quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A Euronews, as FakeNews e a propaganda na guerra da Síria


O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos emitiu um comunicado onde disse: "Multiple sources have reports that tens of civilians were shot dead yesterday in al-Ahrar Square in al-Kallaseh neighbourhood, and also in Bustan al-Qasr, by Government forces and their allies, including allegedly the Iraqi al-Nujabaa armed group".

Ou seja, o ACNUDH:
1- Dá conta de múltiplas fontes, sem precisar de que fontes de tratam - tanto pela sua tipologia, como pelos seus acessos;
2- Apenas alertou que recebeu informações, não que as recolheu;
3- De modo a garantir que abusos desta natureza não se verificam e conseguir ter a certeza do que se passa no terreno, apelou a que haja verificação do que se passa no terreno. Para evitar boatos e rumores, claro.

E a Euronews não só traduz "reports" para "relatórios" - dando a entender que estamos perante documentos devidamente tratados -, quando devia ter traduzido para "denúncias" ou "relatos", como ainda afirma que o Alto Comissariado declarou que civis estão a ser assassinados pelo exército sírio e seus aliados.

O exercício de lógica da Euronews (e outros do género) é:
A: Se as Nações Unidas recolherem informações sobre execuções de civis na Síria, é porque aconteceu.
B: Há notícia de supostas execuções de civis na Síria, por parte de fontes desconhecidas.
C: Logo, as Nações Unidas estão a afirmar que aconteceu e que o responsável é Bashar al-Assad.

Isto não é notícia, é desonestidade pura - e desonestidade é um eufemismo.

 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Síria: John Kerry reconhece crimes cometidos pelos grupos armados

 
A resolução não passou, mas a ajuda humanitária acabou por tentar chegar ao destinatário.
 
Porém, apenas cinco dias depois, o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry admitiu que " é verdade que aconteceu algumas vezes que elementos da oposição [apoiada pelos EUA e por países europeus] ameaçaram civis que pretendiam abandonar Aleppo e em alguns casos impediram que a ajuda humanitária chegasse a quem precisa", acrescentando que "estamos perante crimes muito graves" (veja-se este vídeo a partir dos 2'21'').
 
O que acho verdadeiramente hilariante, sem ter graça nenhuma, é constatar que encontrei apenas um órgão de comunicação social ocidental que reproduziu parte das declarações de Kerry.
 
O autor de tamanha veleidade foi o The New York Times, que passa quase despercebido pelas palavras do Secretário de Estado dos EUA mas não perde a oportunidade de escrever "a Rússia, que diz que está a ajudar a Síria a combater os extremistas islâmicos, tem bloqueado sucessivos esforços da ONU para garantir um corredor de ajuda humanitária".

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Venezuela: pode um Parlamento ser suspenso?

Segundo consta, a ala de Nicolas Maduro recusa-se a cumprir as decisões do Parlamento, considerando que "legalmente, a Assembleia Nacional não existe".

Já o Presidente da Assembleia Nacional venezuelana pretende deslocar-se a Washington para forçar a aplicação de medidas da Carta Democrática Interamericana à Venezuela.


Disse-o para apoiar a suspensão das instituições que se vinham a afirmar como garantes da ainda jovem democracia da Rússia pós-URSS em favor da concentração de poderes em Boris Ieltsin, com o objectivo de acelerar a privatização dos activos públicos e a posterior dependência da economia russa de terceiros.


O que mudou, entretanto? Qual é o critério para que os tempos sejam excepcionais? Por uma questão de coerência, não fará sentido que Washington apoie a decisão de Maduro de suspender o Parlamento? Ou vai-se insistir na aplicação de sanções que afectam direitos básicos da população? Até onde irá a ingerência?

sábado, 17 de setembro de 2016

Eleições legislativas na Rússia: que futuro para Vladimir Putin?

1- No próximo dia 18 de Setembro, realizam-se as eleições legislativas na Rússia. Este vai ser o primeiro teste à liderança russa, mais concretamente ao partido “Rússia Unida”, que apoia o Presidente Vladimir Putin, desde a nova vaga de tensão com o Ocidente iniciada com a crise na Ucrânia e agravada, entre outros, pela situação na Síria e por incidentes militares com a NATO.
2- Desde então, não obstante a aplicação de sanções retaliatórias ao bloco ocidental, a economia russa ressentiu-se significativamente, não apenas com a desvalorização apreciável do rublo, mas também com o aumento da inflação e a queda dos preços do petróleo. Dado o prolongamento do statu quo, Vladimir Putin tem apostado num conjunto de iniciativas diplomáticas que permitam à Rússia estreitar novas parcerias económicas, aproximando-se de países como a China e reforçando os eixos de cooperação com o Irão.
3- Ainda com o objectivo de inverter a actual conjuntura e de molde a equilibrar a actual dependência do sector energético, o Chefe do Estado russo tem tomado iniciativas com vista a diversificar a economia através, por exemplo, de medidas de incentivo à agricultura que garantam a auto-suficiência alimentar do país. Não menos importante foi o facto de, a 25 de Julho passado, Vladimir Putin ter incumbido o Stolypin Club, um dos três grupos do Conselho Económico, da missão de preparar um conjunto de reformas económicas de fundo.
4- Ao conferir este mandato ao grupo que integra Boris Titov e Sergei Glazyev, personalidades influentes e experientes nas pastas ucraniana e chinesa, Putin demarca-se dos conservadores, da Governadora do Banco Central Elvira Nabiullina, e dos neoliberais, liderados pelo ex-Ministro das Finanças Alexei Kudrin, assumindo como solução o papel intervencionista do Estado enquanto motor da economia nacional.
5- Na prática, o conjunto de propostas a apresentar pelo Stolypin Club terá sensivelmente dois anos, até às eleições Presidenciais de 2018, para apresentar resultados e transformar a periclitante economia russa, libertando Vladimir Putin para funções de política externa que atenuem a actual pressão sobre a Rússia e continuem a afirmar Moscovo como potência emergente no quadro geopolítico mundial. Desta forma, pretende o Presidente russo dar continuidade ao processo de recuperação do orgulho nacional russo, que tem saído reforçado em episódios pontuais, como as acções na Crimeia e na Síria.
6- Aliás, é exactamente o ressuscitar desse orgulho nacional que se assume como um dos factores que contribuíram para índices de popularidade de Vladimir Putin em torno dos 90%. E será também esse o factor que ainda garante ao Presidente russo 77,4% de taxa de aprovação, no final do passado mês de Agosto, segundo a sondagem realizada pelo Centro de Investigação e Opinião Pública (VCIOM).
7- Todavia, não pode ser ignorado o impacto que o retardamento do processo de recuperação económica tem provocado junto de uma população que começa a revelar sinais de impaciência e saturação e que se manifesta na crescente queda de apoio popular ao seu Presidente. Outro sinal evidente desta inquietação é visível nas sondagens também realizadas pelo VCIOM, admitindo-se um cenário de possível perda da maioria absoluta do “Rússia Unida” e a ascensão inédita do “Partido Liberal Democrático da Rússia”, movimento político de extrema-direita, a segunda força política, superando o Partido Comunista Russo, o principal partido da oposição.
8- O crescimento do partido de Vladimir Zhirinovsky não é inocente, tendo como base o populismo e o anúncio de uma agenda nacionalista com laivos imperialistas que promete devolver à Rússia o prestígio e o poder conseguidos até ao final do século XIX, através dos quais recuperará (também) a economia do país. Embora na Rússia prevaleça o presidencialismo, não pode ser ignorada a importância da Duma no domínio legislativo e na forma como o Governo pode ser responsável perante uma Câmara na qual o partido dominante e até o Presidente arriscam tornar-se reféns de uma extrema-direita em fase ascendente e capaz de formar coligações de conveniência com o objectivo de condicionar a política interna.
9- Assim, importará perceber até que ponto as alterações introduzidas, em 2014, à lei eleitoral – no sentido de aproximar o sistema eleitoral russo do sistema alemão, ao passar para um sistema misto equilibrado no qual os 450 mandatos disponíveis são divididos entre listas sujeitas ao sistema proporcional e a representação maioritária de candidaturas únicas independentes – influenciarão o futuro quadro parlamentar russo e disfarcem a pressão da extrema-direita, garantindo, apesar de tudo, uma maioria favorável aos interesses do “Rússia Unida”, num cenário que, por mais favorável que seja, manterá sempre Vladimir Putin em alerta até 2018.

domingo, 26 de junho de 2016

Sugestão cultural e literária


Aproveitamos para recomendar este evento e esta obra literária, cuja descrição pode ser lida no respectivo endereço da editora Quimera.

A organização do evento pode ser acompanhada na respectiva página de Facebook.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Massacre de Orlando: "lobo solitário", negligência policial ou terrorismo consentido/direccionado?

O massacre de Orlando tem aumentado as dúvidas relativamente aos contornos (i) do que aconteceu, (ii) como aconteceu, (iii) porque aconteceu e (iv) por quem aconteceu.

Começando pelo primeiro ponto (o que aconteceu):
1- Uma pessoa sozinha conseguiu entrar num espaço de diversão nocturna munido de armas e munições sem qualquer tipo de oposição?
2- Uma vez no espaço, conseguiu abater cerca de 50 pessoas sem que ninguém esboçasse reacção ou tentativa de deter o indivíduo? Apenas se deixaram massacrar ou fingiram estar mortos?


Segundo ponto (como aconteceu):
1- Contou com ajuda de alguém ou actuou por conta própria?
2- Não há imagens de câmaras de vigilância ou captadas por telemóvel? Será que a única informação disponível é a troca de mensagens entre uma das vítimas e a sua mãe?


Terceiro ponto (porque aconteceu):
1- Que motivações justificaram a acção do(s) autor(es) material? Extremismo religioso? Recusa em aceitar a sua possível orientação sexual? Homofobia? Renegação pela sociedade? Depressão? Vários destes? Outra razão?
2- Estaremos perante terrorismo puro, um crime de ódio ou um crime de homicídio em massa justificado por outro factor?


Quarto ponto (por quem aconteceu):
1- Terá o aparente autor material actuado isoladamente ou contou com a ajuda de terceiros?
2- Terá sido instigado por alguém?


Porque são determinantes as respostas a estas perguntas?
1- Para perceber se estamos perante o caso de um "lobo solitário", enquanto pessoa que se auto-radicaliza e, sem precisar de estar em contacto ou receber treino de uma organização terrorista, comete um atentado.
2- Não deixa de ser curioso que, os atentados de Paris (de Janeiro e Novembro de 2015), os de Bruxelas e este de Orlando têm todos um ponto em comum: foram cometidos por indivíduos mais que referenciados pelas autoridades, autoridades estas que, por diferentes razões, acabaram por entender sempre que os visados não constituíam uma ameaça, mesmo apesar dos comportamentos claros grosseiros evidenciados pelos autores dos ataques.
3- Assim, estamos perante situações de mera negligência, de real impossibilidade em fazer melhor ou de um laxismo consciente mais tarde aproveitado em favor de determinadas bandeiras sociais e da supressão de direitos e do reforço dos poderes das forças de segurança face ao cidadão comum após o dano estar consumado? É que uma coisa são os imprevisíveis "lobos solitários" e outra completamente diferente são os indivíduos referenciados e até vigiados que, após essa identificação e acompanhamento, se apetrecham e agravam descaradamente os seus comportamentos sem qualquer tipo de oposição.
4- Não querendo afirmar rigorosamente nada ou apontar para uma qualquer resposta – mas querendo, apenas, lançar tópicos para reflexão –, não posso deixar de recordar a já velhinha e esquecida “Operation Northwoods”, orquestrada por chefias militares norte-americanas, na década de 1960, e que visava a morte de pessoas inocentes e a execução de atentados terroristas nos próprios EUA para desencadear e facilitar o apoio popular a uma guerra a travar com Cuba.
5- E, aqui, não posso deixar de pensar nos grupos sociais visados com os atentados dos últimos 18 meses: jornalistas (como símbolo da liberdade de expressão e dos valores democráticos), judeus e homossexuais, na qualidade de vítimas, juntamente com situações que atingem qualquer cidadão comum: eventos desportivos, locais de diversão e transportes.
6- Aliás, a referência aos transportes não deixa de ser curiosa. A impopular Directiva PNR (Passenger Name Record) conseguiu finalmente passar no Parlamento Europeu, após os ataques de Paris e Bruxelas e depois de anos a ser rejeitada por violação de direitos e liberdades pessoais.
7- Igualmente curioso é o facto de os atentados de Paris (Janeiro de 2015) que incidiram sobre judeus terem resultado na atribuição de direitos especiais, em França, aos que integram este grupo religioso e à própria agenda israelita, após um período de maior tensão em que se intensificavam as críticas ao Governo de Telavive – e não posso deixar de recordar como após estes acontecimentos Benjamin Netanyahu venceu as eleições de forma categórica depois de uma campanha dedicada ao medo.
8- Também não posso esquecer que desde os atentados de Novembro, em Paris, a França entrou num estado de emergência que comprometeu a realização de acções de protesto antes da Cimeira do Clima de Paris e acabou por estender esse estado de emergência para o Euro’2016, impedindo a realização de certas manifestações e acções de protesto. Também interessante é constatar que a França encontrou nos atentados de Novembro uma justificação objectiva para suspender os acordos de Schengen… quando antes dos mesmos já tinha avançado com controlos fronteiriços derivado à “ameaça terrorista e risco para a ordem pública”.
9- Relativamente a Orlando, além da discussão (ainda que leve) em torno das armas, não nos podemos esquecer que dentro de cinco meses teremos eleições nos EUA e o fim de uma era (Obama) para início de outra (Hillary Clinton ou Donald Trump). Às vezes, acontecimentos como os de Orlando só inspiram a um início de mandato em cheio e pleno de legitimidade para que um Chefe de Estado faça “o que tem de ser feito” para reprimir uma ameaça. E não posso deixar de referir que à medida que vão acontecendo estes eventos mais vou ouvindo, um pouco por toda a parte, pelo cidadão comum, frases como “é matá-los a todos”, “tem de se bombardear aquilo tudo”, sem apelo nem agravo. A saturação das pessoas face ao terrorismo é evidente e cada vez estão mais dispostas a tudo, mesmo a sacrificar os seus direitos pessoais, independentemente de existirem razões para isso.


Como disse, longe de mim afirmar que estamos perante uma acção concertada ou combinada. Tudo isto pode, de facto, ser mera coincidência e eu não quero forçar uma interpretação dos factos. Mas a verdade é que começam a ser coincidências a mais e os factos estão todos interligados. E convém não esquecer que a ficção às vezes é mesmo superada pela realidade e temos antecedentes (como a “Operação Northwoods” que referi) que atestam que, quando há vontade, os cenários mais improváveis e a teoria da conspiração acontecem, exactamente por ninguém acreditar neles.

Neste momento só gostaria de obter respostas e, de momento, basta-me uma à seguinte pergunta: como é possível indivíduos referenciados conseguirem aceder a armamento (na Europa e nos EUA), relacionar-se com pessoas com potencial de perigosidade e organizarem e cometer ataques contra terceiros sem qualquer tipo de oposição?


“O essencial é invisível aos olhos”, Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 7 de junho de 2016

Do espião português detido em Roma

Após as mais recentes notícias terem sido publicadas sobre o assunto, importa dizer que a espionagem é a segunda profissão mais antiga do mundo e, por vezes, chega a cruzar-se com a mais antiga de todas.

Quer isto dizer que desde sempre que meio mundo espia meio mundo, o que inclui Serviços de Informações (aka "serviços secretos") a espiarem o que fazem outros Serviços de Informações. Isto faz-se em qualquer lado do mundo, incluindo em Portugal.

E quer isto dizer que, conforme se pode retirar desta notícia, andavam Serviços de Informações estrangeiros a espiar outros (provavelmente os norte-americanos de olho nos russos) quando se poderão ter cruzado com o que agora levou à detenção de um português.

No contexto de "guerra fria" que vivemos actualmente, calha sempre bem uma narrativa romanceada com espionagem para queimar o próximo e envolver ingénuos (embora culpados) pelo meio - o interesse em espiar o próximo vem exactamente da necessidade de lhe apanhar fragilidades que possam ser exploradas contra o adversário.

Agora, os Serviços de Informações portugueses parecem querer ficar com os louros dizendo que o Oficial português detido já estava "sinalizado" desde há duas décadas por "comportamentos suspeitos". A verdade é que, se realmente havia essa suspeita, porque raio nunca agiram em conformidade e ainda lhe terão permitido o acesso a informação classificada? Just another day in the office... dos SI portugueses.

Não há mérito dos Serviços de Informações portugueses, já que só tiveram conhecimento do que se passava através de Serviços "aliados"!

A haver algum mérito relativamente a entidades portuguesas, é da Polícia Judiciária, pela forma como soube persistir e reagir prontamente à evolução dos acontecimentos.

Insisto ainda no facto de tudo isto só ter sido possível porque um Serviço de Informações ocidental (muito provavelmente dos EUA) desenvolvia (também) operações ilegais em território alheio. Ou alguém acredita que as alegadas fotografias obtidas em Ljubljana foram conseguidas por acidente num momento em que um turista ocidental - que, coincidentemente, até é funcionário de um Serviço de Informações do seu país - estava a fotografar a Cidade Velha da capital eslovena e ao partilhá-las no Facebook um dos seus colegas reconheceu pessoas que, por acaso, estavam na imagem?

Não desviemos as atenções do essencial: anda meio mundo a espiar meio mundo e a espiar tudo o que puder, na maior parte dos casos sem autorização das autoridades do território onde desenvolvem estas operações. Cometem crimes, portanto. Ninguém pensa em regular ou intervir nesta matéria e até se usa prova resultante de acções à margem da lei. Pena é que estes crimes sejam consentidos quando falamos de "serviços amigos". Como sabemos, a amizade a este nível tem muito que se lhe diga...

Mas o que eu gostava mesmo de saber era o que pretendia fazer o Secretário-Geral do SIRP caso o processo fosse mesmo arquivado. Iria exonerar o visado por "conveniência de serviço" ou iria promovê-lo, chutando-o para um qualquer cargo dentro da estrutura ou até mesmo de representação no estrangeiro... como já se fez com outros, incluindo envolvidos em processos crime?

domingo, 15 de maio de 2016

Eurovisão ou a cultura ao serviço da propaganda política

Não é novidade nenhuma que o festival da Eurovisão é visto como mais uma arma de arremesso política. Israel é tudo menos um país europeu mas participa porque o país pode instrumentalizar a Eurovisão para limpar a imagem crescentemente negativa do país - e os sionistas são exímios em propaganda através da cultura.

Neste quadro, o alvo a atacar/prejudicar em cada Festival continua (e promete continuar a ser por algum tempo) a Rússia.

Depois de no ano passado ter ficado em 2.º lugar, após um sistema de atribuição e contagem de votos muito polémico que terá impedido a vitória russa que poderia ter repercussões políticas na Europa, agora foram os acontecimentos de 2016.

Para quem não está a par, a Arménia foi ameaçada comexpulsão porque a cantora que representa o país defraldou a bandeira deNagorno-Karabakh. Mas a Ucrânia aproveita o momento para levar ao festival uma canção sobre a deportação dos tártaros da Crimeia por Estaline, numa clara tentativa de provocar a Rússia e trazer a questão política para debate.

Escusado será dizer que a (novamente) favorita Rússia não ganhou. Quem venceu foi a Ucrânia, sem avisos de expulsão ou sanção. Limpinho, limpinho, limpinho. E ganha ainda o direito de organizar a edição do próximo ano, onde as provocações já começaram relativamente à Crimeia. Isto não é mais do que um brinde para a Ucrânia que tem falhado grosseiramente no seu objectivo de convencer a União Europeia sobre as suas condições para aderir ao bloco ajudando a restaurar algum orgulho nacional. Política das cenouras e bastonadas.


Sergei Lazarev, representante russo na Eurovisão, em 2016

No fundo, esta é mais uma tentativa flagrante de a Europa atacar a Rússia e que até ocorre dias depois de Barack Obama ter organizado um jantar com os países escandinavos para alertá-los para a "ameaça russa" - e os tolos caem que nem patinhos, hipnotizados pelo glamour da Casa Branca.

É praticamente impossível que a Rússia vença a Eurovisão. Não porque o público não queira, mas porque o sistema está feito para impedir uma "humilhação" que reconheça o domínio russo até na área da cultura, por melhores que eles sejam (e são!). No entanto, por mais improvável que seja uma vitória russa, há que continuar a participar, nem que seja para dizer "presente!". Protestos são coisa de criança.

Aliás, podemos mesmo recordar-nos que a última vez que a Rússia venceu um festival da Eurovisão foi em 2008, cerca de duas semanas depois de Vladimir Putin ter saído da Presidência e ter sido sucedido por Dmitri Medvedev. Mera coincidência ou tentativa de manifestação de simpatia com o "American Boy"?


Pode parecer tolice ou trivialidade, mas a instrumentalização da cultura para fins políticos é encarada de forma muito séria e a Eurovisão, pelo estatuto que adquiriu ao longo das décadas e pelo objectivo com que foi criada, está na linha da frente desta Europa cada vez mais desorientada e à deriva.

sábado, 7 de maio de 2016

As Primárias norte-americanas ainda não terminaram

Muitos pensam que as primárias norte-americanas já terminaram e os candidatos resumem-se a Donald J. Trump e Hillary Clinton, mas a corrida está longe do fim e as eleições de Novembro prometem estar ao rubro:
1- Apesar de Ted Cruz e John Kasich terem suspendido as respectivas campanhas, não é líquido que Donald Trump siga tranquilamente para a Convenção republicana em Cleveland, podendo emergir um candidato de última hora ou um qualquer evento que comprometam a oficialização da candidatura de Trump.
2- Os acontecimentos no terreno dão cada vez mais força a Trump: Lindsey Graham e Jeb Bush declararam-se incapazes de votar em Trump, sendo que não apoios destes só dão credibilidade ao provável candidato republicano e tendem a afastá-lo da típica imagem republicana de ligação às classes altas e aos lóbis e à influência dos neocons na política em geral.
3- Os média estão mais macios com Trump e já perceberam que atacá-lo só lhe dá legitimidade. Ainda assim, os analistas continuam perdidos: as mesmas razões invocadas há menos de 1 ano atrás para justificar uma derrota colossal de Trump nas primárias são as mesmas dadas agora para justificar a derrota de Trump em Novembro com um candidato democrata - apesar de a popularidade de Trump estar em crescendo.
4- Vale tudo para sacar o voto: Trump publicou uma foto sua a celebrar o 5 de Mayo enquanto comia um taco e colocava como legenda "I love hispanics"; Bill Clinton, que se diz vegano, andou no Kentucky a distribuir frango frito à população negra para fazer campanha pela mulher.
5- ‪#‎CrookedHillary, como já é conhecida, suscita cada vez mais desconfiança no eleitorado. São demasiadas acusações de que é alvo e as suas declarações só adensam dúvidas, dando muitas vezes o dito pelo não dito e tendo ainda pela frente a investigação do FBI.
6- Continuam ainda a ser divulgados os números dos doadores/patrocinadores da campanha de Hillary Clinton: Arábia Saudita, Qatar, Emirados, etc. E estes favores pagam-se. Por algum motivo Clinton tem mantido um discurso agressivo contra o Irão. Ou seja, "neocon Hillary", a republicana com pele de democrata. Não é por acaso que as pessoas acusam-na de desonestidade e de não ser de confiança. Perante tudo isto, ganha força a campanha ‪#‎DropOutHillary.
7- Neste momento, é muito pouco provável que Hillary Clinton ou Bernie Sanders consigam eleger delegados suficientes para garantir a sua nomeação no Congresso democrata de Filadélfia. É-o porque faltam poucos Estados e Clinton precisaria de eleger quase 700 delegados e Sanders perto de 1.000. Na prática, Hillary, que segue na frente, precisa eleger 66% do total de delegados disponíveis, o que significa que Sanders não pode eleger mais do que 34%. A menos que Clinton consiga uma vitória estrondosa (por números ainda não atingidos nestas primárias), o facto de os Estados estarem a ser bem disputados adia a decisão para a Convenção democrata e para os superdelegados.
8- E Sanders está a conseguir levar o jogo para prolongamento, apostando tudo nesta convenção: não deixa Hillary fugir, vai ganhando eleições e, com isso, pretende exercer pressão sobre os superdelegados. A maioria destes apoia Clinton, mas o objectivo de Sanders é recuperar cerca de 3,5 milhões de votos e, com isso, obrigar os superdelegados a mudarem o seu sentido de voto e apoiarem o candidato mais votado pelo povo. Esta é a réstia de esperança de Sanders: contrariar a regra da proporcionalidade e apostar no número de votantes. Se não conseguir recuperar em votos o que não consegue com delegados eleitos, dificilmente evitará a nomeação de Hillary Clinton.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Da'esh reivindica atentado no Daguestão

O Da'esh reivindicou um atentado ocorrido ontem, na Rússia, mais concretamente na região do Daguestão, onde carros armadilhados terão provocado, pelo menos, uma morte.

O terrorismo no Daguestão não é surpresa para ninguém, sendo daqui que decorre a maior ameaça em solo russo, merecendo a preocupação de Moscovo pelo crescente extremismo com inspiração islâmica.

Em traços gerais, acaba por ser uma região que remete para o Afeganistão sob domínio talibã:
1- Geograficamente, é uma zona montanhosa e faz fronteira com outra região igualmente conhecida pelo terrorismo, a Chechénia;
2- Socialmente, apresenta diversidade étnica e cultural, mas o Islão domina uma região com cerca de 2,5 milhões de habitantes.

O problema do Daguestão é que o Islão professado pela maioria da população é de origem sunita, mais concretamente o wahabita, que é a mesma escola da Arábia Saudita (interpretação literal e aplicação directa da lei islâmica) e uma das correntes que inspiram o salafismo de grupos como a Al-Qaeda ou mesmo o Da'esh (não existe mais nenhuma corrente verdadeiramente islâmica como a que remonta aos tempos do profeta e do início da religião).

Os conflitos entre os vizinhos da Chechénia e as autoridades russas acabam por servir de motivação para o combate à Rússia, vendo-se Moscovo como o invasor que ocupa e oprime a comunidade muçulmana de um território onde alguns pretendem criar um Estado islâmico.

Independentemente da credibilidade (ou falta dela) que tal pensamento possa ter, é interessante ver como a perspectiva de "o invasor que ocupa e oprime os muçulmanos" está praticamente sempre por trás da emergência dos fundamentalismos que se vêem forçados a vincar-se e a ser cada vez mais radicais como forma de se afastarem do "inimigo" e garantirem o apoio popular de uma comunidade que tende a identificar-se com aqueles que alegam ser os defensores do povo.

O apoio saudita com vista à wahabização do Daguestão é evidente - não é surpresa para ninguém este papel desestabilizador da Arábia Saudita - e a alegada autoria do Da'esh no atentado de ontem (ao qual ainda não vi referência nos média portugueses) merece preocupação, já que não seria anormal se os extremistas do Daguestão seguissem o modelo de grupos armados tradicionais que perfilham valores e ideais islâmicos: aproximação e promessa de alianças bem como a promoção da imagem do grupo jihadista central (a Al-Qaeda ou o Da'esh) em troca de financiamento, armamento e treino do grupo que opera no território.


A ameaça do Da'esh deve ser levada muito a sério pelas autoridades russas, já que é possível que os extremistas do Daguestão possam ser instrumentalizados como forma de atingir outras cidades e interesses russos, o que poderá ser conseguido, também, através de sinergias com outros grupos de crime organizado e outras entidades oriundas de antigas repúblicas da URSS. Aqui, convém recordar que ainda hoje Moscovo anunciou ter detido cerca de 20 elementos oriundos do Uzbequistão que, com documentos turcos falsificados, recrutavam combatentes para o Da'esh.

terça-feira, 22 de março de 2016

Sobre os acontecimentos de hoje em Bruxelas

Muito se diz que nos encontramos na chamada "quarta vaga do terrorismo", a que tem como motivação o extremismo religioso, mais concretamente de natureza islâmica.

Não me canso de repetir o que digo em cada conferência ou palestra sobre terrorismo em que participo: um dos maiores problemas que o terrorismo actual causa para as autoridades e para as sociedades dos mais diversos países ocidentais é o fenómeno dos "lobos solitários".

Outro igual, mas já noutra escala, é o da formação e organização de células terroristas que, muitas vezes, acabam por ser mais uma "alcateia solitária" do que uma verdadeira representante de uma organização terrorista de grande dimensão.

Dada a imprevisibilidade e acompanhamento destes agentes, o modus operandi e a (ausência de verdadeira) motivação, pergunto-me diversas vezes se não estaremos perante uma potencial quinta vaga de terrorismo ou, no mínimo, uma fase transitória que permitirá chegar a um novo tipo de terrorismo.

Não existem impossíveis, mas é extremamente difícil acompanhar e antecipar fenómenos desta natureza. E as soluções encontradas até ao momento têm penalizado mais o cidadão comum (supressão de direitos, liberdades e garantias) do que propriamente impedido a concretização de ataques, o que também deveria merecer reflexão quanto às medidas profilácticas que cada sociedade deve implementar.

segunda-feira, 21 de março de 2016

EUA e Cuba normalizam relações?

Que não restem dúvidas quanto à essência do poder político cubano: trata-se de uma ditadura pura que só abraçou o comunismo e a URSS porque os EUA não lhe deram a mão - por questões de conveniência e clientelismo, importa sublinhar.

Falar em direitos fundamentais ou direitos humanos pode revelar-se um verdadeiro teste à criatividade do adepto mais fervoroso do poder cubano.

E falar em Fidel Castro é falar num mercenário pragmático que se colou à ideologia de um patrocinador que o via como arma de arremesso e instrumento de pressão contra o concorrente norte-americano.

No entanto, nada disto apaga as sucessivas sanções promovidas pelos EUA contra o país e que não só deram mais força ao poder castrista, que se agarrou com unhas e dentes ao mito promovido pelo inimigo - todos os ditadores e governantes frágeis precisam de um inimigo para ganharem força junto do povo -, como contribuiu para o agravamento das condições de vida da população que povoa este autêntico tubo de ensaio comunista.

O que não deixa de me surpreender é a forma como os EUA ainda conseguem sair por cima no fim disto tudo depois de terem promovido golpes de Estado, homicídio do Chefe do Estado cubano e imposto medidas que só condicionaram a população cubana.

E como é possível que Barack Obama, que acaba por reconhecer a derrota do seu país, surja como herói? Podemos esquecer que Guantánamo continua a ser ocupada pelos EUA e os fins que lhe têm sido destinados? Podemos esquecer que, apesar das tréguas, os EUA não aprenderam nada e já introduzem no seu discurso oficial palavras que permitem antever ingerência nos assuntos internos de Cuba e já estão a preparar acções para mudar politicamente o país? Não aprenderam ainda que a verdadeira revolução tem de vir de dentro para fora e não de fora para dentro?

Obama tem sorte - mas soube criá-la: as pessoas derretem-se com qualquer coisa que faça. Mesmo quando assume que perdeu e insiste em políticas que violam a Carta da ONU (violação da soberania de Cuba) e os direitos humanos (como esquecer que Obama tem fomentado a política de execuções selectivas e ter sido o PR norte-americano que mais investiu na indústria de defesa?), Obama consegue enternecer um mundo ocidental mais disponível para simpatizar com (quase tudo) o que vem dos EUA do que propriamente para perceber a realidade por trás do glamour de uma das mais eficientes máquinas de propaganda do planeta!


A aparente normalização das relações com Cuba saúda-se, em abstracto, mas deve merecer a nossa desconfiança.

quarta-feira, 16 de março de 2016

O que se passa no Brasil?

Tenho andado a evitar falar sobre a situação política e social no Brasil por ter amigos nos dois lados da barricada e não querer provocar animosidades. Mas, não resisto.

Acho que temos de dividir o que se passa no Brasil em duas situações distintas: a questão social e a questão política. As duas cruzam-se a um determinado ponto, mas não devem ser confundidas.

Começando pela questão política, só alguém que passou os últimos 30 anos em Melmac consegue acreditar que "corrupção é coisa do PT". Também é, mas não é um exclusivo do PT, (in)felizmente. Há muitos anos que o regime político brasileiro não é nem ditadura, nem democracia: é uma cleptocracia. E isto está bem vincado em PT, PSDB, PSB, Partido Verde, etc e ao nível nacional, regional e local e vai da Polícia Militar ao simples professor de escola que favorece um aluno por ser filho de um amigo.

Não é novidade para ninguém o famoso "jeitinho brasileiro" que todos têm na forma de fazer o Estado e a sociedade funcionarem: a informalidade, a chico-espertice para querer estar um passo à frente ou obter uma vantagem do próximo.

Os partidos políticos querem chegar ao poder porque é a forma de quererem meter mais ao bolso e sugar tudo o que for possível enquanto Deus lhe der forças e o povo lhe der votos, seja de que partido for. Isto existe! Não é um exclusivo do PT, nem será do próximo partido que vier! Não há ciência nenhuma aqui, nem é preciso ter um Doutoramento em Física Quântica para reconhecer as evidências.

O que as manifestações recentes estão a querer fazer é obter uma vitória administrativa em algo que não se conseguiu nas urnas. Numa democracia, o povo manifesta-se, no final do mandato, se gostou do que viu - por maior que seja a pouca-vergonha - ou se está insatisfeito e quer mudar. Numa ditadura, o povo come e cala até que o ditador decida mudar alguma coisa. Na cleptocracia, valem todas as artimanhas e esquemas possíveis para se contornar o que impede alguém de aceder ao poder. Roubar é mau, mas só quando não sou eu a fazê-lo.

Por mais que seja a capacidade criativa, depôr um poder político eleito democraticamente através dos mais variados esquemas é feio e é cobarde. Mas não é mais bonito alguém saber que roubou, foi apanhado e fazer de tudo para não ir preso. O que o PT está a fazer para garantir a imunidade a Lula da Silva é perder a razão e a legitimidade para governar: está a proteger um dos seus em vez de proteger o interesse público (por maior que seja o golpe de que se é alvo), que devia ser deixar a justiça mostrar o que vale - seja ela limpa ou não.

Se Lula tiver de ser sacrificado, o PT deve deixá-lo cair, nem que seja para utilizar o seu martírio a favor da dignidade do partido: dar o exemplo e mostrar que o sujeito não está acima do partido e menos ainda do país. Coisa que esta fantochada de integrar Lula no Governo não está a fazer. O PT está a perder a pouca vergonha na cara que ainda poderia ter e corre o risco de sair pela porta pequena. É indecente, está a transformar a política numa novela das 6 e dá razão ao adversário.

Relativamente à tensão social evidente no Brasil e que parece aumentar um fosso entre ricos e pobres, remeto a minha opinião sobre o assunto para o que George Orwell escreveu em "1984". Acho que diz tudo:

"Desde que há documentos escritos, e, provavelmente, desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa.
Os objectivos destes três grupos são absolutamente inconciliáveis. O objectivo da classe Alta consiste em permanecer onde está; o objectivo da Média, em trocar de posição com a Alta. O objectivo da classe Baixa, quando algum objectivo tem - pois a característica persistente da classe Baixa resume-se a ser de tal modo oprimida pela dureza do trabalho, que só de vez em quando toma consciência daquilo que é exterior à sua vida quotidiana -, consiste em abolir todas as distinções criando uma sociedade onde todos os homens sejam iguais. E assim, ao longo da História, se repete vezes sem conta uma luta, nas suas grandes linhas, sempre a mesma.
Passam-se longos períodos em que a classe Alta se julga firme no poder, surgindo logo um momento em que os seus elementos perdem a confiança uns nos outros, ou a capacidade de governar com eficiência, ou ambas as coisas. São então destronados pela classe Média, que, no seu fingimento de estar a empreender a luta pela liberdade e pela justiça, consegue o apoio da Baixa. Mas mal atinge os seus objectivos, a classe Média volta a empurrar a Baixa para a antiga servidão, e converte-se ela própria em Alta. Ao fim de algum tempo, nova classe Média se formou, a partir de um dos outros grupos, ou de ambos, e tudo recomeça.

Das três categorias, só a Baixa nunca consegue, ainda que temporariamente, atingir os seus objectivos. Seria exagero dizer que ao longo da História não tenha havido certo progresso material. Mesmo hoje em dia, no actual período de declínio, o ser humano vive, em média, materialmente melhor do que vivia há alguns séculos. Mas nenhum acréscimo de riqueza, nenhum abrandamento dos costumes, nenhuma reforma ou revolução fizeram recuar um milímetro sequer a desigualdade humana. Do ponto de vista da classe Baixa, as mudanças histórias pouco mais representam do que a mudança de nome dos chefes."

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Realizam-se hoje eleições no Irão

Realizam-se hoje eleições no Irão para dois órgãos da estrutura política: Assembleia Consultiva Islâmica e Assembleia de Peritos.

O sistema político iraniano é bastante complexo, assente em dois sistemas fundidos entre si, um religioso e outro civil. Como é de calcular, o religioso absorve e controla o civil, deixando-lhe pouca margem de autonomia.

Para que melhor se compreendam os órgãos que vão hoje a votos, importa sublinhar alguns aspectos:
1- A Assembleia Consultiva Islâmica (majles) é, na prática, o Parlamento, sendo o órgão legislativo e fiscalizador da acção do Presidente da República e do Governo. Trata-se de um órgão não religioso.
2- A Assembleia de Peritos (Khobregan) é um órgão com importância estratégica, já que se trata do órgão fiscalizador da acção do Supremo Líder, o Chefe do Estado, tendo poderes para nomeá-lo e destituí-lo.
3- Todos os candidatos aos órgãos políticos iranianos (religiosos ou não) são pré-seleccionados pelo Conselho de Vigilância (Shora-ye Negahban-e Qanun-e Assassi), um órgão que se equipara a um órgão jurisdicional de natureza Constitucional, mas com poderes mais amplos (com vastas competências em questões eleitorais). No entanto, antes de serem pré-seleccionados, qualquer pessoa pode ser aspirante a candidato, tendo de submeter a sua candidatura à apreciação do seu perfil pelo Conselho de Vigilância.
4- Os membros do Conselho de Vigilância são eleitos, directa ou indirectamente, pelo Supremo Líder, acabando por ser nele que se concentra o poder.

Eleições interessantes, estas, onde os moderados e os reformistas poderão aumentar a sua presença nos órgãos políticos iranianos e contribuir para a flexibilização de posições de um regime político manifestamente conservador mas que vai sofrendo pressões da sociedade civil (quase exclusivamente a concentrada nos meios urbanos) para se modernizar e desenvolver.

No fundo, enquanto os reformistas propõem a "modernização do Islão", os conservadores continuam a apostar na "islamização da modernidade". É isto que separa as duas alas.

Tarja com Hassan Rouhani e Mohammad Khatami que surge na página de internet dos reformistas, onde é disponibilizada aos eleitores a consulta dos candidatos que vão a escrutínio


Além disto, importa realçar que adensam-se as dúvidas sobre o impacto que estas eleições podem ter para o futuro político do Irão, já que Ali Khamenei, o acual Supremo Líder, padece de uma doença em estado avançado e, dependendo da constituição do Conselho de Peritos que hoje vai a escrutínio, poderá acontecer uma substituição na liderança que, a acontecer, é possível que afecte a ideologia e a retórica seguidas até então.