Que não restem dúvidas quanto à essência do poder político
cubano: trata-se de uma ditadura pura que só abraçou o comunismo e a URSS
porque os EUA não lhe deram a mão - por questões de conveniência e
clientelismo, importa sublinhar.
Falar em direitos fundamentais ou direitos humanos pode
revelar-se um verdadeiro teste à criatividade do adepto mais fervoroso do poder
cubano.
E falar em Fidel Castro é falar num mercenário pragmático
que se colou à ideologia de um patrocinador que o via como arma de arremesso e
instrumento de pressão contra o concorrente norte-americano.
No entanto, nada disto apaga as sucessivas sanções promovidas
pelos EUA contra o país e que não só deram mais força ao poder castrista, que
se agarrou com unhas e dentes ao mito promovido pelo inimigo - todos os
ditadores e governantes frágeis precisam de um inimigo para ganharem força
junto do povo -, como contribuiu para o agravamento das condições de vida da
população que povoa este autêntico tubo de ensaio comunista.
O que não deixa de me surpreender é a forma como os EUA
ainda conseguem sair por cima no fim disto tudo depois de terem promovido
golpes de Estado, homicídio do Chefe do Estado cubano e imposto medidas que só
condicionaram a população cubana.
E como é possível que Barack Obama, que acaba por reconhecer
a derrota do seu país, surja como herói? Podemos esquecer que Guantánamo
continua a ser ocupada pelos EUA e os fins que lhe têm sido destinados? Podemos
esquecer que, apesar das tréguas, os EUA não aprenderam nada e já introduzem no
seu discurso oficial palavras que permitem antever ingerência nos assuntos
internos de Cuba e já estão a preparar acções para mudar politicamente o país?
Não aprenderam ainda que a verdadeira revolução tem de vir de dentro para fora
e não de fora para dentro?
Obama tem sorte - mas soube criá-la: as pessoas derretem-se
com qualquer coisa que faça. Mesmo quando assume que perdeu e insiste em
políticas que violam a Carta da ONU (violação da soberania de Cuba) e os
direitos humanos (como esquecer que Obama tem fomentado a política de execuções
selectivas e ter sido o PR norte-americano que mais investiu na indústria de
defesa?), Obama consegue enternecer um mundo ocidental mais disponível para
simpatizar com (quase tudo) o que vem dos EUA do que propriamente para perceber
a realidade por trás do glamour de uma das mais eficientes máquinas de
propaganda do planeta!
A aparente normalização das relações com Cuba saúda-se, em
abstracto, mas deve merecer a nossa desconfiança.
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