quinta-feira, 28 de março de 2013

Sócrates está de volta... e a oposição também

Em pouco mais de 1h30, José Sócrates fez mais do que António José Seguro em quase 2 anos. Arrasou, do princípio ao fim. Um verdadeiro animal político que disparou (com um considerável grau de eficácia) contra todos aqueles que com ele se cruzaram durante a entrevista.

Sócrates continua igual a si próprio: muito profissional, prepara-se até ao mais ínfimo pormenor - ao contrário dos entrevistadores. Não facilita. E brilhou. Depois de quase 2 anos em silêncio, soube regressar.

A boa notícia no meio disto tudo, é que Passos Coelho vai finalmente contar com oposição. E Seguro bem poderá agradecer a Sócrates o tremendo favor que vai fazer ao Partido. O PS está de volta. Resta saber se Sócrates consegue capitalizar a sua presença televisiva no médio prazo ou se terá regressado demasiado cedo.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Pires de Lima e José Sócrates

António Pires de Lima teve declarações curiosas à Antena 1. Dias após praticamente se ter oferecido para suceder a Álvaro Santos Pereira, como Ministro da Economia, Pires de Lima eliminou publicamente todas as dúvidas relativamente à forma como CDS olha para a actual coligação com o PSD: o casamento com os sociais-democratas não tem qualquer valor e, antes da formalização do divórcio, o CDS corteja uma terceira entidade para com ela se unir no futuro. Foi o que fez Pires de Lima quando diz «o grande risco político é que António José Seguro, que é uma pessoa bem intencionada e séria, fique refém de Sócrates». Resta saber se a futura união será a dois ou um ménage a trois. O CDS parece disponível para qualquer uma das duas... desde que sustentem o seu modo de vida.

Para garantir que o futuro cônjuge é a irmã mais nova, ainda virgem e influenciável (como é o caso de António José Seguro) e não a irmã mais velha mandona e inteligente que não se importa de ficar para tia desde que mande (como é o caso de José Sócrates), Pires de Lima não perdeu a oportunidade de espicaçar Seguro de forma singela ao deixar no ar as suas dúvidas de «como é que Seguro vai resistir a mais este assalto à sua liderança» e, pior, afinal, Sócrates não pretende a Presidência, onde poderia conviver com Seguro Primeiro-Ministro, antes, quer mesmo destruir as ambições deste último. O CDS não quer é ficar muito mais tempo com a matrafona desbocada que não sabe sequer lavar um prato ou passar uma roupa a ferro (o PSD de Passos Coelho)!

Boa iniciativa de António Pires de Lima. Fica sempre bem a um rival (se o for) preocupar-se com o funcionamento interno e com o futuro do adversário. Veja-se que Pires de Lima até saúda uma alternativa ao actual Governo PSD/CDS. Convém é que António José Seguro leia as letras pequenas: o CDS já se revê numa alternativa a si próprio enquanto parte do PSD/CDS. E Pires de Lima lá estará na linha da frente para ver se à 4.ª tentativa chega a Ministro da Economia.

terça-feira, 26 de março de 2013

Chipre: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Trabalho brilhante o da União Europeia e de Chipre - coitados, tomar decisões sob coacção não deve ser muito fácil - com o acordo relativamente à taxa de 30% sobre depósitos bancários superiores a €100.000.


Com a oficialização do saque, as classes média-alta, alta e empresarial ganharam um novo motivo para seguirem o exemplo de Soares dos Santos e transferirem sede, actividade e fundos para países como a Holanda. Já não apenas por motivos fiscais, mas também de liquidez.

Mais, a Holanda está a fazer um excelente trabalho. Jeroen Dijsselbloem conseguiu queimar Chipre, alguns outros paraísos fiscais e centros financeiros, procurando concentrar a credibilidade das offshores europeias na Holanda.

No entanto, importa perguntar: quem serão os próximos alvos? Basta pensar nos principais centros de lavagem de dinheiro que vivem uma situação já de si não muito confortável e que, com esta medida de Chipre e aviso descarado de alastramento, poderá por na linha de tiro Malta e, mais importante ainda, o Luxemburgo.

Mas não são os únicos. Até no Butão se conhece a dívida externa Suíça, assustadora, por sinal.

No meio disto tudo, há um destino que ainda oferece alguma confiança, pelos mais variados motivos, mas também por ter uma economia versátil e que não se centra na finança: a Noruega. Se Isaltino pudesse voltar atrás, talvez não tivesse sido má ideia enviar um sobrinho para a Noruega onde podia ser taxista em Oslo.

domingo, 24 de março de 2013

Tenho andado pela Papel

Desde há pouco mais de um mês que não tenho escrito muito aqui. Tenho estado envolvido a 100% com um dos projectos mais aliciantes para os quais já me desafiaram. É a revista Papel e podem acompanhar os meus artigos aqui.

No entanto, sugiro que vão mais longe e naveguem no resto da revista que é composta por imensos colunistas de excelente qualidade, com conteúdos alternativos e inovadores fabulosos. Perco-me, não raras vezes, nesses conteúdos e aconselho-os vivamente a todos.

Tenho andado desaparecido daqui, mas voltei recentemente. Tenho conseguido conjugar os dois interesses e voltarei a estar mais activo por aqui. E, insisto, sugiro que conheçam a Papel. Vão ver que vai valer a pena.

sexta-feira, 22 de março de 2013

José Sócrates, Cátia Palhinha e o Adamastor


José Sócrates vai ter um programa na RTP. Muitos não hesitaram em mostrar publicamente o seu choque com tamanha notícia. Simultaneamente, mostraram-se contra o regresso de José Sócrates. Em particular, aqueles que num passado muito recente acusavam os governos socialistas de «pressões e ingerências» agora convocam directores da estação pública para esclarecimentos e subscrevem e promovem petições para impedir a ida de Sócrates para a RTP. Verdadeiros democratas, portanto, que se revêem nos valores constitucionais.

Foi difícil, mas conseguiu gerar-se consenso em torno da diabolização de José Sócrates. Tal ódio não foi gratuito. Sócrates fez por merecê-lo. É, provavelmente, um dos piores políticos da história de Portugal. No entanto, não só não foi o único a desgraçar o País como o mérito deve ser dado a Passos Coelho: se, após um exílio, Sócrates se sente em condições de regressar a Portugal, talvez seja porque o actual Governo conseguiu a (quase impossível) façanha de superá-lo em disparate e incompetência. E fê-lo em menos de 2 anos, o que é admirável!

Ao mesmo tempo, baralham-me aqueles que subscrevem a petição contra José Sócrates na RTP. Afinal, não querem privatizar a RTP e permitir que esta seja livremente gerida por privados, mas querem que não dê prejuízo estando sob o domínio público. Se querem que a RTP não dê prejuízo, é bom que a deixem actuar e ombrear de igual para igual com SIC e TVI. Se para não dar prejuízo tiver de garantir boas audiências, então talvez seja importante perceber que não é com o TV Rural que se chega lá. O que vende não é o pobre Zé Maria, é o Marco a dar um pontapé na Sónia. O que vende não é a palestra do Padre Vítor Melícias, são as bacoradas da Cátia Palhinha com a Teresa Guilherme e o sexo na Casa dos Segredos.

Posto isto, se alguém acredita que José Sócrates não arrastará audiências para a RTP, então certamente consegue perceber menos disto do que eu. A menos, claro, que ninguém queira prejudicar o monopólio social-democrata nas televisões privadas. E aqui entram os estrategas: uns estão confiantes que a presença de Sócrates serve para dividir os pelotões de fuzilamento entre este e o Governo; outros acham que poderá ser útil porque não se limitará a atacar o Governo e também vai disparar em direcção a António José Seguro. Eu acho que muita gente anda a dormir e esquece-se que Sócrates é um verdadeiro animal político que não brinca em serviço - talvez seja por isso que muitos o queiram impedir de regressar. E a prova está dada num pequeno pormenor: vem a custo zero, sem receber 1 cêntimo da televisão pública. O guião está preparado e acredito que Sócrates entrou em campanha para outros voos, sobretudo a pensar em reabilitar as suas fileiras e apostar nas Presidenciais. Depois do Adamastor, José Sócrates é, provavelmente, o nome que mais receios causa às elites (políticas) portuguesas.

No CDS, partido ao qual pertenço há já vários anos, é comum assistir-se à divulgação de uma frase poética como forma de reiterar que o partido defende a liberdade individual e o bom senso de cada um, a saber «quando um tipo de direita não gosta de armas, não as compra/quando um tipo de esquerda não gosta de armas, quer proibi-las». Sinceramente, tenho dificuldades em compreender porque motivo CDS e PSD não honram os valores que professam. Pela lógica, «quando um tipo de direita não gosta de um comentador, muda de canal/quando um tipo de esquerda não gosta de um comentador, quer proibi-lo». Não devia ser assim?

terça-feira, 19 de março de 2013

Um problema de gases


Ao contrário de Portugal, onde o Memorando de Entendimento é negociado e celebrado com a troika completamente à revelia do Parlamento, no Chipre, o Parlamento chumbou a taxa sobre os depósitos bancários.

Não tenho a menor dúvida que uma medida destas passaria em Portugal com os votos cegos da maioria. No Chipre, em sentido contrário, quem negociou o resgate com a troika podia disciplinar deputados suficientes - e são 20 os do Partido que apoiou o Presidente Nicos Anastasiades (DISY) - para, pelo menos, tomarem uma posição condizente com o Partido. Nem um votou a favor. Disciplina de voto em Portugal; bom senso no Chipre.

Porém, não se pense que isto ficará por aqui. Conhecendo a batoteira como a conhecemos, sabemos que o Chipre vai também conhecer a verdadeira democracia da União Europeia: mais ou menos maquilhada, a medida será votada tantas vezes quantas as necessárias para aprová-la.

Que fim para o Chipre? Não se sabe ainda, mas possivelmente acabará por ter parte da dívida perdoada ou o resgate assumido por uma Rússia com dois dedos de testa e que reconhece a importância de controlar um Chipre com tamanha importância estratégica.