O Da'esh reivindicou um atentado
ocorrido ontem, na Rússia, mais concretamente na região do Daguestão, onde
carros armadilhados terão provocado, pelo menos, uma morte.
O terrorismo no Daguestão não é
surpresa para ninguém, sendo daqui que decorre a maior ameaça em solo russo,
merecendo a preocupação de Moscovo pelo crescente extremismo com inspiração
islâmica.
Em traços gerais, acaba por ser
uma região que remete para o Afeganistão sob domínio talibã:
1- Geograficamente, é uma zona
montanhosa e faz fronteira com outra região igualmente conhecida pelo
terrorismo, a Chechénia;
2- Socialmente, apresenta
diversidade étnica e cultural, mas o Islão domina uma região com cerca de 2,5
milhões de habitantes.
O problema do Daguestão é que o
Islão professado pela maioria da população é de origem sunita, mais
concretamente o wahabita, que é a mesma escola da Arábia Saudita (interpretação
literal e aplicação directa da lei islâmica) e uma das correntes que inspiram o
salafismo de grupos como a Al-Qaeda ou mesmo o Da'esh (não existe mais nenhuma
corrente verdadeiramente islâmica como a que remonta aos tempos do profeta e do
início da religião).
Os conflitos entre os vizinhos da
Chechénia e as autoridades russas acabam por servir de motivação para o combate
à Rússia, vendo-se Moscovo como o invasor que ocupa e oprime a comunidade
muçulmana de um território onde alguns pretendem criar um Estado islâmico.
Independentemente da
credibilidade (ou falta dela) que tal pensamento possa ter, é interessante ver
como a perspectiva de "o invasor que ocupa e oprime os muçulmanos"
está praticamente sempre por trás da emergência dos fundamentalismos que se
vêem forçados a vincar-se e a ser cada vez mais radicais como forma de se
afastarem do "inimigo" e garantirem o apoio popular de uma comunidade
que tende a identificar-se com aqueles que alegam ser os defensores do povo.
O apoio saudita com vista à
wahabização do Daguestão é evidente - não é surpresa para ninguém este papel
desestabilizador da Arábia Saudita - e a alegada autoria do Da'esh no atentado de
ontem (ao qual ainda não vi referência nos média portugueses) merece
preocupação, já que não seria anormal se os extremistas do Daguestão seguissem
o modelo de grupos armados tradicionais que perfilham valores e ideais
islâmicos: aproximação e promessa de alianças bem como a promoção da imagem do
grupo jihadista central (a Al-Qaeda ou o Da'esh) em troca de financiamento,
armamento e treino do grupo que opera no território.
A ameaça do Da'esh deve ser
levada muito a sério pelas autoridades russas, já que é possível que os
extremistas do Daguestão possam ser instrumentalizados como forma de atingir
outras cidades e interesses russos, o que poderá ser conseguido, também,
através de sinergias com outros grupos de crime organizado e outras entidades
oriundas de antigas repúblicas da URSS. Aqui, convém recordar que ainda hoje
Moscovo anunciou ter detido cerca de 20 elementos oriundos do Uzbequistão que,
com documentos turcos falsificados, recrutavam combatentes para o Da'esh.