Republicana que insistem numa guerra contra o Irão com o objectivo de fragilizar o "eixo xiita" e torná-lo refém do Ocidente ao mesmo tempo que se alimenta a indústria do armamento. Há livros (ocidentais) que o demonstram e está mais que na hora de impôr sanções a Israel pelo mal que tem feito à Humanidade.
2) Nem mesmo os tradicionalmente conspirativos Serviços de Informações dos EUA acreditam nessa pretensão iraniana, como se pode ver através deste link. Ou seja, todos acreditam que o programa nuclear iraniano tem fins pacíficos.
3) O que raio faz a Alemanha nestas negociações? Tentativa de consolidar a visão de que é membro permanente do Conselho de Segurança não de jure mas de facto - contrariando e ignorando tudo o que aconteceu nas I e II Guerras Mundiais e após?
4) O acordo foi conseguido em tempo recorde, depois de 12 anos de sanções tremendamente prejudiciais ao Irão. Só foi conseguido porque houve vontade de todos nesse sentido e porque o prazo estava a terminar. Se tudo podia ser alcançado muito antes? Claro que sim, mas vigora o princípio do "deixar andar para ver se acontece alguma surpresa que faça uma das partes ganhar ascendente sobre a outra".
5) O que ficou decidido foram os termos gerais do acordo, não os pormenores, que são, habitualmente, a parte mais difícil, juntamente com a redacção. Nestas negociações, uma palavra ou expressão podem fazer toda a diferença e comprometer o acordo - ex.: o Irão esteve prestes a abortar as negociações definitivamente quando apurou que uma das condições que lhe foram impostas foi a aplicação automática de sanções em caso de violação do acordo por Teerão. O objectivo de tentativa de introdução desta cláusula é óbvio: a partir do momento em que forem levantadas as sanções, estas só poderão ser impostas novamente com acordo dos P5, onde se encontram Rússia e China.
6) Todos falam que este acordo evita a guerra. Mas qual guerra? E importa responder aos famosos "3Q+COPO" (quê, quem, quando, como, onde e porquê). Uma guerra contra o Irão seria desastrosa e completamente ilícita.
7) A narrativa dos EUA não é inocente quando fala em "preferível o acordo a opção de guerra". A insistência nas vantagens deste acordo como alternativa à guerra tentam apenas sublinhar o seguinte: garantimos a paz, uma vez que a paz é a ausência de guerra. Volto a recordar quem integrou estas negociações: Rússia (que é a verdadeira ponte e o garante do sucesso destas negociações pois é quem vai processar o urânio persa) e Irão. Será que se o acordo final for alcançado alguma personalidade destes 2 países vai ser laureada com o Prémio Nobel da Paz 2015 ou teremos antes o politicamente correcto John Kerry - que acredito que a seguir vai apostar no conflito na Síria pois, a 1 ano das Presidenciais nos EUA, daria muito jeito ter um Democrata Prémio Nobel da Paz para garantir ou a sua eleição directa ou a de um Democrata - ou outro a quem dê jeito ao Ocidente colar-se?