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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Autárquicas 2013: Ser ou não ser... mais do mesmo

É impressão minha ou, ao longo das últimas semanas, o País foi invadido por uma campanha de português de 3.º ano do ensino primário? Questiono-me se temos uma campanha autárquica em curso ou se temos uma campanha contra ou a favor do acordo ortográfico - ainda não percebi qual deles -, na qual os candidatos ao poder local procuram ensinar aos munícipes a conjugação correcta do verbo Ser. Gostam particularmente de conjugar o verbo Ser na primeira pessoa do plural. Um ou outro lá acrescente o substantivo masculino plural que designa uma universalidade (todos). No entanto, candidatos de Norte a Sul do País, arquipélagos incluídos, parecem não saber outra coisa a não ser conjugar o verbo Ser na primeira pessoa do plural, senão vejamos:

Em Oeiras...

... em Águeda...

... em Almada...

... em Bragança...

... em Torres Vedras...

... em Anadia...

... em Cascais...

... no Funchal...

... em Barcelos (eles podem esconder, mas são PSD)...

... em Lagos...

... na Figueira da Foz...

... ou em Leiria.


Podemos ainda constatar que nem as listas independentes evitam o recurso ao verbo Ser como forma de preencher um espaço num cartaz, por exemplo:
Em Fafe...

... e em Cascais.

Será de mim, ou tudo isto é mais do mesmo e apenas (mais) uma demonstração do vazio de ideias que domina os políticos (e os aspirantes a políticos) do nosso País? Pior, fica a sensação que a criatividade política para slogans parou na década de 1960 com o famoso Ich bin ein Berliner, de John F. Kennedy. A limitação de quem faz política é tanta que ninguém ousa fazer melhor que esta frase redutora e ultrapassada.

Caros candidatos: mais propostas, mais compromissos, mais ideias e menos retórica!

terça-feira, 10 de julho de 2012

Com António Pires de Lima, em Cascais: tréplica.

No passado dia 5 de Julho de 2012, António Pires de Lima foi o convidado da concelhia do CDS-PP de Cascais num debate intitulado «Ajustamento e Crescimento Económico». Depois de há cerca de 4 meses, em Fernão Ferro (Seixal), Pires de Lima ter tido um discurso totalmente a favor da austeridade que estava a ser seguida - afirmando mesmo «não há outra solução para inverter os acontecimentos» -, agora o discurso foi diferente. Desta vez o orador mostrou-se desconfiado com o trabalho que está a ser seguido, colocando em causa, diversas vezes, a actual austeridade enquanto solução... caso não se verifique crescimento económico - o que, efectivamente, está a acontecer com uma economia estrangulada e limitada por um poder de compra cada vez mais reduzido - e os índices de desemprego permaneçam aos níveis actuais.

Porém, entre a desconfiança, e ao longo de quase todo o tempo que teve para falar, Pires de Lima elogiou a coragem do Governo, em particular as alterações ao Código do Trabalho, o que qualificou como «muito feliz». No final, tive a oportunidade de fazer uma intervenção. Como o convidado tem 1 hora e eu apenas 3 minutos - o que é, aliás, mais do que compreensível -, vi-me forçado a ser demasiado sintético e a ouvir as respostas de Pires de Lima à minha intervenção - concordando comigo em alguns pontos -, motivo pelo qual utilizo este meio para replicar, por uma questão de igualdade. Seguem-se os pontos da minha intervenção (contestação), a resposta de Pires de Lima (réplica) e, finalmente, a minha resposta (tréplica):

Eu: Se o Governo fosse realmente corajoso, reduziria a despesa com as Parcerias Público-Privadas (PPP), sobretudo nas rodoviárias.
António Pires de Lima: Não basta falar de cor, porque corremos o risco de ser como aqueles taxistas que falam sobre tudo mas pronunciam-se sobre as coisas sem saber realmente o que elas são. Mais importante do que cortar, é preciso avaliá-las. O resultado das PPP tem sido extremamente lesivo para as empresas e em alguns casos ainda mais do que para o Estado: veja o caso da Brisa e de outras cotadas em bolsa. Tirando a da Ponte 25 de Abril, que já devia ter sido revista, as outras não são rentáveis para os privados.
Eu: Se estamos de acordo a propósito da Ponte 25 de Abril, já relativamente à situação das restantes discordamos. Desde logo, vejam-se os resultados de um relatório do Tribunal de Contas a algumas PPP. Tanto quanto se sabe, só há uma PPP na qual o Estado ficou a ganhar: a da Fertagus. Nas outras o Estado perde e os privados, por norma, ganham por um simples motivo: têm sempre lucro garantido, quer o projecto corra bem, quer corra mal. Relativamente à desvalorização das empresas em bolsa, não existe nexo causal entre tal constatação e as PPP: estas empresas desvalorizam-se por diversos motivos, sendo dois deles (i) o facto de serem associadas a um país cujo grau de confiança tem vindo a cair ao longo dos anos e (ii) erros de gestão e investimento da própria empresa. Ainda que Pires de Lima tivesse razão, e os privados perdessem mesmo, esse resultado seria um fenómeno natural para quem faz investimentos: o risco existe, por norma, menos nas PPP em que o lucro é garantido... assumindo o Estado o prejuízo se a aposta corre mal. Estas empresas têm lucrado (e continuarão a lucrar) milhares de milhões. Onde está o resultado desse dinheiro? Provavelmente distribuído por meia dúzia de pessoas. Não reconhecer que as PPP são mais lesivas para o Estado do que para os privados e querer proteger estes últimos por, alegadamente, também perderem, parece-me conversa típica de empresário e não de quem defende os interesses nacionais.

- Se o Governo fosse realmente corajoso, não disponibilizaria 12 mil milhões de euros aos bancos, sem antes exigir que revejam, entre outros, a política de pagamento de reformas aos seus antigos quadros, existindo até quem as tenha na ordem dos €300.000,00/mês.
- Que eu saiba, a reforma mais alta situa-se em torno dos €170.000,00/mês. Mas, não consigo compreender que problema é esse que tem com os salários. Defende, como faz a Esquerda, que seja o Estado a impor um tecto nos salários e nas reformas dos privados?
- Com efeito, tratou-se de um lapso. Ao referir €300.000,00/mês quis dizer €300.000,00/ano e estava a pensar no caso de Artur Santos Silva, com uma reforma de €351.000,00/ano... dos quais 43 mil são pagos pela Segurança Social. É-me completamente indiferente se no privado alguém aufere 1 milhão de euros/mês ou mais. Cabe aos privados decidirem quanto custa cada um dos seus profissionais. O problema é que não quero ser eu a pagar os devaneios dos privados, motivo pelo qual os €174.000,00/mês de Jardim Gonçalves - aos quais se juntam ainda transporte em avião privado, guarda-costas, motoristas e automóveis - são demais quando a casa que faz este pagamento faz muitos outros de valor manifestamente elevado e «precisa» recorrer ao fundo do Estado - 12 mil milhões estes que podiam ser canalizados para áreas onde são verdadeiramente necessários. Quem disponibiliza 12 mil milhões de euros sem sequer exigir condições que garantam que o futuro poderá ser minimamente diferente, é, certamente, irresponsável. Prova disso são os mil milhões de euros colocados pelo Governo à disposição dos municípios mais endividados. Tem condições, é certo, mas a Câmara Municipal de Lisboa já deu provas que as condições não são suficientes.

- Para haver estímulo da economia é preciso que as entidades reguladoras realmente regulem e não se limitem a agir (muitas vezes até mal) quando o cenário é apocalíptico.
- Ou seja, você defende o mesmo que a Esquerda, que faz questão de ter um Estado interventivo na economia. De facto, há situações como os combustíveis em que toda a gente percebe a concentração de preços e eles continuam a dizer que não, mas tirando isso...
- O mercado deve funcionar por si próprio, mas a entidade reguladora se não regula e deixa que o sector funcione como anarquia - como acontece -, então não está lá a fazer nada. As entidades reguladoras têm de intervir em casos de manifesto desequilíbrio, caso contrário, não basta ter um bom produto/serviço, é, isso sim, imperativo ter boas ligações (se possível ao Governo) que consigam manter a apatia e um estado das coisas que favoreça a minha empresa. Que confiança isso gera em potenciais investidores? Naqueles com maior poder económico, muita. Nos restantes, muito pouca. No final perde o consumidor: não há concorrência efectiva e nem sequer garantia de bons produtos/serviços.

- Se o Governo fosse realmente corajoso, interviria ao saber que uma empresa como a Galp, no mesmo ano que regista perto de 300 milhões de euros de lucro e que o seu Director Executivo aufere um salário anual de 1,33 milhões de euros, encerra mais de 20 postos de abastecimento e lança para o desemprego mais de 200 trabalhadores. Ser empresário não é acordar um dia e pensar «vou abrir uma empresa no sector X», abri-la, lucrar com ela e, quando não consegue mais dinheiro com ela, encerra-a e lança para o desemprego os trabalhadores. Tem de haver responsabilidade social dos empresários.
- Quando estivemos em Fernão Ferro julguei ter sido influência dos ares do Seixal, mas agora fiquei esclarecido: você é mesmo de Esquerda! Tem a certeza que é do CDS? Porque lhe faz tanta confusão quanto ganham os administradores das empresas? Qual é o problema de eu, enquanto empresário, querer ganhar dinheiro com o meu negócio e encerrar agências, se assim o entender, ainda que isso implique a perda de funcionários?
- Conforme já dito anteriormente, é-me indiferente o salário de quem trabalha no sector privado. Rotular alguém ou alguma proposta com «Esquerda» é uma das formas mais básicas a que recorrem aqueles que não têm argumentos e pretendem agarrar o público sem fazer muito esforço para isso, gerando repulsa imediata contra aquele que «é de Esquerda». Porém, acontece que o CDS não é um partido de Direita. O CDS [Centro Democrático Social] é um partido que, como o próprio nome indica, é de Centro. Conforme se pode ler no primeiro número do jornal Democracia 74 - disponível para consulta no site do CDS -, «o Centro não é uma localização geográfica, mas sim uma posição política: ser centrista não é ter igual número de partidos à sua direita e à sua esquerda, mas defender uma filosofia, uma doutrina, uma política de síntese, enriquecida com os contributos ideológicos da direita e da esquerda, não dogmática e por isso mesmo apta a enfrentar os desafios do mundo moderno com agilidade e elasticidade». Como vemos, o CDS é o partido mais à Direita no Parlamento, mas não é um partido de Direita, é de Centro, com inspirações de Direita... e de Esquerda! Ou os fundadores estavam baralhados (e errados) - com Adelino Amaro da Costa à cabeça -, ou muita gente confunde o CDS com outra coisa qualquer de Direita.
Igualmente grave é associar-se uma questão como a responsabilidade social dos empresários a ideologias de Esquerda, praticamente reconhecendo que a facilidade de dispensa de trabalhadores «faz parte do negócio». O problema que o crescimento do CDS traz para muitos militantes que defendem uma visão que protege sobretudo o empresário/patrão prende-se com o facto de esse crescimento incluir, cada vez mais, pessoas de estratos sociais mais baixos, muitas pessoas do chamado «colarinho azul». Esse tipo de discurso proteccionista que elogia a revisão do Código do Trabalho e vê com indiferença o encerramento de filiais e, consequentemente, a dispensa de funcionários torna-se perigoso e o Partido deve ter muito cuidado com o que defende, sob pena de mitigar os esforços feitos em questões como o aumento das pensões e outras medidas de cariz social.
Por este motivo, quem acha normal que um empresário deve poder encerrar agências, ainda que isso implique o despedimento de funcionários, e indiferente à responsabilidade social que os empresários devem ter, deverá interrogar-se sobre se é mesmo do CDS, até porque a Declaração de Princípios do Partido faz referência, quatro vezes, ao humanismo personalista, teoria esta que defende que o Ser Humano deve ser visto como um fim e não como um meio para atingir um determinado fim. Ora, onde está o humanismo personalista num cenário em que os empresários/patrões instrumentalizam pessoas para conseguirem lucros e, quando o negócio começa a deixar de render - por falta de planeamento ou incompetência do investidor -, colocam-se na disposição de despedi-los para garantirem lucros avultados? Onde está o humanismo personalista no caso da Galp, uma empresa que facturou perto de 300 milhões de euros, concedeu o salário já referido ao seu Director Executivo, mas despediu quase 300 pessoas? Não existem dúvidas em como nestes casos o Ser Humano constitui um meio para atingir um fim.
Para finalizar, deixo transcrevo parte da Declaração de Princípios do CDS, que é categórica a este respeito:
«O C.D.S. representa, em primeiro lugar, os portugueses que estão dispostos a lutar pela consagração, em Portugal, do humanismo personalista, sustentando a necessidade imperiosa de se concretizarem, na nossa vida colectiva, as exigências do progresso, em todas as suas formas.
Defendemos o humanismo personalista porque ele é, mais do que qualquer outra ideologia, o melhor caminho através do qual se procura combater a exploração e a opressão do homem pelo homem. Pois estas não são apenas as que resultam da organização económica e social dos meios de produção:
- O homem é explorado quando se sente asfixiado pelo aparelho burocrático do Estado;
- O homem é oprimido quando, por qualquer modo, lhe é vedada a liberdade interior, ou a abertura ao transcendente espiritual;
- O homem é oprimido quando a sua vida privada não decorre com a necessária intimidade;
- O homem é explorado, a qualquer nível, quando é sujeito ao exercício tirânico da autoridade ou a imposições abusivas de minorias activistas;
O homem é explorado quando a sua consciência de pessoa é abafada pelas massas ou é objecto de manipulações da sociedade de consumo.
Contra todas as formas de exploração e de opressão, urge lutar, mobilizando as múltiplas conquistas do progresso, com vista a uma nova ética da vida em colectividade.»

Eu tenho a certeza que sou do CDS, e o António Pires de Lima?