Derrubaram-se ditadores (alguns dos quais lideravam países com índices de desenvolvimento apreciável) para se semear a instabilidade e a anarquia. Foi para isto que serviu a Primavera Árabe. Duvido que alguém defenda este género de democracia.
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quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Agora é que o Magrebe está bom (e o Iraque também)
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segunda-feira, 24 de outubro de 2011
O Kadhafi morreu, vivam os novos Kadhafis.
Kadhafi foi um malfeitor, ditador, que muitas atrocidades cometeu. Os líbios, mais do que qualquer outro povo, saberão o que foi sofrer durante os 42 anos que Kadhafi esteve no poder. Porém, a forma como aconteceu a morte do «Rei dos reis» foi tudo menos honrosa. Até o terem assassinado de forma bárbara e cobarde - com dezenas a rodearem um moribundo tudo se torna mais fácil -, tudo me pareceu aceitável: o cerco, a humilhação pública e até as agressões. Duas dúzias de socos parece-me pouco para tudo o que fez enquanto esteve no poder.
Acho preocupante que um Estado, que se quer enquanto tal, falhe os seus fins logo nos seus primeiros minutos de vida nova. A segurança é um fim básico que o Estado deve prosseguir, a justiça idem. Pelo meio ainda existem as chamadas garantias de defesa do arguido, seja ele quem for. Esta regra é tão elementar quanto reconhecer que sem vida humana não há sociedade, comunidade ou Estado. A nova Líbia teve a oportunidade de mostrar ao mundo que sem Kadhafi a realidade pode ser diferente, mas falhou neste objectivo. Pelo contrário: mostrou que Kadhafi foi deposto, mas centenas de novos Kadhafis poderão agora proliferar por toda a Líbia. Afinal, que «democracia» é essa que se mostra incapaz de fazer um julgamento minimamente digno e patrocina execuções sumárias?
P.S.: Estranha a reacção da ONU que se aprontou a exigir um inquérito para investigar a morte de Kadhafi. Já sabemos que os resultados são inconclusivos, mas a Comissão de Direitos Humanos da ONU teria ficado bem na fotografia em Maio passado se também tivesse ordenado um inquérito para apurar as circunstâncias em que Osama bin Laden foi assassinado.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Os «amigos de Khadafi»: não aprendeu nada com Portugal.
Diz-se que é na hora do aperto que se vêem os amigos. Na diplomacia a resposta depende do que os «amigos» - alguns chegam a ser chamados «aliados» - têm para dar ao Estado em causa. Portugal, por exemplo, é caso raro no mundo inteiro na medida em que mantém amizades com quase todos os países, mesmo aqueles com interesses claramente divergentes: dos Estados Unidos ao Irão e à Venezuela, passando pela China e pelo Zimbabué - ao mesmo tempo que Lisboa desafia Londres e a mais antiga aliança diplomática do mundo.
Já durante a II Guerra Mundial, a habilidade de Salazar era tal que Portugal conseguiu garantir a neutralidade quase até ao fim da Guerra, assegurando os apoios político-militares de Estados Unidos e Inglaterra e, simultaneamente, cumprindo (e até melhorando) acordos comerciais com a Alemanha. Pelo meio, (i) fazia babysitting à Espanha do General Franco, (ii) mantinha a Itália convicta da sua lealdade aos países do Eixo, (iii) ajudava a Finlândia a resistir da forma possível à invasão nazi e (iv) ajudava à evasão de judeus com e sem autorização do Estado Novo - antes do afastamento de Aristides de Sousa Mendes do Consulado de Portugal em Bordéus, Salazar autorizou a passagem de mais de 100.000 refugiados por Território Nacional, tendo apenas alterado a sua posição quando o apoio aos refugiados se descontrolou ao ponto de comprometer a neutralidade portuguesa, logo, a segurança nacional, ao mesmo tempo que os britânicos se queixavam de Sousa Mendes estar a cobrar um «imposto especial» em troca da «caridade portuguesa».
Infelizmente, a Líbia de Khadafi nunca teve a mesma habilidade portuguesa para jogar em vários tabuleiros ao mesmo tempo. Os regimes populistas têm muitos defeitos e um dos maiores é a demonstração de força que se faz perante a Comunidade Internacional para garantir o respeito do povo: desafiar Barack Obama numa qualquer televisão estatal, com paradas militares pelo meio, pode ter mais força do que ameaçar a população contra a subversão do Estado. Basicamente, Khadafi conseguiu manter amigos apenas enquanto controlou o negócio do petróleo. Assim que surgiu no horizonte a possibilidade deste negócio ser controlado por personalidades dispostas a agradarem ao Ocidente, os «amigos de Khadafi» não hesitaram e passaram para o outro lado, mesmo que um destes dias os últimos sejam apunhalados pelos seus novos amigos. Não seria a primeira vez que tal acontecia, veja-se Bin Laden e o potencial de exacerbação que o nacionalismo e a religião têm.
Agora que o regime de Khadafi chegou ao fim, é fácil querer responsabilizar a parte derrotada. Em Março de 2011, Luís Amado enviara uma mensagem ao líder líbio, informando-o que o regime «acabou». Foi fácil mandar recados: Khadafi perdia em toda a linha e o fim parecia iminente. Assim que a ofensiva rebelde/NATO se prolongou mais do que o esperado e Khadafi começou a recuperar terreno, duvido que Amado não tenha balbuciado, uma vez que fosse, um «e se o gajo ganhar isto?». Optou-se, então, e bem, pelo silêncio, como devia ter acontecido desde o início. Este silêncio será oficialmente quebrado muito brevemente e só após análise ao encontro entre Paulo Portas e a delegação líbia ligada ao Conselho de Transição, que apenas surge no momento em que há a convicção de que o regime de Khadafi (finalmente) caiu.
Ainda assim, convém não nos esquecermos que, uma vez mais, uma série de entidades permitiu que o poder de Khadafi chegasse ao ponto a que chegou. Entre os principais culpados aponto desde logo (i) a União Europeia, com excepção da Itália, que, curiosamente, foi a primeira a virar as costas ao velho «aliado»; (ii) os Estados Unidos e um Presidente que ainda há dois anos tirava fotografias a apertar a mão a Khadafi e ontem insistiu, uma vez mais, para que o coronel abandonasse o poder; (iii) o Reino Unido, que, em Agosto de 2009, entregou Abdel Basset al-Megrahi, o autor dos atentados de Lockerbie, à Líbia, sob o pretexto de este padecer de um cancro em fase terminal, quando, na verdade, Londres transferiu o terrorista para celebrar um acordo petrolífero entre a BP e Tripoli - recorde-se que al-Megrahi foi identificado num evento na Líbia realizado em Julho de 2011.
Será Khadafi o único a ter de responder por crimes de guerra e contra a humanidade?
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