sábado, 30 de janeiro de 2016

Nove considerações e dois extras sobre as conversações de paz da Síria

Militar pró-Assad. Fonte: Reuters.

1- A intervenção da Rússia contra o Da'esh tem permitido às Forças Armadas sírias reconquistarem território tanto ao Da'esh como a grupos rebeldes que combatem Bashar al-Assad;
2- As conversações em curso actualmente estão a acontecer porque o Governo sírio tem vindo a ganhar ascendente e muitas posições rebeldes estão cada vez mais cercadas ou em posição de perder o território onde se encontram;
3- Ou seja, estão a aceitar negociar porque começam a restar-lhes poucas hipóteses de poderem participar no processo e no futuro político da Síria;
4- Prova disto mesmo é o facto de até o "Alto Comissariado para as Negociações", constituído na Arábia Saudita com o apoio dos EUA e composto por vários grupos de oposição a Assad - incluindo grupos terroristas financiados pela Turquia e pelo Qatar como Ahrar al-Sham e Jaysh al-Islam -, já ter aceitado começar a negociar com Assad;
5- Não são esperadas grandes novidades nas negociações, por agora, dado que alguns dos grupos presentes combatem-se entre si ou rivalizam por maior influência e ascendência num futuro da Síria que, de momento, só é assegurado por Assad;
6- Além da participação de grupos terroristas e outros que cometeram crimes de guerra e contra a humanidade contra civis, não se pode esperar muito quando os curdos, decisivos no combate ao Da'esh, foram afastados por dois motivos: a ala curda síria é apoiada pela Rússia; a Turquia opôs-se à presença dos curdos com receio de lhes dar protagonismo e ajudar a acalentar a agenda secessionista;
7- Sem curdos nas negociações é muito pouco provável chegar a algum lado;
8- Dada a desmoralização dos grupos armados que combatem Bashar al-Assad, os EUA tomaram dois passos decisivos que ou os órgãos de comunicação social portugueses mencionaram em rodapé ou não mencionaram de todo e que são importantíssimos até para a Europa e para Portugal:
a) Barack Obama quer destacar os aviões AWACS para auxiliar as acções contra o Da'esh - o que é, na verdade, uma forma de refrear a intervenção russa e, eventualmente, ajudar os rebeldes a reequilibrarem o combate a Assad (o Da'esh que se ****, é um mal com o qual se lida depois);
b) Obama anunciou o comprometimento com o combate ao Da'esh na Líbia. Aqui, importa esclarecer que, na Líbia, o Da'esh são meia dúzia de saloios que só têm o protagonismo que têm porque o país está desfeito e dividido em dois. Ainda nos últimos dias as duas facções rejeitaram o cumprimento de uma resolução do Conselho de Segurança para forçar a formação de um Governo de coligação entre as duas alas. O que os EUA estão a tentar fazer é aproveitar-se desta situação para evitarem o que está a acontecer na Síria com o apoio russo a Assad, antecipando-se à entrada russa na Líbia e acelerando o apoio a um actor que lhes é favorável. Para quem tanto se interessa por refugiados devia pôr os olhos nesta situação porque os combates que aí vêm só prometem levar mais gente a atravessar o Mediterrâneo.
9- Enquanto se continuar a apoiar alguém neste conflito em violação pela soberania da Síria e da sua população ou com base em questões geopolíticas, conflitos religiosos, o que for, bem podemos esperar que as negociações cheguem a algum lado.

sábado, 23 de janeiro de 2016

A axiomática de Kolmogorov aplicada a Litvinenko

Fui dos alunos que teve Matemática até ao 12.º ano. Não era muito dado a radicais, limites, polinómios ou trigonometria. Excepção a esta regra era a facilidade com que gostava e resolvia problemas de probabilidades. Ainda assim, nunca consegui alcançar qualquer ligação entre a Matemática e o Direito além das regras de três simples e das operações de somar, subtrair, dividir e multiplicar úteis para cadeiras como Fiscal e Finanças ou Sucessões.

Recentemente, tudo passou a fazer sentido: enquanto que o sistema penal de qualquer Estado de Direito democrático assenta no princípio da presunção de inocência e na condenação em caso de certeza, o britânico assenta a culpa na probabilidade. Descobrimo-lo ontem quando foi anunciado o resultado do inquérito à morte de Alexander Litvinenko e no qual consta que Vladimir Putin "provavelmente aprovou a execução" do antigo oficial do FSB por quebra do código de lealdade dos serviços de informações russos.


Analisando-se o relatório podemos constatar que a constatação do "provável" decorre da inquirição a que Litvinenko foi sujeito pela Scotland Yard e na qual disse "não tenho qualquer tipo de dúvida de que isto foi feito pelos serviços de informações russos" e acrescentou que "tendo conhecimento do sistema sei que uma ordem [para executar uma pessoa] só podia ter sido dada por uma pessoa". Quando questionado sobre quem essa pessoa seria, Litvinenko respondeu "essa pessoa é o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin" (p. 41).

A partir daqui está criada uma convicção no investigador que conduz o inquérito e assim chegamos às probabilidades. É que existe uma diferença abissal entre investigar com base na premissa "quem matou Litvinenko?" e "porque motivo Vladimir Putin matou Litvinenko?". Enquanto no primeiro caso a investigação podia ser feita com um grau de amplitude manifestamente maior que incluísse diversos cenários e, eventualmente, mais se aproximasse da realidade e da verdade material, no segundo, a investigação já está condicionada a factos que contribuam para justificar uma questão de base mal colocada.

Basta ler o relatório para constatar que toda a investigação decorre da suspeição da vítima que, por acaso, até combatia e financiava o combate contra aquele que acusou. E se a pergunta de base tivesse sido outra e a investigação mais séria talvez a conclusão fosse outra. Afinal, Litvinenko não só colaborou com os serviços de informações ingleses como também colaborou com os espanhóis (p. 72) - desconhecendo-se se não terá também colaborado com outros serviços - e houve mesmo quem responsabilizasse os serviços britânicos pelo sucedido (p. 211).

Pode até dar-se o caso de se tratar de um ajuste de contas com alguma organização criminosa ou um acto de um serviço com o qual Litvinenko não colaborou mas que vê nesta manobra uma forma de atingir a Rússia ou tendo qualquer outra motivação. A investigação ignorou qualquer uma destas hipóteses. O facto de o inquérito sustentar a tese de que o plutónio 210 encontrado nos exames feitos a Litvinenko só pode ser alcançado por um Estado com armas nucleares - logo, apenas a Rússia e não outros países como Israel, o Reino Unido ou os EUA - não é uma tese que merece grande acolhimento, sobretudo se nos recordarmos, por exemplo, que Bashar al-Assad também era o único com acesso a armas químicas na Síria, como tal, apenas ele poderia ter usado estas armas contra civis e, afinal, constata-se que quem as usou foram rebeldes que lograram aceder às mesmas. No caso do plutónio 210 de Litvinenko não pode ter acontecido o mesmo?

Ora, considerando a pergunta de referência para a qual se assumiu como credível qualquer conteúdo que atestasse a verosimilhança da acusação já implícita é natural que se assista à verificação da axiomática de Kolmogorov, nome grande da matemática das probabilidades: a probabilidade de alfa é sempre um número real não negativo (superior a 0) e a probabilidade do acontecimento certo é 1 e se alfa e beta são acontecimentos incompatíveis. Em teoria, as probabilidades repartem-se em partes iguais quando os motivos partem em condições iguais.

Ora, aplicando estes axiomas e respectivos teoremas aos jogos de fortuna e azar, podemos constatar que, no lançamento de um dado, apesar de termos seis hipóteses de resultados com o mesmo grau de probabilidade de, caso o dado seja imperfeito, as seis probabilidades deixam de ser iguais variando em função da forma como as arestas do dado estão ou não limadas.

Não me vão apanhar em defesas de inocência ou em qualquer tipo de acusações ou insinuações. Mas podem ter a certeza que aponto o dedo ao Reino Unido que lançou um dado com arestas limadas e que, assim, pode lançá-lo mais de cem vezes que, entre, pelo menos, seis hipóteses diferentes, havia um número que iria sempre calhar por mais diversificadas que fossem as formas com que o dado fosse lançado. E de nada adianta alegar-se que são "probabilidades", já que o rumor e a insinuação estão lançados e a probabilidade vai sempre ser vista como certeza.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A legalidade do cerco a Madaya: crime de guerra imputável a Bashar al-Assad?

Subitamente, alguém voltou a lembrar-se da localidade de Madaya, na Síria, junto à fronteira com o Líbano. O que se pode dizer de uma localidade que se encontra cercada pelas forças fiéis a Bashar al-Assad desde Julho passado e flagelada pela guerra praticamente desde que eclodiu o conflito sírio e, repentinamente, volta a ser alvo de inúmeras notícias, as quais incluíram a difusão de imagens com o objectivo de sensibilizar as pessoas através da diabolização de um Presidente sírio que deve abandonar o poder o quanto antes?

Depois da campanha que pretendeu denegrir e acusar Assad de utilizar armas químicas contra o inimigo e contra civis e, desde cedo - e mais recentemente também -, se ter concluído que, afinal, quem usou armas químicas foram os rebeldes e após o pico da crise dos refugiados cuja responsabilidade foi imputada a Bashar al-Assad, apesar de dever ser atribuída ao Presidente da Turquia, agora, face à falta de mais argumentos, iniciou-se nova campanha com a fome em Madaya.

É fácil perceber a intenção de quem iniciou esta campanha: sensibilizar pelo choque criando no cidadão comum o sentimento de revolta e da necessidade de intervenção na Síria, custe o que custar, para pôr fim a uma situação chocante. Não é, aliás, por acaso que se enfatizam expressões como "regime sírio" ou "forças leais a Assad", juntando-se o libanês Hezbollah pelo meio para dar uma mãozinha a Israel, que obtém sempre dividendos com estas campanhas e com esta até se transmite a ideia de que Assad e os "terroristas" do Hezbollah estão a deixar pessoas a morrerem à fome, cometendo, assim, crimes de guerra.

Só é pena que entre as imagens difundidas se encontrem muitas que não são actuais nem são de Madaya e também é pena que ninguém tenha ouvido a Cruz Vermelha assumir oficialmente que não podem ser confirmados os relatos difundidos na comunicação social de que as pessoas estão a morrer de fome. Acrescente-se ainda que a ajuda tem chegado a Madaya desde o início do conflito, apesar de serem atacados por rebeldes que controlam localidades, como se pode ver por notícias já de 2012 e, mais recentemente, de Outubro, mais de Outubro e Dezembro de 2015.

Apesar de a Cruz Vermelha, que é quem se desloca ao terreno para entregar ajuda através do Crescente Vermelho, não poder confirmar que os habitantes de Madaya estão a morrer à fome, nos últimos dias a ONU alegou terem sido registadas 32 mortes. Ora, se a ajuda chega ao terreno, como podemos ter pessoas a morrer à fome? Puro capricho de Bashar al-Assad que sente prazer em deixar civis a morrerem à fome e não se importa de cometer crimes de guerra? A resposta a estas perguntas estará também relacionada com a questão: porque motivo as Forças Armadas sírias cercam Madaya?

Comecemos pelo fim. Os militares sírios cercam Madaya porque esta localidade encontra-se sob controlo dos rebeldes que insistem em combater o Governo em vez de ajudarem a combater o Da'esh (Estado Islâmico do Iraque e do Levante). Se não fosse controlada por grupos armados, Madaya não estaria cercada e a população poderia fazer a sua vida normalmente.


Aqui começa outra discussão. O cerco a um território controlado por um grupo rebelde, enquanto táctica de guerra, não é um crime de guerra, podendo ser considerado um objectivo militar legítimo se tiver em vista a conquista pelas Forças Armadas. Até há pouco mais de 100 anos, era reconhecido como lícito o cerco que visasse privar a população desse território de bens e serviços essenciais de modo a forçar a rendição dos grupos que controlavam o território. Esta prática é recorrente e ainda em pleno século XXI foi adoptada pelos EUA no Iraque.

No entanto, com a entrada em vigor do Regulamento das Convenções de Haia de 1907 e das Convenções de Genebra de 1949 e respectivos Protocolos adicionais, que regulam o direito da guerra (jus in bello), foram impostas restrições no sentido de proibirem que a população civil, que não participa nas hostilidades, seja poupada, incluindo quanto aos cercos ou, regra geral, contra infracções "que não tenha cometido pessoalmente" incluindo "todas as medidas de intimidação ou de terrorismo", "pilhagem" e "medidas de represália contra as pessoas protegidas e seus bens" (artigo 33.º da IV Convenção de Genebra de 1949 e ainda n.º 2 do artigo 51.º e n.º 1 do artigo 54.º do Protocolo I Adicional).

Neste sentido, os cercos continuam a ser um método de guerra lícito se o território em causa estiver controlado por grupos armados e privar a população de bens essenciais à sua sobrevivência. Assim, um cerco com o objectivo de deixar morrer à fome todos os que se encontram no território cercado é uma prática proibida que constitui crime de guerra - veja-se, por exemplo, o que foi feito durante a Guerra da Bósnia. Todavia, se os civis devem ter acesso a comida, pode ser permitido que as tropas inimigas sejam deixadas à fome. Devem, por isso, ser garantidas todas as condições para separar os alvos militares da restante população civil.

Em suma, o cerco de um território como objectivo de forçar a rendição do inimigo, é lícito e legítimo se conduzido pelas Forças Armadas do país. O cerco com o objectivo de deixar morrer à fome o inimigo e os civis, constitui um crime de guerra.

Ora, a partir do momento em que, conforme demonstrado, a ajuda é transferida para Madaya, questiona-se porque motivo a população continua a sofrer. Além da insuficiência da resposta face às necessidades da população, importa sublinhar que se verifica em Madaya o mesmo que sucede noutras zonas de conflito: os grupos rebeldes que controlam o território pretendem garantir que são eles que acedem prioritariamente a bens alimentares e cuidados médicos, deixando o acesso à população condicionado ao pagamento de taxas que os permitirá garantir uma fonte de financiamento.

Daqui retiram-se duas conclusões:
- Se os rebeldes que ocupam Madaya e diversas outras localidades sob cerco combatessem o Da'esh e não o Governo, dificilmente estas localidades estariam cercadas;
- Se os bens alimentares fossem entregues à população e não aos rebeldes para extorsão e tráfico, dificilmente a população morreria à fome ou estaria em condições de subnutrição, pelo que quem comete crimes de guerra, na verdade, são os rebeldes e não o poder político.

Para quem procura crimes de guerra semelhantes cometidos na Síria, veja o cerco dos grupos rebeldes que combatem Assad em Foua e Kefraya. Finalmente, muito estranho - ou não - o silêncio e o consentimento dos mesmos que se apressam a condenar a Síria quando Israel insiste em cometer crimes de guerra contra a população palestiniana.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Crimes sexuais na Alemanha: são mesmo cometidos por refugiados?

Continuam a ser difundidas notícias nos orgãos de comunicação social, tanto portugueses como estrangeiros, que qualificam como "refugiados" todos os estrangeiros oriundos do Médio Oriente e de alguns países africanos.

Um desses exemplos é o dos casos que recentemente tiveram lugar na Alemanha (abusos sexuais) constatando-se que automaticamente se chama "refugiados" a cidadãos que, alegadamente, têm nacionalidade síria.

Nada mais falso!

A bem da verdade e de não se promover falsas campanhas sensibilizadoras de que as autoridades e as sociedades europeias são xenófobas e recusam ajudar quem precisa, importa esclarecer que:
1- Um estrangeiro que entre num território e manifeste vontade em obter protecção internacional desse país alegando ser perseguido não é um refugiado, é um "requerente de asilo";
2- Após ser formalizado o seu pedido de protecção, este é analisado pelas autoridades competentes e é entregue um comprovativo do pedido ao estrangeiro.
3- Ainda que seja admitido o pedido inicial, no final, pode não ser concedida protecção. Esta decisão demora, na melhor das hipóteses, 7 a 8 meses.
4- Durante este período, o estrangeiro não fica detido, goza de liberdade, mas não é refugiado, como praticamente toda a gente lhes chama: é um estrangeiro requerente de asilo.
5- Só se o pedido de protecção for deferido é que o estrangeiro passa a ser refugiado. Se se tratar de um migrante económico (alguém que quer permanecer num país estrangeiro para aceder a melhores condições de vida), o pedido de protecção é (justamente) recusado;
6- E mesmo esse estatuto de refugiado não é eterno, é suposto ser temporário, para que quando as causas de perseguição cessem (como por exemplo uma guerra), o refugiado possa voltar ao seu território de origem;
7- Segundo consta, a maioria dos indivíduos envolvidos nos incidentes da Alemanha são meros "estrangeiros requerentes de asilo" com o processo em fase de apreciação, não são refugiados.

O asilo não serve para "importar" mão-de-obra barata, nem para resolver os problemas de natalidade de nenhuma sociedade. Menos ainda serve para concretizar ideais de sociedades sem fronteiras.

O instituto do asilo serve para conceder protecção temporária a quem dela efectivamente necessite.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

As lágrimas de Barack Obama

Os EUA tiveram um Presidente que foi actor antes de enveredar pela política e, mais tarde, chegar à Casa Branca: Ronald Reagan (1981-1989).

Actualmente, têm um Presidente que desenvolveu a arte da representação já na Casa Branca e tem um futuro auspicioso no cinema: Barack Obama.

As suas lágrimas "para espectador ver" revelam uma emoção em torno dos massacres sucessivos nos EUA com recurso a armas que contrasta com a frieza com que não apenas consente como autoriza e justifica a condução de execuções selectivas (targeted killings) através de aeronaves não tripuladas (drones) contra civis - não apenas, mas sobretudo, no Médio Oriente.

Não deixa de surpreender que nem uma lágrima tenha sido vertida por qualquer uma das cerca de 7.200 vítimas destes ataques - a esmagadora maioria deles apenas "suspeitos" e uma parte significativa de civis e crianças.

E também não surpreende que apenas tenha endereçado um gelado pedido de desculpas às vítimas dos ataques quando em Maio de 2015 atingiu dois alvos civis... pelo facto de um ser cidadão norte-americano e o outro italiano.

Fonte: Sputnik

E não surpreende pelo facto de os EUA serem um país de contrastes e fortemente dominado pela segregação racial e social baseada na cidadania de origem ou no simples tom de pele.

De outra forma, como se explica que o ataque de dois muçulmanos em São Bernardino, em Dezembro passado, seja qualificado como "acto de terrorismo", mas a mesma qualificação já não mereça a recente ocupação de um edifício na reserva federal, no Oregon, por fazendeiros armados que ameaçam recorrer à força se as suas reivindicações não forem cumpridas?

Se os fazendeiros tiverem um tom de pele mais próximo dos oriundos do Médio Oriente ou frequentarem uma mesquita já passam a ser terroristas?

Em segundo lugar, porque motivo só encontro estas notícias nos órgãos de comunicação social estrangeiros e em língua portuguesa apenas nos média brasileiros?

Barack Obama é um Presidente sui generis: só tem visibilidade e é reconhecido por cantar, contar piadas que só fazem rir um público fácil que faz questão de ser visto a rir das piadas do sr. Presidente, por chorar a ver (e ouvir) Aretha Franklin, jogar basquetebol com amigos ou terceiros, dançar com a mulher, passear um cão de raça portuguesa ou quando a mulher decide lançar um álbum de hip-hop.

Obama é um animador - ou entertainer como se diz em português corrente -, um ilusionista que enganou toda a gente e venceu o Nobel da Paz apenas por respirar.

Nero toca a lira enquanto Roma arde. E os tolos aplaudem e gozam o pagode porque é muito giro o mundo do espectáculo e Hollywood está sempre na moda.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Centenário da celebração do acordo Sykes-Picot

Celebra-se hoje o centenário do mítico acordo Sykes-Picot, um dos grandes responsáveis por tudo o que acontece no Médio Oriente e, consequentemente, se reflecte também na Ásia, em África e na Europa.

Em resumo, o acordo foi celebrado por um diplomata inglês e outro francês, onde constava a forma como seriam divididos os territórios que pertenciam ao Império Otomano quando terminasse a I Guerra Mundial.

É notória a intervenção europeia no facto de alguns territórios estarem desenhados a régua e esquadro, seguindo-se o exemplo da Conferência de Berlim, no século XIX, onde se dividiu o continente pelas potências europeias seguindo o mesmo método e tendo como princípio os interesses dos Estados na região/continente.

Assim, à França foram atribuídos os territórios da Grande Síria (que inclui a Síria que conhecemos hoje e o Líbano que nunca na história existiu com este título) até Mosul, no Iraque. Já a Grã-Bretanha ficou com Bagdade, com a Palestina, a Jordânia e a Península Arábica. O acordo previa ainda a atribuição da Arménia e de parte do Curdistão à Rússia. Jerusalém seria administrado por uma entidade internacional.

Estes territórios não pertenciam juridicamente às respectivas potências, mas de facto era o que se verificava, já que os administravam de forma directa ou indirecta.


Este acordo está na raiz de todos os problemas do Médio Oriente actual porque, tal como sucedeu em África, junta diversas sensibilidades étnicas e religiosas nos mesmos organismos políticos a que se deram o nome de Estados, que foram criados em função dos interesses das potências europeias, e foram incumpridas inúmeras promessas e acordos com entidades e povos que ainda hoje reivindicam a sua concretização:
  • A Síria, que assiste ao surgimento da República do Líbano, o qual já tinha uma população dividida entre cristãos (mais próximos dos franceses e opositores de ambições independentistas islamistas), sunitas, xiitas e drusos;
  • O Iraque surge da intenção de criar na Mesopotâmia um Estado que facilite a exploração dos recursos energéticos e aumente a protecção do ocidente da Índia e junta, desde então, xiitas (no Sul), sunitas (no Centro) e curdos (no Norte);
  • A recusa de entrega da Península Arábica ao xerife de Meca, para, mais tarde, a reconhecer a Abdulaziz Ibn Saud, fundador e primeiro Rei da Arábia Saudita;
  • A separação entre a Transjordânia e a Palestina que trouxe o surgimento da que hoje é Jordânia e contribuiu para o isolamento da Palestina, onde se encontravam personalidades cujas ambições políticas haviam sido negadas pelas potências e onde se entendeu ser o território ideal para cumprir a Declaração Balfour (de 2 de Novembro de 1917), na qual o MNE britânico Lord Balfour abre caminho - através de uma declaração que terá sido proferida de forma não séria ou vinculativa mas mais como forma de não gerar inimizades e hostilidades com a comunidade judaica na Grã-Bretanha, o que se veio a comprovar, 20 anos mais tarde, quando os próprios britânicos tentaram impôr limites à imigração judaica e à ocupação da Palestina pelos judeus - à constituição de um destino fixo para os hebreus onde se encontra a Palestina.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Breve análise ao discurso de Ano Novo de Vladimir Putin


Ainda agora começou o ano de 2016 e já Putin criou impacto em toda a imprensa internacional:




Em primeiro lugar, trata-se de um discurso curto, directo, sem grandes adornos e pragmático. O Presidente russo podia dedicar-se a uma mensagem fraterna, de esperança ou alusiva à revitalização da economia - tema sensível na Rússia actual dada a conjuntura actual. Podia apostar numa mensagem simples com chavões sob a forma de desejos para o novo ano. Também podia apelar aos valores religiosos como forma de motivar a população para 2016. Podia ainda apresentar um discurso a enaltecer a grandeza da Rússia e prospectivar que a Rússia vai atingir o auge e destronar EUA e China ou até dirigir palavras duras e ameaçadoras contra Estados terceiros.

Putin não fez nada disto. Putin dedicou o tema do seu discurso exclusivamente ao garante da sobrevivência do país: começou por agradecer a todos os que permitem que a Rússia subsista, não excluindo ninguém, ainda que faça referências em abstracto, mas incluindo todos, desde o simples comerciante e da empregada de limpeza que contribuem para a economia russa, às Forças Armadas que protegem o país contra as ameaças.

São, aliás, os militares os destinatários especiais das suas palavras. E são-no por dois motivos: as Forças Armadas são a instituição não política que mais confiança merece da população (com taxa de aprovação acima dos 80%); são quem tem a responsabilidade de combater o Da'esh na Síria e proteger as fronteiras contra as ameaças externas (e também internas).

E a necessidade de garantir a segurança interna e externa sucede numa altura em que as ameaças globais emergem contra diversos alvos, incluindo a Rússia, sobretudo a Rússia, que se vê cercada de ameaças que tendem a gerar consenso (o terrorismo e o Da'esh) e outras que dependem de que lado se pretende estar (a expansão militar dos EUA e da NATO e o aproveitamento de relações bilaterais e blocos regionais para atacar pela via económica).

No dia em que foi publicado o Decreto assinado por Putin a actualizar o plano estratégico de segurança nacional e que antecede a entrada em vigor de retaliações contra quem ataca os interesses russos, Putin recorda a importância dos que protegem o país com armas e estimulam a economia, garantindo a existência da sociedade russa.

O golpe final no discurso de Vladimir Putin surge na referência ao 70.º aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica (II Guerra Mundial), o que é feito como forma de dirigir um recado a todos os que, directa ou indirectamente, de forma mais ou menos veemente, visam a destruição ou ameaçam a Rússia. Para todos eles, com esta referência à vitória russa na II Guerra, Putin está a fazer um alerta, dizendo "lembrem-se do que aconteceu aos que nos quiseram atacar: foram todos derrotados e ainda hoje estamos a celebrar a nossa glória".

Acredito que, em 2016, a Rússia tudo fará ao seu alcance para respeitar a sua longa história e prevalecer sobre qualquer tipo de ameaça à sua existência. 2016, promete!