À semelhança do que aconteceu no ano anterior, repito a iniciativa de eleger a Personalidade do Ano de 2014. Uma vez mais, volto a fugir às escolhas feitas pelas correntes dominantes que insistem em visitar alguns lugares comuns como que querendo dar outra cor ou maquilhar o mundo que nos rodeia.
Quem acredita que a TIME escolheu os insossos Ébola fighters e acredita, piamente, que são a Personalidade do Ano provavelmente anda a dormir - e eu bocejei quando li este anúncio. O entusiasmo em torno desta escolha foi tanto que a notícia da influente TIME nem sequer mereceu comentários, apenas notas de rodapé nos telejornais. O motivo é claro: o Ébola não estará, sequer, entre os 5 principais acontecimentos do ano.
Outras escolhas do género serão feitas, bem como outras politicamente correctas e elogiosas e só se voltarão para a escolha feita por mim se for para lhe juntar críticas severamente negativas.
A Personalidade do Ano de 2014 parece-me, uma vez mais, não oferecer quaisquer dúvidas: Vladimir Putin.
Já me assumi por diversas vezes como «tendencialmente Putinista, essencialmente em política externa, mas não de forma incondicional». Faço-o novamente, mas, sem recorrer a elogios ou críticas, passo a justificar o porquê de Putin ser, de longe, a Personalidade do Ano de 2014:
- A realização dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi conseguiu concentrar as atenções num evento ao qual ninguém costuma dar grande importância, a não ser alguns países com tradição em desportos de inverno. A questão dos homossexuais - que Putin fez questão de sublinhar que o País nada tem contra eles, apenas não é permitido na Rússia que se promovam comportamentos sexuais não tradicionais junto das crianças - foi apenas um motivo de tensão para o qual contribuíram algumas provocações do lóbi gay - e que até contou com a presença das Pussy Riot que muitos receavam que não pudessem ser vistas na Rússia.
- Numa altura em que a aproximação do Ocidente do Irão voltou a esfriar, Moscovo reforça os laços com Teerão e os dois países celebram novos acordos comerciais. Putin vai ainda mais longe e contribui para a diminuição da pressão ao Irão em torno do nuclear ao propor-se a construir 8 centrais nucleares em solo iraniano e algumas fontes indicam que a Rússia poderá mesmo assumir responsabilidades na transferência do urânio que exceda os níveis necessários para a exploração da energia nuclear para fins civis.
- A Rússia viu a sua economia atingida por inúmeros factores, havendo quem se proponha a anunciar o colapso financeiro definitivo de Moscovo. A sociedade civil russa agitou-se significativamente e a tensão ainda paira consideravelmente mas Putin tem procurado acalmar o país dizendo que o que se passa se deve a factores externos e que prevê o regresso à normalidade e ao crescimento em dois anos. Quem tem razão?
- A UE pressiona a Bulgária a rejeitar o oleoduto russo? Não há problema, Putin aproveita o impasse nas conversações entre EUA, UE e Turquia relativamente ao Estado Islâmico e até ao próprio processo de integração da Turquia na UE para propor acordos comerciais e energéticos com Ancara. A Turquia é um actor de peso com funções estratégicas na região e até mesmo na NATO e junto dos países ocidentais. Ressalve-se, porém, que esta aproximação não se estende a matérias políticas e diplomáticas… ainda!
- O "lingrinhas" até pode dar um murro com toda a força no "armário" e crer que provoca estragos quando se limita a fazer alguma comichão, mas se voltar a repetir a façanha, como fez a UE, então está na hora de mostrar quem manda. E o impacto do golpe russo não se fez esperar, a Polónia que o diga. Quanto à justiça das sanções, parece que dentro da UE há quem se insurja contra uma União que insiste em seguir a reboque dos EUA.
- Às vezes não é preciso atacar, basta dizer "presente"!
- Até a vida sentimental foi abordada com estilo e discrição sem precisar do espalhafato da imprensa cor-de-rosa ocidental.
- Também a sua visão do acordo Molotov-Ribbentrop causou mal-estar.
- A Cimeira do G20 realizada em Brisbane (Austrália) foi mais notícia do que é habitual devido à presença de… Vladimir Putin. Os meios de comunicação ocidentais (incluindo os portugueses) apressaram-se a tentar fragilizar o líder russo transmitindo a imagem de um "Putin isolado". Sucede que numa cimeira com a participação de 20 países, apenas 5 (EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália e Japão) o fizeram. Os restantes 14, não. E esta "minoria" que não isola Putin tem mais poder que o Ocidente. Como sublinhou Putin em entrevista ao canal alemão ARD, «o PIB combinado dos países BRICS (…) já é mais elevado que o do G7 no seu conjunto». Nenhum BRICS isola Putin e o pior cego é o que não quer ver.
- Não nos esqueçamos do famoso MH17 da Malaysian Airlines que foi atingido na Ucrânia. De um lado, a pressa de acusar Putin, do outro, a pressa em devolver as acusações. Onde está a verdade e a culpa não se sabe, mas que o centro das atenções volta a ser o mesmo (Putin), que não haja a menor dúvida.
- Na Ucrânia, tem sido insistente a defesa de um cessar-fogo, mas não de forma incondicional.
- Na questão da Síria, razão parece ser dada a Putin e a Rússia não tem hesitado em denunciar a violação ao Direito Internacional pelos EUA.
- Apesar de não irem à bola com ele, parece que lá é considerado o homem mais poderoso do Mundo...
Estou disponível por conhecer os argumentos em favor de alguém que melhor justifique ser Personalidade do Ano de 2014 do que Putin.
P.S.: Até ao lavar dos cestos é vindima e ao escrever este artigo 6 dias antes do final do ano corria o risco de não incluir importantes eventos ocorridos ainda em 2014, como a notícia hoje publicada sobre o anúncio da nova doutrina militar russa.
P.S.: Até ao lavar dos cestos é vindima e ao escrever este artigo 6 dias antes do final do ano corria o risco de não incluir importantes eventos ocorridos ainda em 2014, como a notícia hoje publicada sobre o anúncio da nova doutrina militar russa.

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