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domingo, 12 de janeiro de 2014

XXV Congresso do CDS-PP: curtas (II)

Findo o XXV Congresso do CDS-PP, importa fazer um breve balanço dos acontecimentos.

1- Sim, foi um dos primeiros discursos que mais contagiaram o Congresso. Mas o público não só não é hostil como é fácil quando fala um centrista como Nuno Melo. Quer isto dizer que o universo centrista se deixa contagiar só com a sua presença e entra em euforia com qualquer coisa que diga. Isto é importante considerar porque devemos avaliar o discurso de Nuno Melo como infeliz. O Eurodeputado esteve muito mal nas críticas que fez a Filipe Anacoreta Correia, sobretudo com considerações como o «fogo amigo também mata». Fazer afirmações desta natureza apenas porque alguém critica o rumo seguido por Paulo Portas e teria considerado candidatar-se à liderança do Partido devia constituir um abre-olhos para os militantes porque é uma demonstração clara do que é o CDS-PP actualmente: um Partido que reage muito mal a críticas e diferenças de opinião internas e tem dificuldades em gerir a mínima oposição que seja à corrente dominante. As palavras de Nuno Melo, querendo inflamar os ânimos e inspirar os congressistas a olharem para Anacoreta Correia como um elemento que está «na trincheira» do inimigo é extremamente lamentável. Aliás, acredito que só não se foi mais longe na tentativa de silenciar as críticas porque estamos num Congresso, a comunicação social acompanhou exaustivamente o evento e estavam milhares de olhos postos nos acontecimentos. Caso contrário, sei bem que o Movimento Alternativa e Responsabilidade, por maior ou menor oposição que faça, não teria tido a mínima hipótese de participar sem oferecer garantias de não hostilizar o regime.

2- Conforme previsto, Filipe Anacoreta Correia não se candidatou à liderança do Partido. Lamenta-se apenas que tenha ameaçado candidatar-se à liderança - com base em motivos que expliquei aqui ontem - e tenha entrado num caminho sem saída, sem hipóteses de recuo, tornando-se visível a agonia de Anacoreta Correia quando, após ter sido fuzilado pelas intervenções dos pesos-pesados do CDS e perante as atenções de todos e a pressão dos média, ia adiando o inevitável recuo de avanço de candidatura até de madrugada. Engoliram-no e Anacoreta Correia não teve outra hipótese a não ser evitar os telejornais das 20h e da noite não utilizassem o seu recuo como título de notícias e análises que todos os canais fizeram. Assim, restou-lhe esperar que passasse da meia-noite, a maioria dos portugueses já estivesse noutra e disparar alguns tiros de pólvora seca pelo caminho - como aumentar a incerteza de candidatura com a distribuição de panfletos e formalização de listas para tentar intimidar Paulo Portas. Não funcionou. E não funcionou porque Paulo Portas tem uma entourage com lições destas andanças para dar e vender.

3- O que Anacoreta Correia não podia deixar de fazer era apresentar uma moção global. É uma forma de testar a popularidade, ganhar visibilidade e aparecer nas televisões. A sua moção global foi derrotada de forma clara porque os congressistas olharam para ela como sendo uma moção anti-Portas e o resultado que teve só não foi pior porque contou com o apoio de delegados de concelhias dos distritos de Santarém e Porto, entre outros, que votaram nesta moção por quererem apenas votar anti-Portas. Não fosse isso e a derrota seria maior. No entanto, este resultado não surpreende. E não apenas por ser visível o «seguidismo» cego dos militantes em favor de Paulo Portas - que há -, mas porque, mais importante ainda, a oposição interna não existe.

4- Hoje de manhã vi uma militante na TVI24 que dizia que votava Portas porque estava satisfeita com o seu trabalho e, atenção, porque «não conheço o trabalho do Filipe Anacoreta Correia». E tem toda a razão esta militante. O Movimento Alternativa e Responsabilidade aproxima-se mais de um grupo de amigos de Lisboa, Amadora e Linha de Cascais que se reúne, bebe uns copos e jantam juntos várias vezes, do que de um autêntico núcleo de oposição interna. Pergunto: além da única apresentação no Caldas da moção global, em Junho, quantas mais vezes foi apresentada esta moção a militantes de todo o País? Repare-se que entre Junho e Janeiro passaram-se praticamente 7 meses. Não houve apresentação da moção, arregimentação de combatentes, acções de charme junto de militantes de outras concelhias, intervenção no terreno ou sequer campanha nas redes sociais! Apenas uns posts, algumas notícias, meia dúzia de intervenções na comunicação social e muita cautela no tipo de intervenções que cada um faz, assistindo-se a muitos mais louvores ao trabalho desenvolvido pela ala Portas do que propriamente críticas. Não pode ser assim que alguém pode fazer oposição interna ou intitular-se como tal. Basicamente, é como estar em casa a descansar e, subitamente, sair à rua com uma navalha e desafiar o exército dos Estados Unidos da América. O resultado foi o que aconteceu ontem. Anacoreta Correia preparou uma moção global que praticamente ninguém conhece e foi copiosamente chumbada, ameaçou candidatar-se e foi imediatamente eliminado sem apelo nem agravo, dá apoio a alguém que se candidata pela lista adversária e que nem sequer considera o MAR oposição e agora cai no esquecimento até haver uma qualquer crise no CDS e alguém se lembrar de ouvir a oposição interna para preencher mais tempo nos jornais. Lamento que o caminho seja este, até porque há potencial de trabalho, mas, assim, apenas se esbanjam oportunidades. É pena, porque o CDS merece outro rumo.

sábado, 11 de janeiro de 2014

XXV Congresso do CDS-PP: curtas

Declaração de interesses: depois de ter sido eleito Delegado ao XXV Congresso do CDS-PP que não teve lugar na Póvoa do Varzim, no Verão de 2013, optei por, desta vez, não marcar presença dado o desrespeito tido pelo Presidente do Partido com o célebre episódio das pensões que colocou em risco todo um País em nome de ambições particulares. Ademais, participar num evento para encher um lugar e assistir a bajulação de ditadores em massa não é propriamente do meu interesse. Assim, apenas estive disponível para integrar a Lista B e dar algum apoio a esta lista, embora tenha frisado que não tinha qualquer interesse em estar numa posição elegível e, consequentemente, em ser Delegado ao XXV Congresso.

1- O Movimento Alternativa e Responsabilidade (MAR), corrente liderada por Filipe Anacoreta Correia, apresenta Luís Nobre Guedes como candidato ao Conselho Nacional do CDS-PP. O MAR autoproclama-se movimento de oposição interna. Contudo, Nobre Guedes contraria esta ideia e diz que «não é um movimento de oposição, é um movimento de situação».  Sucede que o movimento apoia Luís Nobre Guedes, mas este, que não é próximo de Paulo Portas, só aceita candidatar-se se António Pires de Lima não o fizer. Contudo, António Pires de Lima é o provável candidato de Paulo Portas. Simultaneamente, Luís Nobre Guedes apoia o MAR, que é oposição (ou situação) a Paulo Portas, mas candidata-se por Lisboa a Delegado ao Congresso pela Lista da Direcção de Portas, contra a própria lista que o apoia e que também ele apoia e que se autoproclama oposição, mas que Nobre Guedes não vê como oposição. Confusos?

2- De acordo com o n.º 1 do art. 29.º do Regulamento do XXV Congresso do CDS-PP, «as candidaturas à Presidência do Partido e à Comissão Política Nacional são apresentadas pelo primeiro subscritor de uma Moção Global de Estratégia». Quer isto dizer que podem candidatar-se à Presidência do CDS-PP e à Comissão Política Nacional 7 pessoas: Paulo Portas, Adolfo Mesquita Nunes, Alves Pardal, José Vasco Matafome, Miguel Xara Brasil, Filipe Anacoreta Correia e Nuno Melo.

3- A Moção Global de Nuno Melo aproxima-se mais de Moção Sectorial do que de Moção Global. Considerando o seu conteúdo, perspectiva-se como improvável uma candidatura de Nuno Melo à liderança - a menos que algo de surpreendente e fora do natural acontecesse, como uma hipotética renúncia de Paulo Portas. Miguel Xara Brasil, José Vasco Matafome e Alves Pardal não têm qualquer peso no interior do Partido para avançarem com uma candidatura, além de que o segundo conquistou a Distrital de Santarém de forma algo ortodoxa e não terá abrangência nacional, enquanto o primeiro e o último têm peso meramente ao nível concelhio (Odivelas e Mafra). Basicamente, as respectivas moções são formas de tentarem ganhar visibilidade no partido e alimentarem as respectivas ambições.

4- A Moção Global subscrita por Adolfo Mesquita Nunes é também uma forma de ganhar peso no Partido, mas será ainda demasiado novo para apresentar uma candidatura à liderança. Coloca-se a questão de Anacoreta Correia, que ameaçou candidatar-se à liderança do Partido. Considerando o primeiro ponto e ainda que o próprio tem a perfeita consciência de que se se candidatar à liderança apenas contribuirá para o reforço da legitimidade de Paulo Portas - pois Portas terá um opositor para derrotar e que não teria se fosse o único candidato - e será o rosto de uma provável derrota com contornos humilhantes que podem mesmo comprometer a sua imagem e o seu futuro no Partido, acho altamente improvável que Anacoreta Correia avance. Aliás, acredito que a ameaça de candidatura à liderança do CDS-PP resume-se apenas a uma tentativa de pressão sobre Portas para que este lhe dê mais visibilidade interna.

5- O candidato vencedor será Paulo Portas, vão agitar-se muitas bandeirinhas, vão bater-se muitas palmas e cantar-se muito o hino. Portas avança em coligação com o PSD nas Europeias tendo como bilhete de troca um provável apoio do PSD para que venha a ser o próximo Comissário português sob a provável liderança de Martin Schulz - não se deixem iludir pela conversa de Pires de Lima e João Almeida com a suposta candidatura à Presidência de Paulo Portas, que não é mais do que uma manobra de distracção do prato principal e serve para pressionar o PSD a patrocinar a ida de Portas para a Comissão. O PSD garante, simultaneamente, o apoio do CDS-PP para o próximo candidato presidencial social-democrata de 2016 e Portas prepara a sua sucessão entre 2014 e 2016. Assunção Cristas tem apoios, mas cuidado com João Almeida.