domingo, 15 de maio de 2016

Eurovisão ou a cultura ao serviço da propaganda política

Não é novidade nenhuma que o festival da Eurovisão é visto como mais uma arma de arremesso política. Israel é tudo menos um país europeu mas participa porque o país pode instrumentalizar a Eurovisão para limpar a imagem crescentemente negativa do país - e os sionistas são exímios em propaganda através da cultura.

Neste quadro, o alvo a atacar/prejudicar em cada Festival continua (e promete continuar a ser por algum tempo) a Rússia.

Depois de no ano passado ter ficado em 2.º lugar, após um sistema de atribuição e contagem de votos muito polémico que terá impedido a vitória russa que poderia ter repercussões políticas na Europa, agora foram os acontecimentos de 2016.

Para quem não está a par, a Arménia foi ameaçada comexpulsão porque a cantora que representa o país defraldou a bandeira deNagorno-Karabakh. Mas a Ucrânia aproveita o momento para levar ao festival uma canção sobre a deportação dos tártaros da Crimeia por Estaline, numa clara tentativa de provocar a Rússia e trazer a questão política para debate.

Escusado será dizer que a (novamente) favorita Rússia não ganhou. Quem venceu foi a Ucrânia, sem avisos de expulsão ou sanção. Limpinho, limpinho, limpinho. E ganha ainda o direito de organizar a edição do próximo ano, onde as provocações já começaram relativamente à Crimeia. Isto não é mais do que um brinde para a Ucrânia que tem falhado grosseiramente no seu objectivo de convencer a União Europeia sobre as suas condições para aderir ao bloco ajudando a restaurar algum orgulho nacional. Política das cenouras e bastonadas.


Sergei Lazarev, representante russo na Eurovisão, em 2016

No fundo, esta é mais uma tentativa flagrante de a Europa atacar a Rússia e que até ocorre dias depois de Barack Obama ter organizado um jantar com os países escandinavos para alertá-los para a "ameaça russa" - e os tolos caem que nem patinhos, hipnotizados pelo glamour da Casa Branca.

É praticamente impossível que a Rússia vença a Eurovisão. Não porque o público não queira, mas porque o sistema está feito para impedir uma "humilhação" que reconheça o domínio russo até na área da cultura, por melhores que eles sejam (e são!). No entanto, por mais improvável que seja uma vitória russa, há que continuar a participar, nem que seja para dizer "presente!". Protestos são coisa de criança.

Aliás, podemos mesmo recordar-nos que a última vez que a Rússia venceu um festival da Eurovisão foi em 2008, cerca de duas semanas depois de Vladimir Putin ter saído da Presidência e ter sido sucedido por Dmitri Medvedev. Mera coincidência ou tentativa de manifestação de simpatia com o "American Boy"?


Pode parecer tolice ou trivialidade, mas a instrumentalização da cultura para fins políticos é encarada de forma muito séria e a Eurovisão, pelo estatuto que adquiriu ao longo das décadas e pelo objectivo com que foi criada, está na linha da frente desta Europa cada vez mais desorientada e à deriva.

sábado, 7 de maio de 2016

As Primárias norte-americanas ainda não terminaram

Muitos pensam que as primárias norte-americanas já terminaram e os candidatos resumem-se a Donald J. Trump e Hillary Clinton, mas a corrida está longe do fim e as eleições de Novembro prometem estar ao rubro:
1- Apesar de Ted Cruz e John Kasich terem suspendido as respectivas campanhas, não é líquido que Donald Trump siga tranquilamente para a Convenção republicana em Cleveland, podendo emergir um candidato de última hora ou um qualquer evento que comprometam a oficialização da candidatura de Trump.
2- Os acontecimentos no terreno dão cada vez mais força a Trump: Lindsey Graham e Jeb Bush declararam-se incapazes de votar em Trump, sendo que não apoios destes só dão credibilidade ao provável candidato republicano e tendem a afastá-lo da típica imagem republicana de ligação às classes altas e aos lóbis e à influência dos neocons na política em geral.
3- Os média estão mais macios com Trump e já perceberam que atacá-lo só lhe dá legitimidade. Ainda assim, os analistas continuam perdidos: as mesmas razões invocadas há menos de 1 ano atrás para justificar uma derrota colossal de Trump nas primárias são as mesmas dadas agora para justificar a derrota de Trump em Novembro com um candidato democrata - apesar de a popularidade de Trump estar em crescendo.
4- Vale tudo para sacar o voto: Trump publicou uma foto sua a celebrar o 5 de Mayo enquanto comia um taco e colocava como legenda "I love hispanics"; Bill Clinton, que se diz vegano, andou no Kentucky a distribuir frango frito à população negra para fazer campanha pela mulher.
5- ‪#‎CrookedHillary, como já é conhecida, suscita cada vez mais desconfiança no eleitorado. São demasiadas acusações de que é alvo e as suas declarações só adensam dúvidas, dando muitas vezes o dito pelo não dito e tendo ainda pela frente a investigação do FBI.
6- Continuam ainda a ser divulgados os números dos doadores/patrocinadores da campanha de Hillary Clinton: Arábia Saudita, Qatar, Emirados, etc. E estes favores pagam-se. Por algum motivo Clinton tem mantido um discurso agressivo contra o Irão. Ou seja, "neocon Hillary", a republicana com pele de democrata. Não é por acaso que as pessoas acusam-na de desonestidade e de não ser de confiança. Perante tudo isto, ganha força a campanha ‪#‎DropOutHillary.
7- Neste momento, é muito pouco provável que Hillary Clinton ou Bernie Sanders consigam eleger delegados suficientes para garantir a sua nomeação no Congresso democrata de Filadélfia. É-o porque faltam poucos Estados e Clinton precisaria de eleger quase 700 delegados e Sanders perto de 1.000. Na prática, Hillary, que segue na frente, precisa eleger 66% do total de delegados disponíveis, o que significa que Sanders não pode eleger mais do que 34%. A menos que Clinton consiga uma vitória estrondosa (por números ainda não atingidos nestas primárias), o facto de os Estados estarem a ser bem disputados adia a decisão para a Convenção democrata e para os superdelegados.
8- E Sanders está a conseguir levar o jogo para prolongamento, apostando tudo nesta convenção: não deixa Hillary fugir, vai ganhando eleições e, com isso, pretende exercer pressão sobre os superdelegados. A maioria destes apoia Clinton, mas o objectivo de Sanders é recuperar cerca de 3,5 milhões de votos e, com isso, obrigar os superdelegados a mudarem o seu sentido de voto e apoiarem o candidato mais votado pelo povo. Esta é a réstia de esperança de Sanders: contrariar a regra da proporcionalidade e apostar no número de votantes. Se não conseguir recuperar em votos o que não consegue com delegados eleitos, dificilmente evitará a nomeação de Hillary Clinton.