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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ainda as eleições na Madeira: a suspensão do mandato de José Manuel Rodrigues.

A votação em massa em Alberto João Jardim foi acompanhada de uma série de «irregularidades» (para ser simpático) que num qualquer país africano teria como consequência episódios passíveis de, ao fim de um bom par de anos, serem julgados num qualquer tribunal penal internacional. É certo que por estas bandas somos mais ordeiros e ainda acreditamos numa instituição chamada Comissão Nacional de Eleições, mas a Madeira não deixa de estar localizada na mesma linha de Tripoli e a sul de Rabat. Quer isto dizer que as eleições reúnem as condições necessárias para serem impugnadas, mas ninguém parece ter grande vontade em fazê-lo com que conformados com a vitória do PSD.

Os resultados de ontem podem ser interpretados de duas formas diferentes:
  • Quase metade dos votantes elegeu Jardim por entender que, nesta altura, e mais do que nunca, só o eterno Presidente do Governo Regional os poderá poupar à austeridade que o continente imporá (?) e o crescimento da oposição é paradigmático da crescente perda de confiança em Jardim e na sua clique;
  • Essa mesma quase metade dos votantes permanece fiel a Jardim, porque sim, e os que votaram na oposição fizeram-no por pretenderem apenas um novo rosto que os poupasse aos embaraços com o continente.

Temo que a segunda leitura seja a mais realista. Ainda assim quero acreditar na primeira. Afinal, com ou sem Jardim na liderança, os sujeitos do costume prosseguiriam a sua obra. Porém, preocupa-me o que ocorrerá dentro de 4 anos: apesar de Jardim ser, em 2015, já demasiado avançado em idade (com 72 anos), continua por aprovar uma alteração ao Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma da Madeira que limite a cumulação de mandatos pelo Presidente do Governo Regional. Acredito que o desfecho do braço-de-ferro com o continente poderá ser decisivo para saber se terá lugar uma eventual sucessão a Jardim dentro da elite social-democrata madeirense. Julgo que apenas uma clara vitória de Jardim legitimará a sua recandidatura em 2015, ao mesmo tempo que uma derrota contundente poderá antecipar a sua saída alegando falta de condições de governação.

É neste quadro que importa contar com a melhor oposição que a Madeira alguma vez conheceu. O CDS-PP tem motivos de regozijo pelo excelente resultado conseguido e importa agora capitalizar os 9 mandatos conquistados através de uma oposição séria e implacável com o Governo Regional procurando fragilizar o poder sem, contudo, lesar os interesses dos madeirenses. Depois de anos na penumbra e no marasmo oposicionista, a Madeira parece ter agora em José Manuel Rodrigues o primeiro grande rosto da oposição local. Se o líder madeirense apresentar um trabalho competente e mantiver o perfil aguerrido que o caracterizou ao longo da campanha será legítimo sonhar mais alto dentro de 4 anos.

O actual momento é único para o CDS-PP e para a oposição madeirense que ambiciona a queda do PSD na Região Autónoma. Se o caminho não for traçado ao longo dos próximos 4 anos - período findo o qual se adivinha a sucessão a Jardim -, muito dificilmente a oposição terá nova oportunidade para almejar o que quer que seja nos (pelo menos) 12 anos seguintes e mergulhará novamente na penumbra com um novo Presidente do Governo Regional. Nunca a oposição esteve tão perto de ser alternativa como agora, mesmo apesar de nova maioria absoluta dos sociais-democratas.

É por tudo isto que não consigo compreender o motivo porque José Manuel Rodrigues e o CDS-PP decidem desperdiçar a soberana oportunidade de se afirmarem na Madeira desde já - e, simultaneamente, crescerem ao nível nacional através do respeito conquistado junto dos portugueses no combate a Jardim - optando o ex-futuro líder da oposição madeirense por renunciar ao mandato no Parlamento Regional para permanecer como deputado na Assembleia da República. O rosto da oposição é José Manuel Rodrigues e não qualquer um dos restantes oito - não querendo, porém, colocar em causa a competência dos mesmos. Adiar a sua entrada em cena parece-me uma estratégia muito arriscada num período demasiado delicado para a Madeira, até porque as «grandes decisões» sobre a região poderão ser tomadas com José Manuel Rodrigues a fazer oposição no arquipélago e em coordenação simultânea com o grupo parlamentar do continente.

domingo, 9 de outubro de 2011

Alberto João Jardim com maioria absoluta na Madeira: errar é humano.

O povo é bovino, já dizia o outro, mas não gostam que o chamem de tal. As pessoas gostam de permanecer na ignorância e/ou persistir no erro. Não gostam de ser chamadas à atenção. É uma questão de teimosia e orgulho ou, em alguns casos, gratidão e reverência. Somos humanos e erramos. Insistir no erro também é humano mas já começa a entrar no campo da acefalia e, quiçá, da patologia. Também já fui acéfalo, confesso. Se eu fosse contar o número de vezes e os assuntos em que já me comportei como «eleitor que votou hoje em Alberto João Jardim», amanhã ainda estaríamos aqui. Duvido que seja o único no continente a fazer semelhante desabafo.

Paguei pela maioria destes meus erros - muitos deles mais ingénuos do que votar no Alberto João - e ainda devo algumas prestações à casa! Noutras tantas vezes, alguns inocentes pagaram pelos meus erros juntamente comigo. Isto tudo para dizer que a maioria dos eleitores madeirenses deve ser perdoada por mais um entre tantos erros. No continente não há muita moral para apontar o dedo à acefalia alheia, porque mais de 2 milhões de eleitores votaram há pouco mais de 4 meses no PSD de Pedro Passos Coelho que está a dar continuidade à «bela obra» deixada pelo PS de José Sócrates. Mais de 1 milhão e meio de eleitores votou novamente no PS. Antes destes, os portugueses insistiram em dar votos de confiança a outros com nomes diferentes mas iguais na incapacidade de gerir um Estado. Até eu já me enganei e votei uma vez PSD. Aprendi com o erro. Não me permiti a acefalia. Definitivamente, não há legitimidade para culpar os madeirenses. Perdoem-nos como gostariam que vos perdoassem pelo que fazem.

Dizer que o PSD não é o mesmo que Alberto João Jardim é passarem-me um atestado de estupidez: o símbolo é o mesmo, a cor é a mesma e o partido, se fosse sério, podia ter tirado a confiança política a Alberto João Jardim, obrigando-o a concorrer pelo Partido Trabalhista ou pelo Partido dos Animais. Não visitar o arquipélago apenas poupou alguns cobres ao partido. Mas quem quis votar na continuidade fê-lo colocando uma cruz no PSD, os apoios estão lá e a factura pela publicidade e pelos comícios vai parar à São Caetano à Lapa.

Quanto aos resultados, não há muito a dizer: o CDS-PP teve um resultado estrondoso, mas a maioria absoluta do PSD mitiga (e de que maneira) esta vitória centrista. Alberto João Jardim não quer saber dos «cartões amarelos» que muitos dizem que foram mostrados hoje ao partido e lançou o alerta para isso mesmo. Alberto João Jardim não quer saber de ninguém e vai continuar a governar como quer, até porque dificilmente concorrerá às próximas eleições. Assim, ter 9 deputados ou 20 é completamente irrelevante. A maioria é de Alberto João Jardim e o resto é conversa. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Passos Coelho e a Madeira: Dr. Jekyll and Mr. Hyde.

Pedro Passos Coelho considera que «não seria compreensível que o Primeiro-Ministro (...) se envolvesse na campanha eleitoral da Madeira», afastando, deste modo, a participação em qualquer acção de campanha de Alberto João Jardim. Sei, de fonte normalmente segura, que um contrariado Passos Coelho tinha agendada a presença em, pelo menos, um evento, o qual estaria apontado para o último dia de campanha. Engolir um sapo chamado Alberto João Jardim já fazia parte dos deveres de qualquer líder social-democrata - nenhum teve coragem para arriscar a perda da Madeira para o Partido Socialista.

A declaração de Passos Coelho intriga-me, sobretudo porque o que considero não ser verdadeiramente «compreensível» é o facto de o Primeiro-Ministro entender que «não seria compreensível» que «se envolvesse na campanha eleitoral da Madeira», tentando passar uma imagem de censura pela situação «grave e irregular» que se vive no arquipélago, mas o seu partido patrocinar a candidatura daquele que tornou tudo isto possível! Em que ficamos? O Pedro Passos Coelho Primeiro-Ministro não apoia Alberto João Jardim, mas o PSD liderado por Pedro Passos Coelho, sim. Afinal, no próximo dia 9 de Outubro, quem quiser votar Alberto João vai ter de votar PSD!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Alberto João Jardim e a Madeira: uma história com juras de amor, dinheiro, traições, vilões, drama e até heróis!

A relação de Alberto João Jardim com a Região Autónoma da Madeira emociona-me, desde logo, por se tratar de um romance que se passa num arquipélago semi-exótico e caracterizado pelas (i) constantes juras de amor eterno das duas partes - ele diz que a ama e a quer desenvolver e ela responde com maiorias atrás de maiorias -, pelas (ii) traições - de bastardos, dos filisteus, dos fidalgos do continente e dos supostos colegas de partido - e (iii) por todo o drama que essa situação acarretou ao longo dos últimos 30 anos.

O dinheiro envolvido no negócio para que a relação desse certo nunca foi novidade: o homem, qual macho à moda antiga, tinha de garantir o sustento de uma mulher que perdeu o honroso estatuto de «pérola do Atlântico» e virou meretriz, tornando-se refém de um marido pouco abastado mas que gosta de dar ares de rico. Na verdade, não encontro mais nenhum adjectivo para rotular os populares que ainda hoje vão para a televisão defender um pródigo que devia ser inabilitado pelo PSD e acham que vale tudo, até descontrolar as contas públicas, desde que a Madeira tenha estradas, casas construídas em falésias e uma marina offshore.

No mais recente episódio da novela, Alberto João Jardim justifica a ocultação de 1.113 milhões de euros de dívida como tratando-se de uma omissão em «legítima defesa». Um acto heróico, sem qualquer dúvida: Alberto João sacrificou os interesses nacionais para salvar uma Região Autónoma que, segundo ele, tem sido abandonada pelo continente. Não sei quanto à maioria dos madeirenses - na verdade até sei -, mas nós, aqui do continente, apreciamos pouco os «heróis» que para o serem necessitam de comprometer o futuro de um Estado com quase 900 anos. Neste momento preferimos os «cobardes», menos ambiciosos e mais poupadinhos, que nos ajudem a sair do buraco onde os «heróis» dos últimos 37 anos nos meteram.