O recente anúncio de eminente perdão da dívida grega - que pode ir até 60% (!) - lança, desde logo, uma pergunta: vale a pena toda esta austeridade que insiste em castigar os portugueses por dívidas que não conheciam nem contraíram? A boa notícia é que não serão só os gregos a ter de passar pelo perdão da dívida para se conseguirem manter em pé. A má notícia é que falta vontade política - para não utilizar outra expressão - para saber lidar com os credores e com as organizações.
Conforme tive oportunidade de referir inúmeras vezes neste espaço - aqui, aqui e aqui -, é uma questão de tempo até que a dívida portuguesa tenha de ser renegociada e os motivos são três e são simples: não há nenhuma economia no mundo que tenha recuperado sem medidas que a dinamizem e com medidas que visem apenas redução na despesa e aumento de impostos; em segundo lugar, desconheço outra economia que se tenha reerguido com base na dependência do exterior e na falta de incentivos ao sector empresarial interno; e, finalmente, considerando que os consumidores são os verdadeiros impulsionadores da economia, a redução do poder de compra destes reduz o consumo e agudiza a recessão.
Assim sendo, e como também já tive oportunidade de referir, não são só os Estados como a Grécia, Irlanda e Portugal que estão reféns dos credores e das instituições, também estes têm muito a perder, mais não seja o investimento feito até ao momento em títulos de dívida e, no caso da União Europeia, também na estabilidade da moeda única. É uma típica cena final do filme «Cães Danados»: ou largam todos as armas e encontram uma solução justa que acautele os interesses das partes ou acabam todos mortos. Vamos fazer contas.
Inexplicavelmente (ou talvez não), os Estados visados acederam quase incondicionalmente às condições impostas, assistindo-se a uma subserviência que foi ainda mais além em Portugal e só parou na Grécia por manifesta incapacidade para cumprir obrigações que dificilmente qualquer outro Estado conseguiria cumprir. Precisamos, mais do que nunca, de governantes à imagem dos grandes que, após vários séculos, ainda são recordados nas aulas de História e nos livros. Faltam-nos homens como o Duque de Palmela, o Conde de Ávila ou Levy Maria Jordão, três personalidades que, em pleno século XIX ousaram desafiar a Inglaterra pelas possessões portuguesas no estrangeiro e, mesmo perante condições extremamente adversas, tiveram a audácia de vencer e ver as suas façanhas reconhecidas ao nível global. Não fossem eles, além de tantos outros, e hoje Portugal não existia.
É muito difícil encontrar um líder da actualidade que ouse desafiar as grandes potências europeias com base em motivações estritamente nacionalistas. Se o tivéssemos, a primeira opção passaria por engendrar uma solução, desse por onde desse, que impedisse o país de continuar a ser explorado injustamente às mãos de meia dúzia de mabecos com aspirações ilegítimas. É feio incumprir ou aceitar condições (ainda que usurárias) para satisfazer meia dúzia de interesses privados, mas há créditos que já estão mais do que pagos e é preciso acabar com eles. Uma solução já foi aqui apresenta por mim, mais concretamente aqui.
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