sexta-feira, 31 de julho de 2015

Os cartazes das Legislativas: Coligação "Portugal à Frente" (PSD/CDS-PP)

Aproximam-se as Legislativas e, com elas, os cartazes das listas candidatas espalhados nos mais variados pontos (preferência dada a auto-estradas e rotundas). Proponho, assim, uma análise à propaganda já exposta um pouco por todo o país, procurando ser fiel o mais possível à propaganda efectivamente afixada independentemente do partido político a que diz respeito ou da sua representação.

Faço aqui a minha declaração de interesses: não vou votar nas próximas eleições por vontade própria e se o fizesse não votaria em nenhum partido com representação parlamentar (por protesto e por não me identificar com nenhum). A minha análise tentará ser isenta e olhar às condicionantes da campanha, às características dos partidos/coligações e ao que o destinatário pode esperar.

Das primeiras impressões que retiro, destaco o facto de ninguém utilizar a propaganda para dar a conhecer qualquer das principais medidas que compõem o seu programa eleitoral, preferindo os chavões ou as banalidades. É notória a ausência de criatividade e a inovação na forma como um simples cartaz pode captar a atenção do público (sim, é possível). A título pessoal, ainda gostava de ver um cartaz suficientemente arrojado com os candidatos dispostos ou em formato de desenho animado ou em poses diferentes que os da fotografia de passe ou noivo, tão na moda até à década de 1990.

Coligação "Portugal à Frente"
 Imagem retirada daqui.

Talvez por ser o primeiro, apresenta uma mensagem muito simples e um grafismo básico. O objectivo é claro e, com as cores utilizadas, passa por estabelecer a ligação estreita entre a Coligação do Governo e o país, mais concretamente com a defesa dos interesses nacionais, tentando despoletar no destinatário uma afinidade com os valores patrióticos que a Coligação diz defender. A mensagem é bem visível e não oferece qualquer complexidade.

A candidatura da actual maioria procura reiterar junto do eleitorado a mensagem que insiste em transmitir em todos os meios de comunicação: o Governo tem colocado "Portugal no caminho certo" e pretende dar continuidade ao trabalho feito. Procura-se despertar no destinatário o sentimento de concordância. Afinal, quem não quer ver "Portugal no caminho certo" - independentemente do que se entende por "caminho certo"?

Ainda do ponto de vista visual, o nome da coligação está bem identificado em tamanho e tipo de letra, ainda que o branco possa diluir-se no meio das várias tonalidades de vermelho. Já o símbolo dos dois partidos poderia ser fiel às cores originais, sem fundo transparente e com ligeiro rebordo a negro para não deixar dúvidas sobre quais os partidos que integram esta candidatura e para não deixar dúvidas em alguns eleitores mais distraídos.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O 2 em 1 de Erdogan: totalitarismo a caminho da Turquia?

Conforme havia aqui dito há dias atrás, o plano principal da Turquia passa por atacar os curdos, servindo o combate ao Estado Islâmico como fachada para atenuar a censura a combatentes vitais para conter o próprio Estado Islâmico.

Com este ataque aos curdos, pretende-se, desde logo, afastar os curdos das zonas de fronteira e permitir a facilitação de meios aos rebeldes moderados no combate a Assad, fragilizando-o.

Contudo, Erdogan pretende retirar mais dividendos desta campanha: a falta de maioria suficiente que lhe permita alterar a Constituição para garantir a transição para o (seu) presidencialismo é, em larga medida, consequência dos 80 mandatos que o Halklarin Demokratik Partisi (HDP) tem no Parlamento, levando o PR turco a equacionar a convocação de eleições antecipadas.

Caso consiga associar o HDP, que inclui aliança com curdos, ao Partiya Karkerên Kurdistanê (PKK), Erdogan poderá impedir o HDP de concorrer às próximas eleições legislativas e conquistar a almejada maioria absoluta.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Muro anti-imigrante da Hungria vs Muro franco-britânico

Agora que França e Reino Unido vão reforçar as barreiras e a polícia e construir vedações para que os imigrantes não consigam atravessar Calais... quero ver onde estão todos os que condenaram a construção do muro da Hungria.

terça-feira, 28 de julho de 2015

O que realmente se passa no Médio Oriente e o combate da Turquia ao Estado Islâmico

Os curdos combatem o Estado Islâmico e ignoram os rebeldes sírios. Os turcos dizem que combatem o Estado Islâmico, mas atacam os curdos e apoiam os rebeldes sírios. O Estado Islâmico ataca o Iraque, a Síria e a Al-Qaeda. A Síria apoia os curdos, combate o Estado Islâmico, os rebeldes sírios e a Al-Qaeda e ignora Israel. Israel apoia os rebeldes sírios, o Estado Islâmico, a Al-Qaeda e ataca a Palestina, o Líbano, a Síria e o Irão. O Irão apoia o Líbano, a Síria, os rebeldes houthi no Iémen e combate o Estado Islâmico. A Arábia Saudita apoia o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, ataca os interesses e as minorias xiitas, ignora Israel, combate os rebeldes houthi no Iémen, tenta fragilizar o Irão, desdenha a Turquia e aprecia o actual Egipto. O actual Egipto evita a Turquia, mas não lhe fecha a porta, e é próximo da Arábia Saudita. A Turquia evita o Egipto e não despreza relações com a Arábia Saudita, mas afasta-se do Irão, apoia a queda de Assad e facilita os rebeldes sírios. A Turquia é aliada dos EUA e os EUA apoiam os curdos.

Como pode esta região algum dia ser estável?

Esta história de a Turquia atacar o Estado Islâmico e, pelo meio, levar os curdos atrás poderá ter uma explicação que não se relaciona apenas com a agenda secessionista dos curdos: há muito tempo que EUA e Turquia equacionam a criação de uma zona de segurança na Síria. Actualmente, os curdos fazem de tampão e impedem o avanço do Estado Islâmico, por exemplo, para território turco. No entanto, repare-se nas posições dos rebeldes que combatem Assad. Após os curdos, a linha de combate é assegurada pelos rebeldes. O objectivo primordial não é atacar o Estado Islâmico, é atacar os curdos para facilitar a colaboração com os rebeldes e tentar acelerar a queda de Assad, que está pressionado por Israel, Turquia, Estado Islâmico e rebeldes.

Num quadro desta natureza, talvez custe a acreditar a quem vive num país tranquilo como o nosso, mas no Médio Oriente desenvolvem-se as alianças (expressas ou tácitas) mais improváveis e macabras que se pode imaginar a bem do pragmatismo. O plano principal de EUA, Turquia, Israel, Arábia Saudita e companhia é garantir que Assad cai e a consequente fragilização do eixo xiita, abrindo caminho a um novo poder político sírio que seja mais favorável à agenda destes actores e que, estrategicamente, se coloque entre o Líbano e o Irão.

Actualmente, o Estado Islâmico pressiona a Síria, o único país que verdadeira e efectivamente combate o Estado Islâmico. Para a Turquia até convém que o Estado Islâmico se mantenha activo neste momento, mas, para desviar as atenções do plano principal, prende-se meia dúzia de alegados membros do Estado Islâmico ao mesmo tempo que se devastam os curdos (aqui também) alegando que combatem o terrorismo.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Laurent Fabius como Leonor Beleza


A anunciada visita de Laurent Fabius ao Irão, na próxima semana, já causa polémica na Pérsia. Segundo fontes, muita gente manifesta incómodo pela deslocação do actual Ministro dos Negócios Estrangeiros dado que, entre 1984 e 1985, quando era Primeiro-Ministro, liderou um Governo que forneceu sangue com HIV que não foi alvo de qualquer monitorização e que contaminou cerca de 300 cidadãos iranianos.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Porque quis Obama celebrar o acordo com o Irão?

O Prémio Nobel da Paz de 2009 tem investido em tudo, menos em paz. Ainda assim, prevalece o pragmatismo, mesmo que isso cause algum desconforto em velhos aliados como a Arábia Saudita e Israel.
Barack Obama apostou e muito na celebração do acordo que permita levantar as sanções contra o Irão por dois motivos:

1- Deixar obra feita no último ano de mandato para abrir caminho à eleição de um candidato democrata - servindo também de contributo para favorecer a eleição de Hillary Clinton como resultado do acordo com ela celebrado e que ditou a sua colaboração no primeiro mandato.
2- A (por enquanto) guerra fria com a Rússia tem sido muito exigente para os EUA e o braço-de-ferro em torno de dossiês como a Síria ou a Ucrânia está para durar. Se continuar a apostar no Médio Oriente e no combate ao terrorismo como têm feito, os EUA dificilmente terão capacidade para aguentar uma frente de combate com a Rússia e, eventualmente, com a China. Os EUA olham para o Irão como sendo um potencial actor com importância vital para combater o Estado Islâmico na região e manter o eixo xiita contido no que respeita à ameaça aos interesses israelitas (os sunitas é conversa).
3- O Irão pode também ser usado como alternativa à Rússia para efeitos de dependência energética na Europa. Estamos a falar do segundo maior produtor de petróleo do mundo e das segundas maiores reservas de gás natural depois da Rússia. Um acordo que permita ao Irão fornecer energia para a Europa vai deixar a Rússia em maus lençóis e reduzir a dependência energética de Moscovo, isto, claro, se não houver participação e sinergias entre actores russos e iranianos do sector energético.



Mohammad Javad Zarif, Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano

Com isto tudo, a Rússia também poderá, no futuro, olhar para este acordo com reservas. Não por causa da ameaça chamada EUA, mas porque os iranianos são pragmáticos e se lhes forem dadas oportunidades para crescerem economicamente e expandirem a sua influência na região, eles vão fazê-lo como qualquer outro país na mesma situação faria. A aproximação ao Ocidente é desejada em todos os sectores políticos e da sociedade civil do Irão, apesar da retórica contra os EUA, país ao qual uma aproximação definitiva provavelmente só aconteceria se os EUA despissem as camisolas de Arábia Saudita e Israel - o que não significa necessariamente abandonar estes países. Tal cenário é, como se sabe, pouco provável de acontecer, quer com um Presidente da ala republicana quer com um democrata (Hillary Clinton é a prova disso mesmo).

Acontece que os russos sabem que o Irão está agora aberto a cooperação e investimento e a visita de Laurent Fabius ao Irão, na próxima semana, não é inocente - quer injectar o Irão com cooperação e investimentos franceses em todos os sectores estratégicos possíveis (da energia às telecomunicações, passando pela indústria). Ainda que a posição da Rússia na defesa dos interesses do Irão seja sobejamente conhecida, os dois países não eram aliados no verdadeiro sentido da palava, estando a aliança dependente das circunstâncias - veja-se, por exemplo, o afastamento dos russos relativamente ao Iémen. No entanto, o objectivo de Moscovo passa por estreitar as ligações com Teerão, mesmo ao nível energético, onde o Irão é concorrente e cuja variação de preços com o regresso iraniano aos mercados pode afectar negativamente a economia russa.

Por enquanto, a Rússia é vista como parceiro privilegiado. Amanhã, logo se vê. E dúvidas subsistem sobre se o futuro posicionamento do Irão face a Rússia, EUA e Europa também não condicionará a vigência do acordo: não seria a primeira vez que os EUA decidem ver provas irrefutáveis de armas nucleares, de destruição em massa, incumprimento de acordos e violações hediondas de direitos humanos para justificarem uma qualquer intervenção ou, neste caso, o regresso das sanções.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Perda de soberania, perda de nacionalidade

A democracia indirecta está ao rubro na União Europeia, a bem da estabilidade, da ditadura do consenso e da redução da probabilidade de surpresas eleitorais que comprometam a agenda de Bilderberg e companhia.

Agora é François Hollande que propõe a criação de um Governo na Zona Euro. No fundo, os Governos e os Parlamentos nacionais acabariam por servir apenas de núncios de um Governo da Zona Euro que não é sufragado ou fiscalizado por ninguém, mas consegue poder ilimitado sem que ninguém perceba porquê e para quê.

Em abono da verdade, o Governo da Zona Euro já existe de facto, mas ainda com alguns condicionalismos. No dia em que acontecer de jure declaro aqui que ponderarei a hipótese de emigrar e renunciar à nacionalidade portuguesa, dado que não faz sentido ter a nacionalidade de um país que aceita deixar de existir para ser província ou o equivalente a órgão de poder local do Reich.

Governos de Vichy? Não, obrigado!

quarta-feira, 15 de julho de 2015

John Kerry para Prémio Nobel da Paz?


A indicação de John Kerry e o desafio para que fosse nomeada uma personalidade russa ou iraniana presentes nas negociações era um cenário que já havia sido avançado aqui no início de Abril.

A ideia parece-me óbvia e sai reforçada com a resolução do conflito com Cuba: os EUA encerram (vamos lá ver se será mesmo assim) dois dos mais antigos e penosos conflitos da história contemporânea a menos de 1 ano das eleições Presidenciais que podem garantir a continuação (que, a verificar-se, será histórica) dos democratas no comando do país depois de 2 mandatos seguidos.

Para este efeito, o Prémio Nobel da Paz ao democrata John Kerry dará um impulso significativo para a eleição do candidato democrata, para o qual tudo aponta, neste momento, que seja Hillary Clinton. E Barack Obama tem uma promessa feita a Clinton pela lealdade que lhe demonstrou, fazendo de tudo para abrir caminho à eleição democrata.

No entanto, mantenho o desafio: será que apenas Kerry será eleito ou existirá coragem para dar o Prémio Nobel da Paz a um iraniano? E a eleição de Kerry será individual ou partilhada com um terceiro?

E, só para que ninguém se esqueça, ‪#‎PorAcasoFoiIdeiaMinha‬.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Rússia veta resolução do Conselho de Segurança que qualifica o massacre de Srebrenica como genocídio


Não podendo acompanhar totalmente a Rússia nesta posição no que toca à não qualificação do incidente como genocídio - embora compreenda que o massacre foi há demasiado pouco tempo ao ponto de ainda poder manchar a reputação de Moscovo, não querendo os russos comprometer-se numa altura em que tudo pode ser usado como arma de arremesso, ainda que tenham total razão quando referem que a Resolução só condena os sérvios da Bósnia -, vou recordar aos séquitos dos EUA e aos detractores da Rússia que, ainda há pouco mais de 2 meses, Barack Obama recusou-se a qualificar como genocídio o massacre de mais de 1 milhão de arménios às mãos do Império Otomano, há 100 anos atrás!

As razões de Obama são fáceis de compreender: a bem da real politik, não pretendem ferir susceptibilidades dos seus aliados turcos. Mas não deixa de ser curioso que Obama defendia que o massacre dos arménios era genocídio antes de ser Presidente. Aí está o Prémio Nobel da Paz 2009 e a coerência do mesmo país que ainda ontem condenou a Rússia.

Não deviam os média portugueses recordar isto? Ou só interessa quando é a Rússia?