O massacre de Orlando tem aumentado as dúvidas relativamente
aos contornos (i) do que aconteceu, (ii) como aconteceu, (iii) porque aconteceu
e (iv) por quem aconteceu.
Começando pelo primeiro ponto (o que aconteceu):
1- Uma pessoa sozinha conseguiu entrar num espaço de diversão nocturna munido
de armas e munições sem qualquer tipo de oposição?
2- Uma vez no espaço, conseguiu abater cerca de 50 pessoas sem que ninguém
esboçasse reacção ou tentativa de deter o indivíduo? Apenas se deixaram
massacrar ou fingiram estar mortos?
Segundo ponto (como aconteceu):
1- Contou com ajuda de alguém ou actuou por conta própria?
2- Não há imagens de câmaras de vigilância ou captadas por telemóvel? Será que
a única informação disponível é a troca de mensagens entre uma das vítimas e a
sua mãe?
Terceiro ponto (porque aconteceu):
1- Que motivações justificaram a acção do(s) autor(es) material? Extremismo
religioso? Recusa em aceitar a sua possível orientação sexual? Homofobia?
Renegação pela sociedade? Depressão? Vários destes? Outra razão?
2- Estaremos perante terrorismo puro, um crime de ódio ou um crime de homicídio
em massa justificado por outro factor?
Quarto ponto (por quem aconteceu):
1- Terá o aparente autor material actuado isoladamente ou contou com a ajuda de
terceiros?
2- Terá sido instigado por alguém?
Porque são determinantes as respostas a estas perguntas?
1- Para perceber se estamos perante o caso de um "lobo solitário",
enquanto pessoa que se auto-radicaliza e, sem precisar de estar em contacto ou
receber treino de uma organização terrorista, comete um atentado.
2- Não deixa de ser curioso que, os atentados de Paris (de Janeiro e Novembro
de 2015), os de Bruxelas e este de Orlando têm todos um ponto em comum: foram
cometidos por indivíduos mais que referenciados pelas autoridades, autoridades
estas que, por diferentes razões, acabaram por entender sempre que os visados
não constituíam uma ameaça, mesmo apesar dos comportamentos claros grosseiros
evidenciados pelos autores dos ataques.
3- Assim, estamos perante situações de mera negligência, de real
impossibilidade em fazer melhor ou de um laxismo consciente mais tarde
aproveitado em favor de determinadas bandeiras sociais e da supressão de
direitos e do reforço dos poderes das forças de segurança face ao cidadão comum
após o dano estar consumado? É que uma coisa são os imprevisíveis "lobos
solitários" e outra completamente diferente são os indivíduos
referenciados e até vigiados que, após essa identificação e acompanhamento, se
apetrecham e agravam descaradamente os seus comportamentos sem qualquer tipo de
oposição.
4- Não querendo afirmar rigorosamente nada ou apontar para uma qualquer
resposta – mas querendo, apenas, lançar tópicos para reflexão –, não posso
deixar de recordar a já velhinha e esquecida “Operation Northwoods”,
orquestrada por chefias militares norte-americanas, na década de 1960, e que
visava a morte de pessoas inocentes e a execução de atentados terroristas nos
próprios EUA para desencadear e facilitar o apoio popular a uma guerra a travar
com Cuba.
5- E, aqui, não posso deixar de pensar nos grupos sociais visados com os
atentados dos últimos 18 meses: jornalistas (como símbolo da liberdade de
expressão e dos valores democráticos), judeus e homossexuais, na qualidade de
vítimas, juntamente com situações que atingem qualquer cidadão comum: eventos
desportivos, locais de diversão e transportes.
6- Aliás, a referência aos transportes não deixa de ser curiosa. A impopular
Directiva PNR (Passenger Name Record) conseguiu finalmente passar no
Parlamento Europeu, após os ataques de Paris e Bruxelas e depois de anos a ser
rejeitada por violação de direitos e liberdades pessoais.
7- Igualmente curioso é o facto de os atentados de Paris (Janeiro de 2015) que
incidiram sobre judeus terem resultado na atribuição de direitos especiais, em
França, aos que integram este grupo religioso e à própria agenda israelita,
após um período de maior tensão em que se intensificavam as críticas ao Governo
de Telavive – e não posso deixar de recordar como após estes acontecimentos Benjamin
Netanyahu venceu as eleições de forma categórica depois de uma campanha
dedicada ao medo.
8- Também não posso esquecer que desde os atentados de Novembro, em Paris, a
França entrou num estado de emergência que comprometeu a realização de acções
de protesto antes da Cimeira do Clima de Paris e acabou por estender esse
estado de emergência para o Euro’2016, impedindo a realização de certas
manifestações e acções de protesto. Também interessante é constatar que a
França encontrou nos atentados de Novembro uma justificação objectiva para
suspender os acordos de Schengen… quando antes dos mesmos já tinha avançado com
controlos fronteiriços derivado à “ameaça terrorista e risco para a ordem
pública”.
9- Relativamente a Orlando, além da discussão (ainda que leve) em torno das
armas, não nos podemos esquecer que dentro de cinco meses teremos eleições nos
EUA e o fim de uma era (Obama) para início de outra (Hillary Clinton ou Donald
Trump). Às vezes, acontecimentos como os de Orlando só inspiram a um início de
mandato em cheio e pleno de legitimidade para que um Chefe de Estado faça “o
que tem de ser feito” para reprimir uma ameaça. E não posso deixar de referir
que à medida que vão acontecendo estes eventos mais vou ouvindo, um pouco por
toda a parte, pelo cidadão comum, frases como “é matá-los a todos”, “tem de se
bombardear aquilo tudo”, sem apelo nem agravo. A saturação das pessoas face ao
terrorismo é evidente e cada vez estão mais dispostas a tudo, mesmo a
sacrificar os seus direitos pessoais, independentemente de existirem razões
para isso.
Como disse, longe de mim afirmar que estamos perante uma
acção concertada ou combinada. Tudo isto pode, de facto, ser mera coincidência
e eu não quero forçar uma interpretação dos factos. Mas a verdade é que começam
a ser coincidências a mais e os factos estão todos interligados. E convém não
esquecer que a ficção às vezes é mesmo superada pela realidade e temos
antecedentes (como a “Operação Northwoods” que referi) que atestam que, quando
há vontade, os cenários mais improváveis e a teoria da conspiração acontecem,
exactamente por ninguém acreditar neles.
Neste momento só gostaria de obter respostas e, de momento,
basta-me uma à seguinte pergunta: como é possível indivíduos referenciados
conseguirem aceder a armamento (na Europa e nos EUA), relacionar-se com pessoas
com potencial de perigosidade e organizarem e cometer ataques contra terceiros
sem qualquer tipo de oposição?
“O essencial é invisível aos olhos”, Antoine de
Saint-Exupéry