quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A Euronews, as FakeNews e a propaganda na guerra da Síria


O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos emitiu um comunicado onde disse: "Multiple sources have reports that tens of civilians were shot dead yesterday in al-Ahrar Square in al-Kallaseh neighbourhood, and also in Bustan al-Qasr, by Government forces and their allies, including allegedly the Iraqi al-Nujabaa armed group".

Ou seja, o ACNUDH:
1- Dá conta de múltiplas fontes, sem precisar de que fontes de tratam - tanto pela sua tipologia, como pelos seus acessos;
2- Apenas alertou que recebeu informações, não que as recolheu;
3- De modo a garantir que abusos desta natureza não se verificam e conseguir ter a certeza do que se passa no terreno, apelou a que haja verificação do que se passa no terreno. Para evitar boatos e rumores, claro.

E a Euronews não só traduz "reports" para "relatórios" - dando a entender que estamos perante documentos devidamente tratados -, quando devia ter traduzido para "denúncias" ou "relatos", como ainda afirma que o Alto Comissariado declarou que civis estão a ser assassinados pelo exército sírio e seus aliados.

O exercício de lógica da Euronews (e outros do género) é:
A: Se as Nações Unidas recolherem informações sobre execuções de civis na Síria, é porque aconteceu.
B: Há notícia de supostas execuções de civis na Síria, por parte de fontes desconhecidas.
C: Logo, as Nações Unidas estão a afirmar que aconteceu e que o responsável é Bashar al-Assad.

Isto não é notícia, é desonestidade pura - e desonestidade é um eufemismo.

 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Síria: John Kerry reconhece crimes cometidos pelos grupos armados

 
A resolução não passou, mas a ajuda humanitária acabou por tentar chegar ao destinatário.
 
Porém, apenas cinco dias depois, o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry admitiu que " é verdade que aconteceu algumas vezes que elementos da oposição [apoiada pelos EUA e por países europeus] ameaçaram civis que pretendiam abandonar Aleppo e em alguns casos impediram que a ajuda humanitária chegasse a quem precisa", acrescentando que "estamos perante crimes muito graves" (veja-se este vídeo a partir dos 2'21'').
 
O que acho verdadeiramente hilariante, sem ter graça nenhuma, é constatar que encontrei apenas um órgão de comunicação social ocidental que reproduziu parte das declarações de Kerry.
 
O autor de tamanha veleidade foi o The New York Times, que passa quase despercebido pelas palavras do Secretário de Estado dos EUA mas não perde a oportunidade de escrever "a Rússia, que diz que está a ajudar a Síria a combater os extremistas islâmicos, tem bloqueado sucessivos esforços da ONU para garantir um corredor de ajuda humanitária".