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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Há menos de um mês propus impostos sobre o património: em Portugal nada se fez; em Espanha seguiu-se esta opção.

Há menos de um mês surgiu o debate em torno do imposto «sobre os mais ricos». Na altura, recusei o imposto sobre as doações e sobre as sucessões e defendi a opção por impostos sobre o mercado de capitais e sobre os rendimentos dos mais ricos, nos mesmos moldes do praticado em França, porém, com carácter temporário e excepcional.

Agora, menos de um mês após a publicação do referido artigo, eis que Espanha decidiu estabelecer um imposto sobre o património nos mesmos moldes em que o sugeri: patrimónios acima de 700 mil euros - fui mais «misericordioso» e sugeri os 790 mil euros de França - e com carácter temporário e excepcional. Para aqueles que não dispensam as referências aos exemplos seguidos por Estados-Membros da União Europeia que nos são geograficamente mais próximos, aqui têm os (bons) exemplos de França e Espanha para seguirem em Portugal.

Na verdade, é tudo uma questão de (falta de) vontade política. Se a potencial fuga de capitais fosse real, França já teria revogado o imposto sobre o património - pois tem logo ali Andorra, Luxemburgo, Mónaco, Liechtenstein e Ilha de Man, como offshores - e Espanha nem se atreveria a fazê-lo - por Gibraltar e Andorra. Por cá, já temos fuga de capitais mais que suficiente - senão veja-se o caso da Madeira e o mais recentemente publicado nas notícias que envolve José Sócrates - e este argumento nem se coloca. O argumento da fuga de capitais não é mais do que falacioso, servindo apenas para encobrir a falta de vontade política para aprovar uma medida que iria incidir sobre muitos políticos e interesses instalados que não interessam mexer nem agora, nem nunca.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Taxa adicional para pessoas singulares e colectivas: 2,5% ou 3% de pouco, é muito pouco.

Por mais que Vítor Gaspar tente mostrar que os mais ricos estão a sofrer na pele as medidas de austeridade - através da criação de uma «taxa adicional de solidariedade», de uma taxa sobre a parte dos lucros que exceda 1,5 milhões de euros, do aumento da tributação das mais-valias imobiliárias e do fim de determinados benefícios fiscais aos últimos dois escalões de IRS -, quando se tira pouco de pouco, o resultado será, inevitavelmente, pouco.
Anunciar quatro medidas, com impacto em três realidades distintas, e mesmo assim esperar arrecadar, apenas, perto de 100 milhões de euros, é, manifestamente, muito pouco para o que precisamos que é, recordo, 78 mil milhões (sim, mil milhões) de euros. Apesar do Ministro das Finanças querer fugir com o rabo à seringa, os impostos sobre património e capitais, a título excepcional, continuam a ser a única solução para poupar os portugueses e garantir que Portugal consegue sair da grave situação em que (ainda) se encontra.

sábado, 27 de agosto de 2011

Imposto sobre os mais ricos: sacrifiquem-se os melhores novilhos!

A capacidade de iniciativa e a sensibilidade para detectar oportunidades diferencia um génio empreendedor de um simples empresário ou até de um bom empreendedor. E talvez seja por isso que alguns atinjam o estatuto de multimilionários e outros «apenas» o de ricos. Warren Buffett deu o mote, ao recusar «mimos» do Estado, e um grupo composto por 16 milionários franceses lançou a campanha na França e arrastou a discussão para a Europa. Mais do que o alegado sentido patriota, estes homens (e mulheres) ganham pontos em prestígio interno e externo com resultados visíveis para os seus negócios. Nada há a criticar neles, até porque descobriram (mais) uma forma de ganharem beneficiando também terceiros à sua volta.

Por cá, «a doutrina diverte-se». O Bloco de Esquerda descobriu que pensa da mesma forma que o Presidente francês e o Primeiro-Ministro italiano (ambos de direita) e apresenta uma proposta para taxar o património, acrescentando ainda um imposto sobre os mercados de capitais; esta ideia é corroborada pelo PCP; no mesmo sentido, António José Seguro lembrou-se, agora na oposição, que, se o Governo PSD/CDS-PP está hesitante relativamente à resposta a dar ao desafio de taxar os mais ricos, o Partido Socialista tem de se antecipar e apresentar uma proposta para taxar o património e os capitais - curioso é, porém, que António José Seguro fosse deputado quando o PS estava no poder e nunca se tivesse lembrado de incluir semelhante proposta no Programa de Estabilidade e Crescimento IV lançado pelo seu partido, a 23 de Março de 2011, o qual foi por si defendido ao votar contra as resoluções da oposição no sentido de chumbar o plano socialista -; Cavaco Silva insiste no imposto sobre o património e acrescenta ainda as doações e as heranças; o CDS-PP recusa parte da proposta do Presidente e elementos do partido já se pronunciaram publicamente no sentido de questionarem o aumento da tributação sobre os ricos; o PSD apresenta-se cauteloso sobre a questão.

No que à sociedade civil diz respeito, Américo Amorim, o homem mais abastado em Portugal, diz-se «trabalhador» e afasta de si o rótulo «rico». Sem dúvida que é trabalhador e a sua declaração de rendimentos justifica-o: 265 mil euros auferidos, em 2010, dos quais 64 mil reverteram para as Finanças. Para um trabalhador, esta verba é fabulosa, ainda que por pouco não ficava de fora do escalão mais alto de IRS. Mais fabuloso ainda é saber que um indivíduo que leva para casa, anualmente, 201 mil euros consegue atingir a 200.ª posição da lista de homens mais ricos do mundo, em 2010, publicada pela Forbes, com uma fortuna avaliada em 3,6 mil milhões de euros! Porém, curioso mesmo é o facto de saber que, em 2010, Américo Amorim ocupava o 212.º lugar nesta mesma lista, com uma fortuna de 3 mil milhões de euros. Pergunta para quem saiba um mínimo de matemática: €3.000.000.000 + €201.000 = €3.600.000.000? Onde pára o diferencial de €599.799.000? Como é que, em 2009, Amorim tinha uma fortuna declarada de 2,6 mil milhões de euros e acrescentou mais 400 milhões de euros de um ano para o outro? Como é que alguém que aufere 265 mil euros num ano consegue capitalizar o seu vencimento desta maneira e entrega 64 mil euros ao Estado quando a maioria dos portugueses sacrifica uma parcela bastante maior da sua riqueza (sendo riqueza um eufemismo)? No final, os rendimentos declarados por Américo Amorim, em 2010, corresponderam a 0,03% do total do seu enriquecimento. Algo de errado se passa aqui, mas Américo Amorim não é o único: Alexandre Soares dos Santos, que ocupa o 512.º posto da lista da Forbes, em 2011, com uma fortuna de 1,65 mil milhões de euros, declarou 1,2 milhões de euros, em 2010, dos quais 520 mil foram pagos às Finanças. Em 2009, a sua fortuna era de 1,015 mil milhões de euros, ou seja, em 2010, o patrão do Grupo Jerónimo Martins enriqueceu mais 635 milhões de euros. O seu vencimento líquido de 2010 (680 mil euros) corresponde a cerca de 0,1% do enriquecimento que teve nesse mesmo ano.
Só estes exemplos já me parecem duas boas razões para aprovar um imposto, qualquer um, sobre os mais ricos: é-me indiferente se lhe chamam de capitais, de património ou até de «porque sim». Há dinheiro a circular, gente a enriquecer e os que não têm dinheiro a pagarem as dívidas do Estado. Em 2009, a riqueza dos 100 mais abastados, em Portugal, correspondia a 32 mil milhões de euros, o equivalente a 19% do PIB desse ano. Já que gostamos de justificar medidas pouco populares com «as boas práticas europeias», se em Portugal se seguisse o exemplo da França - onde patrimónios iguais ou superiores a 790 mil euros estão sujeitos a uma taxa que varia entre 0,55% e 1,8% -, o Estado encaixaria 576 milhões de euros e evitaria o corte no subsídio de Natal de todos os portugueses. Em França, a vigência deste imposto em solo francês não é suficiente para afastar capitais, ao contrário da ideia que alguns fiscalistas andam a promover na nossa praça.

Por este motivo, a criação de um imposto sobre o património é uma medida que vai para além do necessário: é uma questão de salvação nacional! Aprovem um imposto sobre o mercado de capitais. O Bloco de Esquerda desta vez tem razão. Tal como prometeu aos portugueses, por duas vezes, relativamente ao agravamento do IRS e ao imposto extraordinário sobre o subsídio de Natal, o Governo que repita o procedimento e explique aos mais ricos a necessidade de (i) tributar, «com carácter extraordinário», patrimónios superiores a 790 mil euros e (ii) aprovar uma lei penal extravagante e igualmente «extraordinária» para impedir as fugas de capitais.

Senhor Primeiro-Ministro, comunique aos mais ricos que vivemos tempos difíceis e o país precisa deles. Apele ao patriotismo deles! Explique-lhes que vão continuar muito ricos e que daqui a um ano poderão voltar ao seu «trabalho de enriquecimento» habitual. No fim, tal como fez relativamente ao anúncio do imposto extraordinário, diga às câmaras de televisão o seguinte: «não tenho dúvidas que [os mais ricos] certamente compreendem a gravidade da situação que o país vive e aceitam fazer o sacrifício». Acredite, senhor Primeiro-Ministro, eles compreenderão tanto como nós. Afinal, são pessoas inteligentes e é essa inteligência (juntamente com o seu quê de esperteza) que faz com que, actualmente, sejam os mais ricos de Portugal.