Até ao momento, o desempenho de Paulo Portas tem sido aquilo que considero perto da excelência: Portugal tem o homem certo no lugar certo. Rara excepção neste Governo de Passos Coelho. De facto, tenho dúvidas que Portugal alguma vez tivesse tido um Ministro dos Negócios Estrangeiros tão activo, eficiente e carismático como Portas. Porém, nem sempre tudo corre como se deseja e, por estes dias, o líder centrista viu-se em duas situações embaraçosas. São elas:
- A gestão da pasta «Guiné-Bissau». Depois de afirmar que «o poder militar [guineense] é permeável ao narcotráfico» - tendo havido direito de resposta - e que «Portugal não entra em controvérsia com autoridades [golpistas guineenses] que não reconhece», Portas vê-se agora embaraçado pelas declarações dos EUA no sentido de estarem dispostos a colaborar com «qualquer pessoa que queira dirigir o povo da Guiné-Bissau para o progresso». Sim, concordo com a leitura que Portas faz da situação na Guiné-Bissau e acho que deve adoptá-la publicamente, mas... desde que nenhum dos habituais parceiros (como os EUA) assuma um comportamento que nos deixe isolados. Como será se a tendência se mantiver: «orgulhosamente sós» ou o nosso MNE trabalha com pessoas que relacionou com o narcotráfico e que dissera não reconhecer como autoridade;
- A presença portuguesa no Euro'2012. Uma vez mais, depois de se ter oposto (e muito bem) ao boicote a que Angela Merkel e Durão Barroso apelaram relativamente à presença de políticos europeus na Ucrânia, Paulo Portas não marcou presença em qualquer um dos 3 jogos de Portugal em solo ucraniano e, tanto quanto se sabe, não se encontrou ali qualquer representante do Estado português. Não sei se esta oposição ao boicote foi feita apenas para cair bem junto da comunicação social, mas o que é certo é que, tratando-se de mera coincidência, estranha-se que no jogo dos quartos-de-final, já na Polónia, tenham lá estado inúmeras personalidades ligadas ao poder político - era ver Miguel Relvas a festejar efusivamente o golo e a vitória e também a levar uma nega de Figo nas celebrações do golo (a coisa correu mal da última vez que Figo esteve próximo de um político). Sabe-se ainda que Luís Montenegro também esteve na Polónia. Para mal de muitos que gostavam de continuar a ver a bola ao vivo e de graça, Portugal já só pode jogar na Ucrânia (Donetsk e, se for à final, Kiev) e, ou muito me engano, ou Angela Merkel dá licença ou não teremos políticos nacionais nos jogos - algo que, por si só, não é mau de todo.
Perante isto, Paulo Portas tem muito em que pensar para conseguir inverter estes percalços: em primeiro lugar, ver bem que amigos realmente tem no exterior - tendo sempre a noção que nas relações entre Estados não há amigos, mas interesses; em segundo lugar, tratar de fazer com que às palavras correspondam acções - uma oposição a um boicote tem de ser mais do que dizer aos jornalistas que «não é correcto».
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