Segundo as notícias do dia, Portugal prepara-se para regressar aos mercados com a emissão da dívida a 5 anos. Contudo, o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, terá associado esse regresso com o cumprimento dos «seus compromissos» e com a «forte capacidade de execução».
Julgo haver aqui um equívoco. O que aliviou a nossa situação e nos permite ter condições para emitir dívida a taxas de juro competitivas, tal como sucede com outros países que necessitaram de resgate, foi o Banco Central Europeu, através de Mario Draghi, ter assumido a hipótese de aquisição de dívida pública dos Estados-Membros, em caso de necessidade.
O seu a seu dono, até porque é feio que o Governo tente ficar com os louros do que não fez. Aliás, se a nossa situação fosse assim tão boa, a Standard & Poors dificilmente teria condições para manter o rating de Portugal com a nota «lixo», como fez ontem. E, neste momento, esta agência de notação sabe que nada tem a ganhar (nem os seus clientes) com um rating especulativo. Mais, se fosse o brilhante trabalho do Governo a influenciar a queda dos juros, como se explica que a incorrigível Grécia também tenha visto as taxas de juro das suas obrigações a 10 anos em queda livre? Mera fé que Atenas vai mudar de rumo no longo prazo? Com base em quê?
Por falar em Grécia, a situação da Grécia devia merecer reflexão por parte dos decisores portugueses, se estes fossem minimamente sérios e preocupados com a população que representam. Se olharmos para os números da Grécia, estes são ainda mais surpreendentes que os portugueses. Ao contrário dos portugueses, que recorrem a muita criatividade contabilística e rezam para que as contas batam certo, a Grécia conseguiu um défice de 8,1%, em 2012, sem praticamente implementar reformas nem avançar para privatizações. Cumprem o objectivo traçado para este ano, apesar do incumprimento, e quase se aproximam dos números de Portugal! É obra!
Tudo isto torna incompreensível o quadro negro que muitos «analistas/peritos» pintam quando se fala na Grécia. Afinal, enquanto em Portugal andam a encher-nos de relatórios e documentos para promover o corte na despesa e o desaparecimento do Estado, para se dar lugar a um neoliberalismo próximo da anarquia - onde prevalece a lei do mais forte e aos fracos reserva-se a «caridadezinha» -, na Grécia a troika aceitou um cessar-fogo durante 6 meses onde não exigirá nada mais do que aquilo que já vem sendo exigido à Grécia desde há cerca de 2 anos!
Melhor ainda, a Grécia é um exemplo, senão e não sou quem o diz, mas sim Christine Lagarde que ainda muito recentemente disse «o programa está a avançar na direcção certa, com progressos notáveis no ajuste fiscal e melhoria dos custos laborais». E esta, hein?
A Grécia não regressou ainda aos mercados porque a troika continua à espera que a Grécia implemente algumas mudanças no plano interno. Quando for necessário para o Euro, a Grécia vai aos mercados, que ninguém tenha dúvidas, mesmo que permaneça o incumprimento. Aliás, não me espantaria que tal ocorresse ainda este ano, mais não seja porque temos uma senhora que pretende ser reeleita ali numa determinada terra localizada entre a França e a Polónia e que terá de demonstrar que o seu plano para a Europa funciona.
2 comentários:
Se não me engano, no back-up desta operação estão quatro bancos e não o Banco Central Europeu. Isto é, se a coisa der para o torto, estes bancos é que assumem a titularidade dos créditos se o mercado os não comprar. Por favor corrija-me se estiver enganado.
As notícias dos média apontam para isso, Anónimo. Mas a acção do Banco Central Europeu não precisou de ser directa. Bastou a declaração a alertar que compraria dívida soberana em caso de necessidade para impedir os juros altos. Além de que tudo isto é combinado previamente. Portugal não emitiu dívida e ficou à espera de ver no que dava. O Governo já sabia que tinha parceiros que a comprariam - segundo dizem as notícias são essencialmente americanos e britânicos - e já tinha sido tudo combinado para se ter a certeza do que se fazia. Mas, acredite, o passo determinante para fazer cair os juros foi o anúncio do Mario Draghi.
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