quinta-feira, 30 de maio de 2013

Joseph Nye tinha razão: a solução para o Médio Oriente é o smart power

Certamente muitos já estão familiarizados com os conceitos que descrevem (e medem) a capacidade de um Estado para persuadir Estados ou outras entidades a tomarem decisões que lhes são favoráveis. Falo de hard power e soft power, sendo que o primeiro mede a capacidade de um Estado para coagir um terceiro a adoptar determinado comportamento, através dos meios militares e económicos, e o segundo, através de meios não agressivos, como a diplomacia.

Para os mais curiosos sobre esta matéria, destaco a obra de Joseph Nye intitulada «Soft Power: the means to success in World Politics» e este artigo de Suzanne Nossel.

Mais tarde, em 2006, o mesmo Joseph Nye traz-nos o conceito de smart power, uma missão difícil de alcançar em que se visa conjugar o hard com o soft power. O título do artigo de Nye é sugestivo da solução para o Médio Oriente. De facto, a solução para a região passa pelo smart power.

No caso do Irão, o caso é evidente: a ameaça do nuclear mantém muita gente em sentido e assiste-se ainda a trabalho diplomático. No caso da Síria, o resultado é exactamente o mesmo. Segundo notícias, Bashar Al-Assad terá dito que a Síria já recebeu um primeiro conjunto dos mísseis anti-aéreos russos S-300, o que permitirá ao poder fazer hesitar rebeldes e outras ameaças regionais, como Israel. Com o hard power garantido, a Assad basta dar continuidade à diplomacia através dos parceiros regionais e de aliados como a Rússia. Isto é smart power puro e talvez seja assim que parte dos problemas do Médio Oriente se resolva: permitir que todos estejam em igualdade de circunstâncias de modo a dissuadir quaisquer tentativas de intervenção externa e apostar na diplomacia.

P.S.: Capacitar grupos rebeldes não é sequer uma opção.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Passos Coelho, a Turquia e a União Europeia

Fácil de seduzir no que a modas diz respeito e ingénuo na forma como crê em soundbytes fáceis que iludem apenas os mais tolos - como a questão do crescimento económico -, Pedro Passos Coelho manifestou, hoje, o seu apoio à adesão da Turquia à União Europeia.

O Primeiro-Ministro faz-me lembrar o filme Vigaristas de Bairro, de Woody Allen, sobretudo na cena em que a mulher do Woody decora palavras do dicionário, por ordem alfabética, até às aulas de arte. É como se seguisse uma espécie de manual para deixar de ser labrega e passar a ser uma pessoa intelectual, com gostos eruditos. Acaba por fazer figuras miseráveis pelos motivos óbvios: por mais que estude e tenha aulas, nunca terá capacidade/sensibilidade para perceber o que tem diante de si.

Com Passos Coelho sucede o mesmo fenómeno: sempre que ouve expressões como «expansão» ou «crescimento económico», reage quase instintivamente com um «sim» ou um «assino por baixo», apenas porque estes conceitos lhe soam a algo que gera, automaticamente, efeitos positivos... seja lá para o que for. No entanto, não tem capacidade/sensibilidade para perceber aquilo que tem diante de si.

Só isto justifica que tenha declarado apoio à adesão da Turquia à União Europeia apenas com base em aparentes vantagens económicas. Cavaco Silva repetiu os votos mais tarde. Mas, será que esta adesão seria assim tão vantajosa para países como nós? Dou 10 motivos para rejeitar a Turquia na União Europeia:

1- A Turquia é, de longe, muito mais Ásia do que Europa. Aliás, a própria capital encontra-se bastante distante da Europa. O que se segue, Israel? Mal por mal, já participam nas provas da UEFA e na Eurovisão;
2- As fronteiras da Turquia são um perigo que obrigam a UE a empenhar-se com outro afinco na protecção do «seu» «novo território»: Grécia, Bulgária, Geórgia, Azerbaijão e...Arménia, Irão, Iraque e Síria;
3- A história da Turquia com Grécia e Chipre permite antever que a coabitação poderá ser mais complexa do que seria preferível - até porque a Turquia não reconhece a República de Chipre mas reconhece apenas a parte norte do Chipre - não se esqueçam que é por causa da Turquia que o Chipre tem uma missão da ONU destacada no seu território;
4- A Turquia tem graves questões de segurança interna por resolver, que incluem repressão a minorias étnicas e grupos terroristas activos em solo turco;
5- Em matéria de Direitos Humanos, a Turquia deixa muito a desejar - negar, ainda hoje, o genocídio na Arménia é apenas um grave exemplo. E repare-se, também, que no Índice de Desenvolvimento Humano, a Turquia ocupa o 90.º lugar quase a cair para Desenvolvimento humano médio;
6- A Turquia é um país claramente muçulmano, apesar de o Estado ser assumidamente laico. Os laicistas são, não raras vezes, conservadores que a terem de tomar posição fazem-no em favor das tradições... islâmicas.
7- O Partido que está no poder (o AKP) é tendencialmente islâmico. Não posso deixar de recordar que ainda há pouco tempo tivemos uma tentativa de alteração constitucional que incidia sobre o uso do véu - a primeira dama, por exemplo, usa o véu. Basicamente, a Turquia aparente defender um género de «Islão pop» que aparenta ser moderado e moderno, mas que, quando for necessário, demonstrará que não é assim tão secular e levanta questões como a sobreposição do secularismo face às tradições religiosas, as quais já foram alvo de intervenção das instâncias jurisdicionais comunitárias e de países europeus;
8- Dada a densidade populacional - seria o 2.º maior - teria de ter representatividade correspondente nos órgãos comunitários caso adira à UE. Tal significa que teria um peso que lhe atribuiria um peso inimaginável. Quanto a nós, seríamos ainda mais pequenos do que já somos e tratados como uma qualquer aldeia do interior português. É este o projecto de Estados Unidos da Europa que se pretende? Queremos mesmo entregar soberania seja a quem for, quanto mais aos turcos?;
9- Os baixíssimos salários praticados na Turquia, associados à elevada taxa de desemprego no país, sobretudo entre os jovens, poderá potenciar muito facilmente a emigração turca para os Estados-Membros da UE, criando mais uma oportunidade para a Turquia do que para a UE em si;
10- Ainda ninguém tem a certeza de que a Turquia será uma verdadeira mais-valia em matéria económica. Apenas alguns palpites, em termos de geopolítica, do potencial estratégico da Turquia, que tem uma taxa de crescimento que, com a adesão à UE, pode revelar tratar-se de uma mera ilusão. Afinal, o «crescimento» económico do país vai esbarrar em muitas exigências comunitárias, quer em matéria de concorrência, investimento e empreendedorismo, quer até, por exemplo, em formas de desenvolvimento do modo de fazer as coisas - coisas tão simples, responsáveis pela sobrevivência de muitos turcos, é o comércio de rua e a gastronomia que ignora práticas que a UE obrigará.

A Turquia na UE pode ser um grande erro de casting e a morte quer da UE quer da própria Turquia.