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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Anacoreta Correia nas listas da coligação Portugal à Frente: oposição interna de facto?

Depois de muito secretismo, foram, finalmente, conhecidas as listas da Coligação Portugal à Frente.

É sempre curioso ver os nomes dos afastados e o dos novos nomes incluídos. Evidentemente que, com excepção dos círculos eleitorais com 2 ou 3 mandatos elegíveis, isto de ser cabeça-de-lista é algo com cada vez menos relevância prática, servindo apenas para alimentar quezílias internas de PS e PSD, afagar os egos de alguns quadros, contagem de espingardas entre diferentes facções e distribuição dos feudos para alguns poderem dizer em casa "este é o meu bairro e aqui mando eu".

A mesma regra não se aplica no CDS, que não só se trata de um partido de dimensão média como o método de silenciamento de qualquer brisa desestabilizadora mantém-se tão ou mais eficaz do que o de partidos como o Comunista: a pressão exercida faz com que as pessoas se afastem por si.

Isto tudo para dizer que o alarido em torno da colocação de Filipe Anacoreta Correia não faz muito sentido. Só os mais distraídos acreditam que o Movimento Alternativa e Responsabilidade (MAR) é uma oposição de facto - que não é. Basta acompanhar o que os seus principais elementos dizem tanto nas redes sociais como noutros meios para perceber que o CDS não tem oposição interna, pelo contrário, a alegada oposição ecoa e patrocina as decisões que a direcção do partido toma.

Ainda assim, e para se ter ideia da mentalidade no CDS - onde a esmagadora maioria prefere seguir o timoneiro sem pensar para onde vai, porque segue em determinada direcção ou os efeitos nefastos que essa decisão do líder pode ter na esperança de ser recompensado pelo seguidismo -, há quem ache que Anacoreta Correia é oposição e está contra o partido pelo simples facto de encabeçar o MAR e apresentar uma lista própria que só reforçou a legitimidade da actual liderança. 

A integração de Anacoreta Correia não é decidida com base na democraticidade e na necessidade de garantir o pluralismo interno - que não existe -, mas é essa ideia que se pretende transmitir para o exterior. Jamais Paulo Portas permitiria um rebelde, alguém imprevisível com agenda própria nas listas às Legislativas ou alguém que fosse suficientemente influente para fazer tremer o seu poder. Mesmo Ribeiro e Castro não era oposição - os mais atentos conhecem o sentido de voto e a posição de Ribeiro e Castro em consonância com a liderança e a luta pelo 1.º de Dezembro é um mero fait divers sem qualquer mossa ao nível interno.

Paulo Portas é o melhor político português, sabe o que faz, não toma decisões com base na emoção, tem características de Frank Underwood e também tem um conjunto de pessoas à sua volta que ajudam a máquina a funcionar na perfeição. Se Anacoreta Correia fosse oposição seria totalmente liquidado e não tinha a mínima hipótese de aparecer - veja-se o que sucedeu com Altino Bessa e a reacção de Portas quando o ainda deputado por Braga ameaçou apresentar uma lista própria.

Considerando as contas dos deputados eleitos por Lisboa, em 2011, PSD e CDS totalizam 25 mandatos entre si. Embora seja questionável que ambos consigam o mesmo resultado a 4 de Outubro - e não o digo com base em sondagens cujos resultados são especulativos -, mesmo que a Coligação perca as eleições com alguma distância para o PS, o 20.º lugar de Anacoreta Correia mantém-se elegível: não estou a ver Passos Coelho, Paulo Portas e Paula Teixeira da Cruz como deputados - existe a perspectiva de que uma vez ministro já não se desce para deputado.

No mais, estas listas causam alguma surpresa porque:
  • Colocam Anacoreta Correia acima de Raul Almeida e João Gonçalves Pereira, em Lisboa;
  • Integram Miguel Pires da Silva (JP) num lugar que em 2011 era elegível e em 2015 poderá também ser;
  • Afastam Manuel Isaac, Abel Baptista, Michael Seufert e Vera Rodrigues da eleição;
  • Mantém a incógnita sobre quem segue em 4.º lugar por Santarém (poderá ser Margarida Netto que foi alvo de um golpe de Estado da distrital?).
A continuação do companheiro de Álvaro Sobrinho nas corridas de cavalos e o afastamento de João Viegas por troca com Mariana Ribeiro Ferreira não são surpresa. Já em 2011, a última estava na lista por Setúbal (3.º lugar) e acabou por ter uma recompensa ainda melhor: a Presidência do Instituto de Segurança Social. Agora segue em 6.º, que, em 2011 seria lugar elegível, mas em Setúbal, em 2015, já é mais difícil (o voto no PS e na CDU tende a ser muito maior quando os partidos da coligação estão no poder).

Já António Simões, é o último suplente (2.º) de um círculo eleitoral onde o PSD costuma conquistar os dois mandatos disponíveis. Se a coligação vencer e José Cesário assumir novo cargo governativo, Simões fica em posição privilegiada para fazer uma incursão no Parlamento em ocasião futura.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Os cartazes das Legislativas: Coligação "Portugal à Frente" (PSD/CDS-PP)

Aproximam-se as Legislativas e, com elas, os cartazes das listas candidatas espalhados nos mais variados pontos (preferência dada a auto-estradas e rotundas). Proponho, assim, uma análise à propaganda já exposta um pouco por todo o país, procurando ser fiel o mais possível à propaganda efectivamente afixada independentemente do partido político a que diz respeito ou da sua representação.

Faço aqui a minha declaração de interesses: não vou votar nas próximas eleições por vontade própria e se o fizesse não votaria em nenhum partido com representação parlamentar (por protesto e por não me identificar com nenhum). A minha análise tentará ser isenta e olhar às condicionantes da campanha, às características dos partidos/coligações e ao que o destinatário pode esperar.

Das primeiras impressões que retiro, destaco o facto de ninguém utilizar a propaganda para dar a conhecer qualquer das principais medidas que compõem o seu programa eleitoral, preferindo os chavões ou as banalidades. É notória a ausência de criatividade e a inovação na forma como um simples cartaz pode captar a atenção do público (sim, é possível). A título pessoal, ainda gostava de ver um cartaz suficientemente arrojado com os candidatos dispostos ou em formato de desenho animado ou em poses diferentes que os da fotografia de passe ou noivo, tão na moda até à década de 1990.

Coligação "Portugal à Frente"
 Imagem retirada daqui.

Talvez por ser o primeiro, apresenta uma mensagem muito simples e um grafismo básico. O objectivo é claro e, com as cores utilizadas, passa por estabelecer a ligação estreita entre a Coligação do Governo e o país, mais concretamente com a defesa dos interesses nacionais, tentando despoletar no destinatário uma afinidade com os valores patrióticos que a Coligação diz defender. A mensagem é bem visível e não oferece qualquer complexidade.

A candidatura da actual maioria procura reiterar junto do eleitorado a mensagem que insiste em transmitir em todos os meios de comunicação: o Governo tem colocado "Portugal no caminho certo" e pretende dar continuidade ao trabalho feito. Procura-se despertar no destinatário o sentimento de concordância. Afinal, quem não quer ver "Portugal no caminho certo" - independentemente do que se entende por "caminho certo"?

Ainda do ponto de vista visual, o nome da coligação está bem identificado em tamanho e tipo de letra, ainda que o branco possa diluir-se no meio das várias tonalidades de vermelho. Já o símbolo dos dois partidos poderia ser fiel às cores originais, sem fundo transparente e com ligeiro rebordo a negro para não deixar dúvidas sobre quais os partidos que integram esta candidatura e para não deixar dúvidas em alguns eleitores mais distraídos.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A coligação não tem remédio

Primeiro, era um «mero» corte das pensões de sobrevivência (em abstracto, sem mais).

Depois, já dependia dos valores auferidos.

Seguidamente, já só se aplicava aos casos de acumulação de pensões.

Finalmente, acabam a dizer-nos que não se aplica a quase ninguém, uma vez que o Estado gasta 2,7 mil milhões de euros com pensões e o corte pretendido é de apenas 100 milhões.

Pelo meio, 3 personalidades de PSD e CDS (Paulo Portas, Marco António Costa e Pedro Mota Soares) comentam a medida (que resulta das negociações com a troika)... mas ontem já só o CDS é que sabia dela e o PSD assobiava para o lado alegando que não a conhecia. Como é óbvio, todos sabem do que se está aqui a falar mas no PSD impera a lei da rolha, mais não seja para tentar queimar o CDS - o famoso «penta das autárquicas» caiu mal aos sociais-democratas.

Parece-me óbvio o problema: a coligação continua sem se entender e cada um puxa para o lado que mais lhe convém. Entretanto, as dificuldades de comunicação do Governo são alarmantes, senão vejamos: há uma medida polémica que sai para a imprensa quase a bruto e o Executivo permite que se instale a polémica para poder limar algumas arestas em função da reacção à medida proposta. Como é que alguém com o mínimo de bom senso permite que se incendeiem os ânimos desta maneira é um fenómeno que me ultrapassa, até porque, afinal, muito poucos serão afectados pela proposta!

P.S.: Não deixa de ser curiosa a maneira como hoje se lança a notícia de cortes de 15% nas subvenções vitalícias dos ex-titulares de cargos políticos... que permitirão uma poupança de 9 milhões de euros. A forma como João Almeida defendeu, nas redes sociais, este possível corte permite antever que está encontrado o elemento que permitirá justificar os cortes nos salários dos funcionários públicos. Afinal, serão sempre inferiores ao das subvenções políticas.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Casamento PSD-CDS: Coligação ou convulsão?

Os 11,7% de votos do CDS-PP continuam a ser demais para um PSD que se sente mais pequeno do que a confiança que os eleitores lhe deram. Um ministro centrista não pode gozar de autonomia. Todos os cuidados são poucos. Os populares não são aliados, são ameaças aos sociais-democratas, motivo pelo qual a facção laranja insiste em atacar o seu companheiro de um casamento que ainda não teve tempo de gozar a lua-de-mel e já é alvo de violência: primeiro, o reduzido número de representantes do CDS no Executivo; em segundo lugar, a colocação de vigilantes no apoio aos ministros centristas; em terceiro, a nomeação de Braga de Macedo para aborrecer Portas; agora surgem, em quarto, a pressão social-democrata em torno das privatizações; em quinto, a reacção de Alberto João Jardim e o silêncio do PSD face às críticas (justas) de Paulo Portas para com o modelo de gestão prosseguido pelo Presidente do Governo Regional da Madeira; e, em sexto, a inexplicável exclusão de Paulo Portas do Conselho de Estado, pelo PSD.
Reparem, são seis incidentes em apenas 45 dias, desde que o Governo tomou posse. Dá uma média de uma discussão conjugal por semana! Ou muito me engano, ou a este ritmo não teremos coligação para durar meia legislatura. O PSD dedica-se a combater a possível influência de um parceiro (?) que continua a ganhar pontos com base numa política assertiva com vista à projecção do país junto da Comunidade Internacional e à protecção dos mais necessitados. Brevemente teremos novidades na agricultura.
Pedro Passos Coelho continua impotente para contrariar o bom trabalho dos seus aliados, quando a sua prioridade devia passar por dar seguimento ao bom trabalho desenvolvido pelos centristas. Pedro Passos Coelho continua preocupado com a ascensão dos seus aliados e ignora a hipótese de se automutilar e comprometer um projecto de coligação que tem tudo para vencer. Se Pedro Passos Coelho pretende controlar as ameaças aos interesses dos seus pares deve começar por olhar na direcção daqueles que se dizem independentes e, entre o ar trapalhão e sonso que revelam publicamente, vão expandindo a sua área de influência aproveitando o facto de o líder estar empenhado em apagar fogos imaginários que se reacendem com cada vez mais força.