António Pires de Lima é, actualmente, empresário e Presidente do Conselho Nacional do CDS-PP. Apesar de ser assediado pelos órgãos de comunicação social para se pronunciar sobre a situação do País, convém não confundir António Pires de Lima com o pai (António Pais Pires de Lima), antigo Bastonário da Ordem dos Advogados, ou com o Professor Fernando Andrade Pires de Lima, que, entre um tão rico currículo, integrou a Comissão Redactora do Código Civil de 1966 e foi Ministro durante o Estado Novo.
O brilhantismo destes dois juristas não se confunde com o economista e mestre em administração de empresas que denota uma crise de identidade inexplicável. Compreendo que na vida mudemos de opinião sobre os mais variados assuntos, mas chega a ser assustadora a frequência com que António Pires de Lima muda de opinião sobre a mesma matéria. Na verdade, questiono se António Pires de Lima tem mesmo «opinião» sobre o tema da austeridade (quiçá também sobre outros). Aquilo a que muitos chamam «opinião», e devia ter um mínimo de coerência ou duração - nem que sejam dois dias -, em Pires de Lima varia ao mesmo ritmo com que muda o estado do tempo.
Na verdade, as várias oscilações de António Pires de Lima sobre o tema austeridade mais se assemelham à instabilidade meteorológica em Portugal. De facto, a sua opinião ilustra, na perfeição, as 4 estações do ano sob a forma neurológica:
- Hoje, alerta amarelo, com persistência de valores baixos de temperatura e vento forte na abordagem ao aumento de impostos e nas terras altas a norte do rio Tejo, com maior incidência sobre o Largo Adelino Amaro da Costa;
- Amanhã, céu pouco nublado ou limpo com subida da temperatura máxima na ordem dos 20 graus na austeridade, o que poderá trazer algum desconforto térmico aos militantes centristas que não apreciam a mudança repentina do estado do tempo;
- Terça-feira, nevoeiro matinal e forte agitação marítima por influência de um anticiclone a noroeste dos Açores e depressão cavada perto da Assembleia da República, o que gerará ventos fortes passíveis de abanar a coligação;
- Quarta-feira, prevê-se uma descida das temperaturas mínima e máxima em 6 graus, devendo ainda ocorrer curtos períodos de chuva sobre o brutal aumento de impostos, terminando o dia com céu limpo e uma ligeira brisa, podendo mesmo avistar-se o arco-íris na costa vicentina, ilustrando a aliança entre PSD e CDS.
Esta mudança do estado do tempo tem sido identificada ao longo dos últimos meses, senão vejamos as declarações de António Pires de Lima:
- «Não existe outra alternativa ultrapassar esta crise senão pela austeridade» - 10 de Março de 2012;
- «Estou muito pessimista. Já não estava muito otimista sobre o desempenho económico de Portugal em 2013, porque nós, empresários e gestores, estamos a sentir uma quebra de consumo brutal com estas medidas de austeridade» - 6 de Julho de 2012;
- «Só se consegue compensar este desvio de 2 mil milhões de euros [de subsídios aos funcionários públicos que o Estado terá de repor] fechando as escolas, de forma maciça, fechando hospitais, sem grande critério, e cortando em serviços que são absolutamente básicos e, esses sim, fundamentais para todos os cidadãos, nomeadamente aqueles que são mais carenciados. Portanto, eu creio que estamos na iminência, com uma altíssima probabilidade de este Governo ter de propor impostos, aumento dos impostos sobre o trabalho, em 2013, o que, do meu ponto de vista, é a pior solução possível (...) para a economia, para o crescimento e para a criação de emprego [ou seja, vamos cortar nas escolas e nos hospitais]» - 7 de Julho de 2012;
- «Se aumentarmos os impostos, podemos criar uma ilusão contabilística de que vamos equilibrar o Orçamento no próximo ano» - 11 de Julho de 2012;
- «Se desta questão vier a resultar a inevitabilidade de aumentos de impostos substanciais no Orçamento de 2013, esta é uma situação que vai causar mal-estar no CDS. Ou pelo menos em muito militantes do CDS» - 11 de Julho de 2012;
- «O CDS não acredita na receita e mais impostos significam menor crescimento» - 11 de Julho de 2012;
- «Mais impostos ou mais taxas sobre os privados é financiar o problema» - 27 de Agosto de 2012;
- «Pires de Lima admite que CDS não está conformado com medidas de austeridade» - notícia da Rádio Renascença, de 12 de Setembro de 2012, que alegou que Pires de Lima não quis que as suas declarações ficassem gravadas;
- «É forçoso reconhecer que adicionais medidas vão ser necessárias para conseguir a consolidação orçamental em 2013 e 2014» - 18 de Setembro de 2012;
- «O povo português é extraordinário, a forma como entende sacrifícios é quase única na Europa» - 18 de Setembro de 2012;
- «Algum aumento de impostos é compreensível» - 24 de Setembro de 2012;
- «Aumento de impostos é indesejável para as empresas e para as famílias» mas «torna-se mais ou menos inevitável aceitar um aumento de impostos em 2013» - 10 de Outubro de 2012;
- «Este Orçamento, tal como está, representa um risco sério para a economia no próximo ano (...), mas a situação creio que seria ainda pior se entrássemos numa crise política» - 16 de Outubro de 2012.
Pergunto: o que vai Pires de Lima pensar amanhã? É isto a Democracia Cristã? Com quem tem o CDS-PP um compromisso: com os eleitores (com os portugueses) ou com o Governo? Onde estão a coerência e as promessas eleitorais? Porque motivo enviou Paulo Portas uma carta aos militantes a dizer que era contra o aumento de impostos?
Enfim, será por estas e por outras que não só Pires de Lima nunca será doutrina e um político que ficará para a história como o CDS se deve preparar para mais uma travessia no deserto... esta, sem fim à vista.
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