Depois do Iowa, realizam-se hoje as eleições primárias para
a Presidência dos EUA em New Hampshire.
O primeiro escrutínio foi relativamente surpreendente,
mantendo-se fiel ao historial do Iowa em primárias, senão vejamos:
1- Quando era expectável uma vitória de Hillary Clinton,
Bernie Sanders garantiu um empate de facto que só acabou por ser desempatado
por detalhes. Não deixa de ser assinalável que Clinton tenha vencido seis
plenários de votação por lançamento de moeda ao ar - o que, sublinhe-se, é um meio
de desempate bastante curioso num sistema democrático. Vitória pírrica de
Clinton, que volta a sentir a posição em risco: em 2008, era clara favorita e
acabou atropelada por Barack Obama; há menos de um ano atrás, Sanders era visto
como um candidato não sério que agora ameaça ganhar a corrida pelo lado
democrata;
2- Havia a expectativa de que Donald Trump vencesse com
alguma margem sobre os adversários, Ted Cruz posicionou-se em situação de
vantagem e Marco Rubio disparou para igualar Trump no segundo posto. As razões
destes resultados são simples:
a) perante a ameaça de vitória de Trump, o eleitorado
republicano típico concentrou os seus votos nos dois candidatos rivais mais bem
posicionados para derrotar Trump;
b) houve uma afluência anormal às urnas por parte de
eleitores republicanos que não pretendiam participar nas eleições, mas viram
nessa participação a única forma de derrotar Trump;
c) cheguei a ver reportagens que mostravam simpatizantes
democratas registarem-se como republicanos para ajudarem a derrotar Trump e a
votar num candidato que fosse mais favorável aos interesses dos candidatos
democratas.
Em New Hampshire, o cenário é diferente do Iowa:
1- Trump lidera as intenções de voto com vantagem
confortável sobre os dois directos adversários (as sondagens dão vantagens
entre os 10% e os 20%);
2- Sanders será o provável vencedor com uma diferença
estimada entre os 12% e os 20%.
As primárias dos EUA merecem um acompanhamento sério e
crítico, não apenas do ponto de vista jornalístico e mediático, como também do
ponto de vista da ciência política, sendo interessante constatar que:
1- É curioso assinalar que é praticamente unânime a
tendência de os EUA tentarem demarcar-se da dinâmica, da ideologia partidária e
da política europeias para afirmar que não é possível comparar os actuais
candidatos com actores políticos europeus. O único que tem correspondência
directa é Sanders e fazem-no para descredibilizar o candidato, afirmando que as
suas propostas funcionam na Suécia, mas não nos EUA.
2- Em contraposição, não deixa de ser curioso ver que os
europeus esforçam-se para identificar (muitas vezes de forma forçada) elementos
de afinidade que os equiparem a políticos norte-americanos. Em Portugal, é sem
surpresa que vemos inúmeras personalidades de esquerda que, apesar de
desconhecerem os programas e as propostas dos candidatos, automaticamente
colam-se aos democratas por aparentarem ser mais liberais e ideologicamente
flexíveis - falsa ideia, diga-se - e partidos como PSD e CDS que insistem em
equiparar-se com a ala republicana, apenas com base nos valores nacionalistas e
conservadores - mesmo que muitas das suas medidas comprometam os interesses
portugueses.
Também do ponto de vista político e social, é interessante
assinalar algumas curiosidades nestas primárias:
2- Hillary Clinton ainda recolhe dividendos da governação do
marido no lado democrata, sendo a favorita das gerações com mais de 40 anos e,
simultaneamente, relativamente conservadoras, apesar de democratas. Se Sanders
tende a conquistar o voto nos meios urbanos e com uma economia mais moderna,
Clinton é mais popular nos meios rurais, conservadores e outros mais afastados
das capitais económicas. Tenta afirmar-se como democrata, mas não consegue
esconder que é republicana de facto - nos sentidos conservador,
intervencionista e de forte ligação ao mundo empresarial e financeiro. Aposta
numa campanha segura e pouco dada a surpresas, até porque sabe que as suas
características e ligações, bem como o seu passado, a tornam facilmente
susceptível aos ataques. Mas é também o seu passado no apoio a Barack Obama (e
no cargo de Secretária de Estado do actual Presidente) que lhe conferem apoio
junto das comunidades afro-americanas.
3- Donald Trump tem a virtude de ser o candidato da
"terapia de choque" para republicanos que temem perder a Casa Branca
por mais oito anos. Tem ainda outras particularidades:
a) o facto de ser politicamente incorrecto concorre para a
aproximação do eleitorado que o vê como candidato genuíno: em princípio,
sabemos o que podemos esperar de Trump Presidente, enquanto muitos desconfiam
do que pode ser ter um Presidente como Cruz;
b) está longe de ser o candidato que se assume como
certinho, que vai à igreja ao domingo, casado com a mulher que conheceu na
juventude e ao lado de quem estará até morrer, com filhos que provavelmente
trabalharão na alta finança: em resumo, Trump é republicano mas desligado das
tendências e comportamentos do passado, estando mais integrado na vida moderna
que os restantes;
c) tem atraído uma multidão de novos votantes republicanos
que não se revêem nos candidatos tradicionais, olhando para Trump como aquele
que pretende recuperar o orgulho nacionalista e os valores patrióticos.
d) se os novos votantes são a sua força, o seu principal
adversário é a possível afluência às urnas e concentração de voto intencionadas
com o propósito de o derrotarem (e não porque um dos seus adversários seja
popular). Recordo que Trump tem larga vantagem, por exemplo, entre os que votam
pela primeira vez (independentemente da idade), enquanto Cruz é o favorito em
quem participou em actos eleitorais anteriores. E, facto que atesta o que aqui
digo, é a afluência às urnas no Iowa ter batido recordes e o segundo lugar de
Trump ter conseguido cerca de mais 15.000 votos do que os conquistados por Rick
Santorum no último caucus no Iowa.
e) é o candidato que tende a não obedecer às regras de
etiqueta e protocolo, nem faz cerimónia, como os tais candidatos "muito
certinhos", verdadeiros meninos-de-coro, que receiam ultrapassar certas
barreiras com receio de afectarem o seu estatuto social. O eleitorado aprecia o
candidato que desafia e ataca sem fazer cerimónia por ver nisto uma
demonstração de força, liderança e superioridade.
4- Ted Cruz é o oposto de Trump: é o candidato de "boas
famílias", religioso, afecto ao Tea Party e aos valores mais conservadores
dos EUA. É visto por muitos como candidato perigoso dado o elevado grau de
fundamentalismo das suas posições, pela ideologia e pela inflexibilidade.
5- Marco Rubio é o candidato republicano tradicional que não
é alvo de campanhas odiosas mas também não entusiasma. Tende a não alinhar em
fundamentalismos, mas a sua aparente neutralidade poderá fazer a ponte entre o
Tea Party e a ala republicana mais moderada e derrotar Hillary Clinton (por
enquanto segue com mais 5% das intenções de voto face à democrata). Defende uma
agenda externa de intervenção em função dos interesses dos EUA,
independentemente de quem sejam os visados ou do impacto que possa ter junto de
terceiros Estados.
Neste momento, a manifestação expressa de apoio de Barack
Obama poderia ajudar a desequilibrar as contas no lado democrata. Apesar de
Obama parecer inclinado a apoiar Hillary Clinton - tem uma dívida para com ela
-, ainda evidencia algumas reservas parecendo querer adiar o seu apoio para o
candidato que emergir das primárias de modo a também não prejudicar futuramente
Bernie Sanders caso este vença a corrida.
Actualmente, as sondagens indicam que Sanders é o único
candidato capaz de derrotar qualquer candidato republicano - Clinton apenas
derrotaria Trump e por margem escassa.
No entanto, o futuro não se afigura fácil para Sanders:
apesar da provável vitória em New Hampshire e da vantagem noutros estados do
Nordeste, aproximam-se escrutínios em estados onde Clinton conta com o apoio
das comunidades afro-americana, como a Carolina do Sul (onde segue com uma
margem situada entre os 20% e os 30%), e hispânica, como a Florida, e outros
mais conservadores e menos disponíveis a enfrentar mudanças políticas e sociais
profundas, como o Ohio e Indiana.
No entanto, o facto de o apoio a Clinton continuar a
evidenciar uma tendência de arrefecimento não pode ser ignorado. Num cenário de
vitória pouco convincente de Clinton ou pouco provável derrota para Sanders (as
sondagens dão vantagens confortáveis a Clinton), as próximas primárias no
Nevada e na Carolina do Sul podem abrir caminho a uma
SuperTerça-Feira (com actos eleitorais em doze estados diferentes), no
próximo dia 1 de Março, que poderá assinalar o início da "revolução de
Sanders" ou o embalo definitivo de Clinton - sem se descurar, evidentemente, o papel dos "superdelegados".
No lado republicano, tudo dependerá da afluência às urnas e
da concentração de votos nos dois principais adversários de Trump. Se não
vencer hoje, em New Hampshire, Trump dificilmente conseguirá contornar a
tendência de queda que galvanizará o eleitor republicano tradicional a apoiar a
campanha contra si.